Georg Baselitz
Quando tiveram um filho abriu-se um novo capítulo da sua vida. É como se fosse dia um de Janeiro ou dia um de uma nova vida. Do bebé e deles. Esta criança nova vai cumprir as esperanças desencontradas dos pais. Cada um deles traz dois guiões. Um espontâneo, criado ao longo dos anos. O guião de mãe, construído a partir da identificação profunda com a própria mãe, a mãe real e a mãe ideal. E um guião correcto, o guião do pai e da mãe que todos queremos ser, os pais que fazem as coisas certas, no momento adequado.
O guião correcto está continuamente a ser escrito por todos os que, desde o dr. Spock, querem construir um mundo melhor com gente ilustrada. O pediatra está nesse grupo de gente. O pediatra maître a penser. Aquele a quem se pergunta tudo e a tudo responde. A posição no berço, a cadeira de transporte, a temperatura do quarto, o horário da mamada, a marca do aspirador lácteo, as gotas para as cólicas, as vitaminas, o trajecto do passeio diário.
O pediatra maître a penser gosta que lhe perguntem. Esquece-se de dizer que, na maior parte das vezes, não há evidência científica por detrás dos seu conselhos. Que as suas opiniões se baseiam na experiência individual, na opinião de peritos ou nas práticas da puericultura erigidas em saber científico.
Apesar de ser assim e assim ser apreciado, há perguntas a que um pediatra não deve nunca, mas mesmo nunca , responder. Juntámos algumas, para reflexão dos maitres a penser e dos que, a perguntar, lhes acariciam o ego.
- De que cor vão ser os olhos?
Perguntam na primeira consulta, ou na segunda, inevitavelmente. Pergunta geralmente o pai, na indagação inconsciente de sinais de paternidade. Ou pergunta a avó paterna, por procuração. A resposta popular é :
- Mais escuros, que esta cor ainda é a do leite.
A resposta do pediatra maître a penser é:
- Mais escuros, dependendo dos depósitos de melanina na íris.
A resposta do pediatra moderno é dar o endereço do site Techtech, que ensina a calcular a cor dos olhos a partir dos genes gey e bey 2, que controlam o depósito de melanina (http://museum.thetech.org/ugenetics/eyeCalc/eyecalculator.html).
A resposta eficiente é:
- Vai ter olhos como o pai.
Fortalece a vinculação paterna e é um serviço prestado a todos.
Mas o melhor a fazer é nunca, mesmo nunca, responder.
- Em que idade pode ir à piscina?
À piscina. À pissina (Viseu). À pexina ( Santarém). À pes - sina (Coimbra).
Pode ir quando quiser. Pode até nascer na piscina, em qualquer dos estilos olimpícos, de preferência com uma parteira em escafandro, com treino em suporte avançado de vida. Pode nascer e exibir aos convidados a natação automática, o diving reflex e fazer o contacto pele com pele, na versão húmida. Pode ir para a piscina em qualquer idade, com fralda estanque da Dodot, a fralda-piscina da Dodot. E ir com a avó à hidroginástica e o avô ao tanque da reabilitação. Pode responder o que quiser, que está sempre certo e de acordo com a mais moderna investigação.
Mas o melhor é nunca, mesmo nunca, responder.
- Para as cólicas dou o Simeticone ou o Dimeticone?
As gotas inglesas são melhores, claro. Vêm de Inglaterra, onde os bebés não têm cólicas desde o banimento de Lady Chatterley. Foram aconselhadas por um amigo que trabalha na Sonae e por um pediatra maitre a penser. Em relação à cólica do lactente a resposta adequada é dizer que se ignoram intervenções mais eficazes que os chás da herbanária.
Mas o melhor é nunca, mesmo nunca, responder.
A seguir: Pode ter um gato? Quando deve ir para o infantário? Como fazer a higiene do nariz? E se fosse seu filho?