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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Estudar e fazer trabalhos de casa é a mesma coisa?

Por Maria José Araújo*

Há uma diferença muito grande entre fazer trabalhos de casa (TPC) e estudar.

Estudar tem de ter a adesão voluntária das crianças. Deve ser algo que elas percebam e por que se interessem. Perceber que conhecer, aprender e ter a possibilidade de participar no mundo de uma forma informada é algo estimulante, e as crianças gostam deste sentimento. Estudar é perceber mais e melhor... O conceito de estudar é muito confuso para as crianças e elas só o vão percebendo com o decorrer da escolaridade e à medida que se vão confrontando com outras situações – como, por exemplo, estudar a tabuada, estudar para um teste – e, mesmo assim, tudo isso depende delas. A função de estudar, não sendo uma operação muito concreta, é algo que não é muito claro para as crianças nem, provavelmente, para os adultos com quem convivem. Ou será ?

As crianças têm múltiplos interesses que são desprezados em função da “matéria escolar”. Todos sabemos disto – o que muitas vezes não sabemos é o que fazer para corrigir esta desatenção. Se se confundir TPC com estudar, estamos a dizer às crianças que estudar é aquele trabalho repetitivo, cansativo e mecânico que é proposto na maior parte dos TPC. É muito importante que se entenda isto, senão para alem de uns bons momentos de convívio ao fim do dia em casa com os filhos, é o conhecimento e a própria Escola que estamos a desvalorizar.

A maior parte das crianças não gosta de fazer “trabalhos de casa”, mas aceita a obrigatoriedade da tarefa mais ou menos pacificamente. Outras, contudo, manifestam-se. Apesar das dificuldades (não sabem fazer ou estão cansadas após um dia na escola), os “trabalhos de casa” aparecem sempre como alguma coisa que faz parte dos seus quotidianos, que está naturalizada e que, portanto, não se questiona - (...) temos de fazer todos os dias e muitos... Ou cuja realização é condicionada pelo medo – se não fizer a minha professora ralha-me (...).

Há, como sabemos, muitas formas de aprender e de ensinar, como há muitas de estudar. O acto de estudar, como de ler, não é de fácil de ensino. Para ajudarmos as crianças a perceber o que significa estudar, qual o significado de estudar, é preciso respeitar algumas regras que se prendem com o ritmo de cada criança e com a forma que cada um arranja para satisfazer a sua curiosidade. As crianças são todas diferentes e, portanto, têm formas diferentes de se adaptar e se interessar.

Precisamos de compreender que as propostas de trabalho que exigem estudo e esforço têm de ser sentidas pelas crianças como verdadeiramente importantes e suficientemente interessantes para que a elas adiram com vontade e para que as valorizem, para que as trabalhem com gosto. Caso contrário, mal comecem a ter alguma autonomia, deixam o estudo aprofundado de lado e fazem somente o mínimo necessário para passar de ano. É neste sentido, que não se pode confundir TPC e estudo. Quando se obriga a memorizar e repetir, estamos a impor uma concepção já programada e raramente as crianças aprendem a pensar, a pôr em causa, e isso não as ajuda a perceber e ficar com vontade de continuar.

* Maria José Araújo é investigadora da Universidade do Porto e autora especializada em tempos livres.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Começar a estudar, desde já!

Por Bárbara Wong*



O novo ano lectivo começou há poucas semanas. Depois das apresentações e das revisões da matéria dada no ano anterior, os primeiros testes já estão marcados e os trabalhos já têm prazo de entrega. Eles ainda têm memórias das férias, volta e meia ainda há um dia ou outro que lembra a praia, o dolce fare niente, as tardes de leitura ou de jogos intermináveis.

Mas não! A rotina está aí, as aulas e as centenas de actividades extra-curriculares. E se estas últimas são às centenas, então, o melhor é desenhar um horário onde se meta tudo o que a criança tem e ver em que horas é que pode estudar e quantas sobram para brincar ou, pura e simplesmente, não fazer nada. As últimas são importantíssimas.

Antes que a escola recomende aos pais para se sentarem ao lado dos filhos, para supervisionarem se os trabalhos de casa estão a ser feitos. O melhor é anteciparmo-nos e fazermos isso mesmo. Não ficar só pela pergunta, gritada da cozinha: “Tens trabalhos? Já fizeste?”, mas ir lá ver se existem, se estão feitos e se têm um ar de resposta completa e não de qualquer coisa que se tirou das soluções, vindas no final do livro.

Eu sei, ao fim do dia, os pais estão cansados e a escola e os trabalhos de casa podem ser motivo para conflito com os filhos, uma guerra que se quer evitar. Mas não pode ser! Há que respirar fundo e manter a calma. Afinal, o ano é para começar com o pé direito e levá-lo pelo melhor caminho possível.

Além disso, os filhos gostam, mesmo que não o admitam, que os pais se interessem pelos seus assuntos, que os acompanhem, que os “chateiem”, que estejam ao seu lado a apoiá-los e apoiar não é fazer o trabalho, é ajudar a descobrir a resposta, a fazer pesquisa, a procurar e não “chega-te para lá que eu faço isto, que é muito mais rápido!”.

É impossível prometer que serão horas bem passadas, mas serão certamente horas que vão ajudá-los a conseguir melhores resultados.

*Bárbara Wong é jornalista do Público, especializada em educação.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Este post nasceu comentário...

... mas o Bebé Filósofo gostou tanto que resolveu dar-lhe as honras devidas e publicá-lo aqui.
Obrigada, João Colaço pela sua história, pela perspectiva que nos trouxe. Continue(m) por aí!

Por João M.S.Colaço*



Belo texto, que me fez acordar para um tempo em que meus pais andavam atarefados, mas deixavam aos filhos a missão de se cuidarem.

Belos tempos em que o meu infantário era numa seira de palha ou cana, que era transportada na carroça da vaca e que depois era depositada na "cabeceira" da leira de terra onde os meus pais se envolviam na tarefa do amanho da terra que nos havia de recompensar com a produção agrícola que nos mitigava a fome.

Se estava sol, por cima da cesta era colocado um enorme guarda chuva que me fazia sombra e quando começava a desaparecer a sombra, logo vinha uma mão amiga, rodar o mesmo.

Se eu chorava, logo sabiam o que criança queria, e se tivesse a fralda molhada logo era substituida por outra e guardada a suja para meter em casa na barrela.

Se a criança chorava mais forte, logo vinha a mãe que, pelo caminho apanhava uma folha de couve bem verdinha para lhe limpar o rabo...

Os dias foram passando, esta criança foi crescendo neste belo infantário, até que começou a ter contacto com a terra onde começou a pousar os joelhos. Ela apanhava um punhado dessa terra, cheirava-a e levava-a à boca para a saborear e nesse momento logo vinha um dos pais aflitos limpar a boca ao menino.

Foi, fazendo castelos com a areia da leira, areia essa que lhe daria o alimento que ela tanto viria a necessitar, e ouvindo a música celeste produzida pelas centenas de pássaros que com ele vinham brincar e tagarelar também. Se fosse Inverno, a casa de uma vizinha já idosa, era o local onde a criança ficava,onde sentada no borralho, ia aprendendo outros segredos da vida e ouvindo histórias fantásticas.

Foi neste infantário fabuloso,onde havia animais de toda a espécie, com os quais o menino partilhava o espaço, que esse menino foi crescendo,até ir para a escola primária.

Uma escola linda, onde ele teve medo de entrar no primeiro dia de aulas.

A mãe e o pai foram com ele, para lhe ensinarem o caminho, mas no fim do dia de aulas, já o não foram procurar, pois ele já sabia o caminho para casa.

Um dia e outro e, mais outro, e chegou o dia em que o menino teve que ir fazer exame da 4º classe à escola da vila.

Parecia um príncipe, com camisa branca, um fato novo de casaco e calções,sandálias e meias compradas só para esse dia.O pai acompanhou-o, esperou pelas provas e aqui já era necessário ele começar a conhecer outros espaços, que seriam a sua segunda casa nos próximos anos, durante grande parte do dia.

Ali ao lado da escola, havia o colégio, um monstro onde este menino deveria começar a esgrimir a sua pesada espada, para se fazer homem.

Como as aulas começavam logo em tempo de chuva, lá ia ele com um saco de adubo vazio, dobrado ao meio e enfiado na cabeça, como uma capucha serrana, pois não havia dinheiro para lhe comprar uma gabardina, levando na mão uma pasta de cabedal onde carregava só os livros e cadernos para as disciplinas que teria em cada dia.

Assim este menino foi crescendo, brincando sempre em contacto com a natureza e se foi fazendo homem até ao momento em que foi servir a nação como militar.

Foi militar, andou na guerra do Ultramar, e fixou-se nessa cidade, onde todos são surdos e mudos e ninguém se conhece. Mas, apesar de tudo,ali constituíu família e ali procriou, sem ter tido a possibilidade de dar ao seu filho o prazer de andar pelas poças da água descalço e a chapinhar, de meter as mãos na terra e cheirá-la e saboreá-la, de viver na companhia da passarada, pois na cidade até estes fogem do ser humano. Ali fez a sua vida, ali criou seu filho e quando chegou a hora de ter que abandonar o seviço, pois já havia cumprido uma missão a que se entregou de alma e coração, regressou à sua terra natal, onde reiniciou muitos dos rituais por que havia passado enquanto criança.

Como seria bom que aquele belo infantário ainda fosse hoje aproveitado e para os que já estão em provecta idade, este espaço se transformasse agora num centro de apoio à terceira idade.

Depois da realidade, aquele menino continua agora a sonhar!


* João tem 63 anos de idade e é aposentado, colocou este texto originalmente como comentário ao post "O Bairro do Amor".

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Trabalham as crianças tanto como os adultos?

Por Maria José Araújo*

Em Portugal, as crianças que frequentam o 1.º Ciclo do Ensino Básico trabalham 5 horas na sala de aula (25 horas por semana). Depois têm actividades extra-curriculares ou de enriquecimento curricular e, ainda, os trabalhos de casa.

Tudo somado as crianças trabalham cerca de 7/8 horas diárias em função da socialização escolar. Um adulto trabalha cerca de 7 horas e meia por dia (37,5 a 40 horas semanais). Olhando para o tempo médio de um adulto e de uma criança, percebemos que as crianças trabalham no seu ofício de alunas tanto quanto um trabalhador adulto.

Para uma criança, o trabalho escolar, com tudo o que ele comporta de actividade, representa o exacto equivalente ao trabalho profissional de vida de um adulto. Mas enquanto a duração do trabalho profissional exige um grande descanso para a maioria dos adultos, o trabalho escolar é cada vez mais desenvolvido dentro e fora da sala de aula. Há mais de 20 anos que se fala de excesso e de malefícios físicos, psicológicos e morais para as crianças. A cultura escolar sobrepõe-se à cultura lúdica e é “imposta” na maior parte das actividades que são propostas às crianças e aos jovens no seu tempo livre, um tempo que não tem sido considerado como um tempo de descanso ou como um tempo em que eles possam escolher o que fazer. As actividades de lazer no tempo livre têm sido banidas, salvo se houver um feriado ou férias. A psicologia da infância e da adolescência, assim como as ciências da educação e a sociologia da infância, têm denunciado e reagido a este regime de trabalho escolar, que continua não só a ser praticado como até a ser desenvolvido, vulgarizado e disseminado.

As crianças vão reagindo inventando formas múltiplas de resistência a um trabalho cujo sentido não é explícito e muitas vezes é excessivo e cansativo. Não é tanto só a quantidade que é problemática (pois as crianças gostam de ter que fazer), mas por ser uma tarefa repetitiva, uma actividade constante que não vai ao encontro das realidades culturais e cognitiva e às motivações das próprias crianças, entre outras razões.

Na verdade, a escola é muitíssimo importante, mas depois das aulas as crianças têm de fazer outras coisas.

Têm de brincar e descansar.



Maria José Araújo é investigadora da Universidade do Porto

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Bairro do Amor


“Para criar uma criança é preciso uma aldeia inteira”

provérbio africano


Há coisas que só percebemos quando, de repente, sem estarmos à espera, olhamos em volta e tudo faz sentido. Eu não gosto de fazer planos, antes imaginar que ando ao sabor do vento e do destino. Esta filosofia, se assim se pode chamar, tem, obviamente, muitas falhas. Porque a verdade é que, mesmo inconscientemente, acabamos por procurar aquilo que queremos. Podemos é fazê-lo de forma tão despistada que nem damos por isso. E ser surpreendida com os resultados.

Foi o meu caso. Um dia, por uma sucessão de acontecimentos que simplesmente encaixaram uns nos outros, dei por mim a mudar de casa. Uma casa sobre a qual tínhamos feito uma reportagem uns anos antes e que não me saia da cabeça. Ao telefone eu comentava com uma amiga que um dia gostava de viver ali. Ela disse: “olha, ouvi dizer que está disponível”. Menos de um mês depois eu e o meu marido estávamos a mudar as tralhas.
Dois dias antes de começarmos a carregar caixotes, descobri que estava grávida. A minha barriga e o meu bebé já iam crescer ali.

É uma terra pequenina. Todos os dias quando saio de casa e cheira a mar, tenho a sensação que estou de férias, sem estar. Ao início estranhei a senhora da farmácia a perguntar se eu andava a tomar as vitaminas pré-natais ou os “bom dia” e “boa tarde” repetidos a cada 5 metros quando passeava na rua. Cresci e vivi no centro de Lisboa até me casar e o anonimato da cidade sempre foi das coisas de que mais gostava. Nunca me imaginei a viver de outra forma.

Até virem os bebés. Ela primeiro. E eu que não queria mandá-la para a escola antes dos três anos, constatei, ainda não tinha passado um ano, que não ia ter alternativa. Corri uma série de infantários. Uns tinham chão aquecido nas salas, outros, hortas biológicas ou piscinas de bolas. Todos cobravam mensalidades de (muito) mais de metade do meu ordenado. Em todos, durante os vinte minutos da visita, ouvi bebés a chorar, sempre os mesmos bebés, à espera de colo de alguma educadora ou auxiliar atarefada.
Mais uma sucessão de acontecimentos felizes e acabei por entregar a minha bebé ao único infantário onde não havia vagas, nem chão aquecido, nem luxos tecnológicos. Havia boa vontade, colos disponíveis e, mais importante, havia amor.
Tive muita sorte.

Como devia acontecer em todas as escolas, aqui as mensalidades são calculadas em função do rendimento dos pais. Como devia acontecer em todas as escolas, aqui todas as funcionárias desde a limpeza, às cozinheiras, passando pela directora, sabem o nome de todas as crianças. Como devia acontecer em todas as escolas, aqui há comida saudável e boa, feita, não por uma empresa, mas por cozinheiras a sério que mandam vir do talho carninha boa para os meninos e misturam maçã cozida na papa dos bebés. Como devia acontecer em todas as escolas, há regras e rotinas diárias, mas há também excepções, e meninos, que em vez de estarem na sala, andam a passear ao colo da directora pela escola fora, porque nesse dia estão mais tristes e há que lhes dar atenção especial.

E há música desde o berçário e, à medida que crescem, ginástica e ballet e natação. Tudo dentro do horário escolar, que a partir das cinco da tarde o trabalho das crianças é brincar. Não há muitos luxos, não é preciso. Há tudo o que as crianças realmente querem nestas idades: atenção, carinho, segurança. E há uma família na escola, de braços abertos para a família de casa.

Sei hoje que tive muita sorte. Ainda não tinha a ecografia do primeiro trimestre e o bebé número dois já estava matriculado. Lá anda ele, de colo em colo. A mais crescida chegou a chorar nas férias com saudades da escola. Até eu já tinha saudades do cheiro a sopa às 9 da manhã e o carrinho com maçãs cortadas para a merenda a passear pelas salas.

Levo os dois de manhã, um ao colo, a outra pela mão, o cão pela trela. É só subir a rua e estamos lá. À tarde, descemos a rua. Às vezes vamos até ao jardim, outras eles ficam a andar de triciclo e bicicleta na rua, com outras crianças do prédio e da escola. Ou apanham a senhora do quiosque que lhes dá beijinhos e bolos. No café ao fundo da rua, há outra senhora, com o mesmo nome da mãe, que põe a menina atrás da caixa registadora ou a leva para a cozinha para ajudar a fazer bolos.

Dizemos “bom dia” e “boa tarde” a cada cinco metros enquanto andamos na rua. E eu penso que, mesmo sem planear nada disto, não podia ter resultado de forma mais perfeita.
E tremo ao pensar que um dia eles vão sair e descobrir que o resto do mundo não é todo assim.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Regresso às aulas



Por Bárbara Wong*

As férias terminaram e Setembro já começou. Se antes de ir de férias não o fez, então agora é a altura certa: uma limpeza ao local de trabalho dos mais novos, de preferência com eles, para que aprendam a fazê-lo sozinhos, para que não estejam constantemente a perguntar aos pais onde é que está isto ou aquilo – eles sabem, eles arrumaram, lembram-se?

A limpeza serve para guardar os cadernos do ano lectivo passado, os livros (deixar apenas os das disciplinas cuja matéria é sequencial, as gramáticas, dicionários e outros livros auxiliares), e deitar fora o restante material obsoleto (as canetas que já não escrevem, os lápis partidos, os pedaços de borracha, etc).

Feita a limpeza é possível escrever uma lista do que é preciso comprar e que será muito pouco, porque os maiores pedidos de material vêm das disciplinas de EVT e Educação Física e, se a criança não tiver perdido ou estragado, esse material pode passar de ano para ano, até ao secundário!

Logo aqui é uma grande poupança porque não precisa de comprar todos os anos os pincéis, godés, lápis de cera, réguas e esquadros, etc; provavelmente terá que comprar canetas de filtro, guaches, cola e as sapatilhas para a ginástica porque a criança cresceu.

O menino quer um estojo do herói em voga, mas o do ano passado está bom. É uma questão de explicar isso mesmo e se tem que comprar novo material evite a Dora, a exploradora, as princesas da Disney, o Pooh, o Ben10, de maneira a que nada passe de moda e possa continuar a ser utilizado. Ou escolha heróis eternos como o Homem-Aranha e o Snoopy!

Quanto aos livros escolares - por esta altura já estão todos encomendados – veja se os irmãos mais novos podem herdar algum dos mais velhos. Para cada disciplina, é normal haver livro e caderno de exercícios, provavelmente só precisará de comprar os cadernos de exercícios, caso frequentem a mesma escola e não tenha havido novas adopções de manuais. Mais uns euros poupados!

Uma secretária arrumadinha, bonita, com todos os livros e cadernos (ou dossiês) alinhados, é meio caminho andado para entusiasmar uma criança para o novo ano lectivo que se aproxima! A expectativa de rever os amigos, os professores, a escola é muita! Há meninos que nem dormem por estes dias, sobretudo os que vão mudar de turma ou de escola.

Visitar a nova escola antes de as aulas começarem é bom para a criança porque lhe permite desmistificar a ideia que tem do estabelecimento de ensino. Se puder conhecer o professor ou director de turma, por estes dias, melhor ainda. Muitas escolas preparam actividades de integração dos novos alunos, o que é positivo. Transmite-lhes outra segurança saber onde são as salas de aula, as casas de banho, o refeitório; do que andar à deriva pelo recreio, com medo de perguntar.

Aos pais cabe-nos transmitir-lhes estabilidade, segurança e confiança, mesmo que tenhamos as mesmas borboletas no estômago... Bom regresso à escola! Ah! E lembrar-lhes que não é só ir à escola passear o material escolar, que o novo ano se conquista desde o primeiro dia de aulas: concentrados, com atenção e respeito pelos professores e colegas.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Documentos médicos nas matrículas escolares

Há dois anos, a Sociedade Portuguesa de Pediatria tomou uma posição pública sobre alguns documentos e atestados médicos para a matrícula escolar de crianças, exigidos especialmente em creches e infantários particulares ou IPSS. Embora na altura houvesse algumas manifestações das entidades competentes em promover algumas alterações a estas exigências, tanto quanto se sabe, estas situações poderão continuar a ocorrer. Desse modo, é bom alertar os pais de que estes documentos pedidos pelas escolas, pouca ou nenhuma utilidade têm, sendo até desprovidos de sentido. Convém ler:  

Comunicado da direcção da Sociedade Portuguesa de Pediatria

Todos os anos, aquando das matrículas escolares os pais defrontam-se com uma multiplicidade de exigências burocráticas, certamente respeitáveis, mas cuja finalidade não é imediatamente compreensível.

Uma delas é a declaração médica de robustez física, ausência de doenças infecto-contagiosas e cumprimento do Plano Nacional de Vacinas.

A frequência de um estabelecimento escolar é um direito das crianças e das famílias e, durante parte da infância e adolescência, uma obrigação. Os pais devem ser responsáveis pela saúde dos filhos, e as crianças e adolescentes devem ser examinadas com a periodicidade recomendada pelo Boletim de Saúde Infantil. O cumprimento do esquema vacinal é um motivo de orgulho dos nossos Cuidados Primários de Saúde. A comunicação dos médicos com as escolas é desejável. O que se contesta é a utilidade de, periodicamente, os pais terem de entregar para um qualquer depósito escolar, uma declaração vazia de conteúdo e de sentido sobre a qual a SPP já antes se tinha pronunciado, nomeadamente através da sua Secção de Pediatria Ambulatória.


Alguns estabelecimentos de ensino aumentaram a parada e, sempre invocando um despacho normativo, pedem agora o grupo sanguíneo das crianças a matricular. Esclarece-se que este requisito é, mais uma vez, desprovido de sentido.


O conhecimento do grupo sanguíneo não confere qualquer vantagem ao seu portador, mesmo em situação de emergência. A administração de sangue é de competência hospitalar e os laboratórios administram-no, quando necessário, após provas de compatibilidade, ou, em situações muito raras de extrema urgência, recorrem a sangue compatível. Por outro lado a determinação do grupo exige a colheita de sangue, experiência que deve ser reservada às situações em que haja melhor indicação.

Finalmente, o grupo sanguíneo representa um dado pessoal, que cabe aos pais e à criança decidir quando, e em que circunstâncias, deve ser conhecido.


A Sociedade Portuguesa de Pediatria alerta os pais para a ilegitimidade destes pedidos aquando das matrículas escolares e recomenda aos médicos que não emitam declarações sem razões plenamente justificadas pelos interesses das crianças.


Direcção da Sociedade Portuguesa de Pediatria

(originalmente divulgado a 16 de Junho de 2008)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A escola ideal




Por Bárbara Wong*

A pedido do Bebé Filósofo escrevi este post. Aqui vai:

Sabendo que escrevo sobre educação, colegas de profissão, leitores do PÚBLICO e amigos perguntam constantemente: “Conheces a escola x? O que te parece a escola y?”. Por isso, em 2008 decidi escrever "A Escola Ideal: como escolher a escola para o seu filho dos 0 aos 18".

Há escolas com equipamentos de topo, com chãos amortecedores de quedas, escorregas e câmaras de filmar (o que para mim é assustador! Há quem pense que a câmara o ajuda a proteger o filho e não pensa que está a invadir privacidade da criança)... MAS, com um corpo docente fraquinho, que muda anualmente, que não desafia as crianças, pouco comprometido.

Há escolas que parece que pararam no tempo, com mesas com ângulos afiados, com demasiados degraus, que quebram algumas regras de segurança... MAS com um corpo docente espectacular, familiar e profissional.

Há escolas novas com bons profissionais e escolas velhas onde tudo é mau... MAS não há escolas ideais porque, por muito boa que a escola seja não é como nós realmente idealizamos, porque as escolas são feitas de/por pessoas.

No livro, além de calendários para planificar todo o processo de procura, visitas e tomadas de decisão, proponho um gráfico para os pais preencherem à medida que vão conhecendo as escolas em que estão interessados, este depois de preenchido pode ajudá-los a escolher. Além de conselhos objectivos, acrescentei informação prática sobre matrículas, calendarização das mesmas e afins. Sem esquecer as crianças com necessidades educativas especiais ou situações como mudar de escola a meio de um ciclo.

Em resumo: O que é que os pais devem ter em conta na hora de escolher a escola? O corpo docente, o projecto educativo, as instalações e nunca, mas nunca escolher sem fazer uma visita. Se a direcção não abrir as portas, esqueçam, não vale a pena. As escolas não devem ter segredos para os pais.

No dia do lançamento de A Escola Ideal, a mãe de uns amigos dos meus filhos veio dizer-me que estava satisfeitíssima porque tínhamos os filhos na mesma escola, logo, aquela só podia ser a melhor do país! Eu não tenho dúvidas, MAS conheço pais que tiraram de lá os filhos para os por noutras ainda melhores! O que é que isto significa? Que nem todos procuramos a mesma coisa!

*Bárbara Wong é jornalista no "Público" há 13 anos, especializada em temas de Educação, Ensino Superior e Família. Em 2005 ganhou o prémio de jornalismo "A Família e a Comunicação Social", com um texto sobre os pais que partilham tarefas com as mães, intitulado “Um homem na sala e na cozinha”.



Em 2008 publicou o livro "A Escola Ideal: Como escolher a escola do seu filho dos 0 aos 18 anos". É co-autora, com a professora Ana Soares, do blogue Educar em Portugues. É casada e mãe de um rapaz e de uma rapariga.