Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O melhor presente do mundo

Por João Paulo Batalha*

É uma questão de marketing, suponho. Mudar a embalagem, dar-lhe um tom design. Pôr-lhe um daqueles selos tridimensionais com uma figurinha que muda de posição. Talvez ajudasse. É caso, seguramente, para contratar uma consultora estrangeira em marketing criativo que venha definir, a preço de ouro, a melhor maneira de vender a coisa. Porque é mesmo o melhor presente do mundo. A sério.

Várias vezes estive tentado a oferecê-lo aos meus irmãozinhos mais novos (e a cada oportunidade, sei que já viria mais tarde do que devia). Mas depois imagino o ar de desilusão que fatalmente lhes trespassaria a face e desisto – e eles já estão naquela idade em que sabem que é de bom tom fingirem que gostaram da prenda, mas ainda não estão naquela idade (e espero que nunca estejam) em que são bons no fingimento. Seria embaraçoso para todos. De modo que fica por oferecer, o melhor presente do mundo.

Senhores, o melhor presente do mundo: um cartão de biblioteca. Ridículo, não é? Um cartão de biblioteca, o melhor presente do mundo? Para crianças? Em que mundo?

Pois.

E no entanto, digo eu, oxalá fosse o mundo assim tão simples. Assim tão belo. Um cartão de biblioteca em vez de uma boneca esgotadíssima com uma câmara no pescoço (que mente doente se lembrou dessa?) ou um robot-transformer-destroyer para guerras a brincar que, se bem usado, leva o pequenito utilizador a um frenesim capaz de provocar guerras a sério – e ele que vá treinando, isto o mundo é uma selva.

Eis o problema: os tipos do marketing trabalham para o inimigo. Tal como um bom brinquedo – ensinam-nos eles – o amor é grande e brilhante e tem luzinhas e várias peças que se movem e dispara raios mortais pelos olhos e é capaz de destruir uma cidade e tirar vidas carregando no botãozinho (pilhas vendidas separadamente).

Além de que, na era do Google e da Wikipedia, ir à biblioteca para quê? Pior: ler para quê? É uma pergunta assassina nos tempos que correm, porque exige uma resposta longa e aborrecida – e isso já não se usa. Exige explicar que ao contrário de um filme ou um vídeo, que acontecem nos nossos olhos, a leitura acontece na nossa cabeça, na nossa imaginação. Ao ler um livro estamos a criá-lo, estamos a escrevê-lo na nossa mente, na nossa fantasia, com as palavras que tomamos emprestadas ao autor. Estamos a desenhar as feições das personagens, a arquitectar as cidades e os espaços na nossa imaginação.

Um filme é um filme, um jogo é um jogo. Estão ali à nossa frente e, bons ou maus, são o que são: os seus criadores construiram um universo visual, uma narrativa, e mostram-na tal como a imaginaram. Eles criaram, nós consumimos. Um livro não, porque um livro passa-se na nossa cabeça, porque não sendo visual obriga-nos a visualizá-lo na nossa imaginação. Um livro, o autor limita-se a escrevê-lo. É o leitor que o cria.

Ler por isto, digo eu. Ler porque não há substituto. Ler porque procurar uma coisa no Google não é aprender, é consultar. Ler porque das duas umas: ou alimentamos a nossa cabeça com produtos acabados – e aí somos consumidores – ou alimentamo-la com matéria-prima – e aí somos criadores.

As bibliotecas hoje, garanto-vos, existem em todos os cantinhos deste país e existem felizes e de portas abertas. E adoram crianças, e as crianças retribuem. Com espaços e programas especiais para o público infantil, com leituras de contos, com actividades, com descobertas. Porque também se aprende a leitura, e a relação com o livro, e a responsabilidade de levar um livro para casa e ter de devolvê-lo a tempo e em condições, porque ele pertence aos outros, aos nossos vizinhos, à comunidade, ao mundo. E aprende-se a solenidade saborosa de estar em silêncio numa sala de leitura – que é um ambiente que pode intimidar uma criança, “pouco barulho que há pessoas a ler”, mas que se aprende e que se adora (ou não me digam que o que se ama, o que verdadeiramente se ama nesta vida, não teve de ser aprendido?)

E é grátis. Digam-me lá, gurus do marketing, não se faz daqui uma campanha?

*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças. 

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O quê?... Os Adultos não sabem?

Por Maria José Araújo*




"O Quê?... Os adultos não sabem?", o livro lançado ontem, dia 1 de Junho, tem algo de especial: é um livro para adultos escrito por crianças. Este é um discurso que tem o sentido inverso dos livros para crianças, que são escritos por adultos. Neste livro, as crianças tentam explicar, muito à sua maneira, que precisam que os deixem brincar. Que esse é também um direito que têm e que deve ser respeitado como direito fundamental que é. Por um lado é uma voz em contra-corrente num tempo em que a tendência para a sobre-ocupação e a hiper-programação das agendas diárias das crianças atinge níveis muito complicados, e por outro, mostra que para as crianças, brincar está presente em todas as situações de aprendizagem, mesmo as mais formais.



Este trabalho faz parte de um projecto de Educação Criativa desenvolvido ao longo de três anos com crianças do 1º ciclo do Ensino Básico da escola EBl/JI do Cerco do Porto (Agrupamento de Escolas do Cerco). Foi desenvolvido pelos alunos Ana Lima, Ana Rita, Ana Sofia Coelho, André Nelson, Bruna Costa, Bruno Bompastor, Catarina Sousa, Claúdia Gomes, Daniela Duarte, Denise Navarro, Frederico Amaral, Iara Moreira, Joana Vilarinho, João André, Miguel Fernandes, Nádia Costa, Pedro Alexandre Silva, Renata Mendes, Ricardo Ribeiro, Ruben Neves e Tiago Moura, que se iniciaram na escrita formal em 2007.



Para estas crianças, cujo sonho era fazer "um livro de capa dura", escrever um livro é brincar com o pensamento, comunicar por palavras e fazer desenhos. Foi assim que fizeram. Hoje estão emocionados e excitados com a apresentação da sua obra, o momento tão ansiosamente aguardado após tanto tempo de trabalho.



ARAÚJO, Maria José e MENDES Catarina (Org) (2010).
"O Quê?... Os Adultos não sabem?" Lisboa: Prime Books

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Planeta Tangerina


Esta revelação não tem interesse nenhum. É daquelas coisas que uma menina diz aos pais, como se fosse importante, e a que ninguém liga. Eu não gosto de tangerinas. Não gosto do nome, designando uma habitante de uma cidade árabe onde nos perdemos e o acolhimento oculta uma armadilha. Não gosto do cheiro, que perdura, e se agarra à pele e indica que ali esteve alguém a comer. Não gosto das cascas, nem da palavra casca. Nem de gomo ou da ideia de gomo. Nem dos fios brancos que os separam. Nem das sementes, tão abundantes, esse desperdício de embriões excedentários.
Dito isto, que releva da psicologia das profundidades, devo confessar que há uma Tangerina especial. Uma que nunca me enganou. Ouvi falar dela numas sessões literárias que se organizavam uma vez por mês, na cidade onde vivo, e acabaram, como quase tudo acaba na cidade onde vivo. E gostei logo dela, da Planeta Tangerina, a editora dos livros bonitos, para ler às crianças. Livros especiais. Delicados, diferentes. O livro do pai, o livro da mãe. O livro que ensina aritmética, porque tudo o que nos rodeia é contável e de muitas maneiras. O livro da autoestrada e da EN. Do avô e do neto. Do mesmo minuto nas várias partes do nosso mesmo mundo. Das palavras com que tomamos conta dos dias deles: depressa devagar.
Os mais velhos diziam: são bonitos mas as crianças não lhes vão ligar. Experimentei: as crianças ligam-lhes. Como os adultos na sessão literária.
Diziam: são livros bons para os pais. E é verdade. São livros para os meninos e meninas que há nos pais e nas mães. Que é onde os filhos olham e se espantam. E ronronam de prazer. E ficam quietinhos a escutar. E querem contar também, à sua maneira.
A Isabel Minhós Martins, a Madalena Matoso, a Yara Kono, o Bernardo Carvalho, a Carolina Cordeiro e a Cristina Lopes são os talentos do Planeta Tangerina. Fazem tudo bonito e com cores fascinantes. Até os selos, os timbres que se colam nos envelopes a dizer CONTÉM LIVRO. E estes envelopes contêm livros do Planeta Tangerina.
Também fazem agendas. A agenda azul de 2010 do Sr. Rufino, da Rufino & Filhos desde 1948, Drogaria, Ferragens, Bricolage, que é um senhor muito melhor que o senhor Moleskino e nunca se há-de vulgarizar, porque as pessoas importantes não hão-de querer os dias assinalados por canhões de sanita ou bichas de chuveiro.


Planeta Tangerina
www.planetatangerina.com