quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A Pediatria


Por Luís Januário, presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria*

Vivemos os tempos conturbados de uma crise mundial que alguns querem reduzir aos aspectos quase caricaturais da política nacional mas que é uma crise civilizacional, cujas causas, dimensão, profundidade escapam ao indivíduo comum mas que é seguramente demorada, com reflexos na comunidade que somos e sem saídas visíveis.

O Estado emergente da segunda guerra mundial e do triunfo das democracias esboroa-se, sem que se vislumbrem propostas que assegurem que as suas funções mínimas - nomeadamente na saúde, educação, justiça - serão substituídas por modelos capazes de assegurar o bem estar geral, o respeito pelas minorias, a igualdade de oportunidades.

O ser humano, asseguram os neurobiólogos, é incapaz da visão de médio e longo prazo.

A civilização da ilha da Páscoa derrubou até à última árvore para levantar as estátuas das divindades, os maias desmataram as florestas, os habitantes do Chaco Canyon não resistiram à alteração ambiental que ajudaram a produzir.

Por outro lado o nosso cérebro produz permanentemente imagens, uma construção autobiográfica, uma falsa causalidade entre eventos díspares, dominado por uma compulsão para dar explicações, encontrar uma razão profunda na vida - mesmo quando nenhuma razão, nenhuma coerência, são prováveis.

Nenhum privilegiado renunciará ao que considera o direito adquirido, mesmo que este o tenha sido pelo roubo, o engano dos crédulos.

Destruiremos as florestas como os habitantes da ilha da Páscoa, e nenhuma memória do passado nos salvará enquanto alguns beneficiarem alguma coisa e a turba não sentir a fome, a miséria e a doença (que é um pouco diferente de “o povo sentir as dores do governo”).

É neste cenário de fim de festa que crescem a crianças da Europa, de maneira desigual consoante a cena decorra na Calheta ou em Cascais mas todas unidas na contracção demográfica, na superioridade relativamente aos mais fracos, no desconhecimento e no medo do Outro (seja ele o cigano, o árabe ou o subsahariano).

No caso português é importante juntar a estes factos outro, mais antigo e mais importante: muitas das nossas crianças são pobres. Somos o país europeu com mais pobreza infantil e onde os factores de stress económico são mais importantes tais como os de privação material (condições materiais de vida, habitação, posse de bens duráveis, capacidade de obter as necessidades básicas).

Só conseguiremos responder às questões das crianças e das famílias se juntarmos à nossa visão especializada uma outra, de carácter global, sobre a infância.

Nos dias de hoje essa visão não pode ignorar as alterações sociais que criaram uma sociedade de filhos únicos, na cidade de betão sem passeios nem quintais, com creches e ATL,s impondo ritmos que, como veremos neste congresso, são muitas vezes mais exigentes do que os impostos aos adultos empregados.

Dez por cento das crianças entre os 9 e os 17 anos têm problemas de comportamento. Os problemas de comportamento atravessam todas as idades e são o motivo explícito ou o não-dito de muitas consultas.

Os avanços tecnológicos informatizaram os serviços muitas vezes na perspectiva da facturação.

A facilidade de contacto com colegas de outros centros e de outros países e o acesso on line à informação tem uma contrapartida: muitos pais também procuram informação na rede, tornando a questão da administração da informação e da comunicação uma exigência.

A profissão de pediatra é hoje exercida no feminino.E as mulheres trazem ao exercício profissional um repto: como conciliar a família com a carreira?

O Serviço de Saúde modificou-se. Na crise económica um sector que parece rentável é o da saúde. Os capitais privados investem na saúde criando uma competição que seria saudável se não enfraquecesse o SNS, capturasse mão de obra especializada após mais de 20 anos de elevado investimento e num ambiente em que as regras de respeito pela carreira médica- e a própria noção de carreira médica- foram congeladas.

O que procurámos fazer foi assegurar a centralidade destas questões, promover a investigação e a formação, a ligação à investigação antropológica, linguística, biológica, sociológica, filosófica.

Crentes de que, se houver resposta, ela terá de ser encontrada nas nossas baixas origens, como dizia Darwin, na nossa animalidade, que está paradoxalmente próxima da natureza e da divindade.

Acabo como comecei: quando deixo o meu cérebro à solta ele dá-me, apesar dos tempos cinzentos, uma mensagem de optimismo. Não interessa que este optimismo seja, ele também, sem ligação com a realidade, apenas uma manifestação mais da pressão selectiva da evolução. Os meus antepassados optimistas foram bafejados na lotaria genética da procriação e é a eles que agora agradeço esta característica, que sei partilhar com muitos de vós e em última análise nos reúne aqui hoje.

* discurso de abertura do 11º Congresso Nacional de Pediatria que decorre até 8 de Outubro no Funchal e reúne mais de 700 pediatras.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Bebés devem viajar semi-sentados desde o primeiro dia...

... e virados para trás até aos 3 ou 4 anos.


Recomendação da Direção Geral da Saúde

Segundo uma actualização publicada no sítio oficial da DGS referente às regras de transporte de crianças em automóvel desde a alta da maternidade, “o recém-nascido deve viajar semi-sentado desde o primeiro dia”, num sistema de retenção apropriado, salvo raras excepções. Assim, as alcofas só devem ser usadas em casos especiais, como o de recém-nascidos prematuros, segundo recomendações da Sociedade Portuguesa de Pediatria.

Do mesmo modo, as crianças até aos três ou quatro anos devem viajar voltadas de costas para o sentido de trânsito. “Caso seja mesmo necessário, só a partir dos 18 meses será admissível que a criança viaje virada para a frente”, sublinha a recomendação.

O mesmo documento, citado pela agência Lusa, refere ainda que só com estas posturas se consegue, em caso de acidente, a devida protecção da cabeça, pescoço e região dorsal. A autoridade de saúde lembra que os sistemas de retenção, designados por cadeirinhas, reduzem entre 90 a 95% os casos de morte ou ferimentos graves em crianças.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

20 anos

No dia em que se assinala os 20 anos em que Portugal ratificou a Convenção dos Direitos das Crianças, a notícia da agência Lusa:

"As crianças portuguesas são cada vez menos livres e menos autónomas, mas capazes de comandar a família, defende a Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP) , lamentando a falta de tempo e espaço para os mais novos de hoje brincarem.


O presidente da SPP assume a dificuldade em falar do estado da infância em Portugal pela disparidade de realidades, mas considera que a sociedade atual é feita de "adultos egoístas e infantilizados e de crianças sabidas".

"O pequeno ditador saiu dos livros para a realidade, hiperativo e desatento, decidindo os consumos da família, inundado em calorias, com televisão no quarto e 'playstation move' na sala, uma das únicas oportunidades de atividade física", comenta Luís Januário à agência Lusa.

Duas décadas depois de Portugal ter ratificado a Convenção sobre os Direitos da Criança, data que se assinala amanhã, o pediatra retrata as cidades portuguesas como um obstáculo às brincadeiras na infância.


Cidades perigosas


"As cidades foram bombardeadas pela união nacional dos autarcas e dos empreiteiros que liquidaram os quintais, as matas, os olivais, os pinhais, as praças e os terreiros. As ruas e as passadeiras são perigosas e os passeios estão destruídos ou transformados em parque automóvel", descreve.


Também o conceito de tempo livre tem sofrido transformações, com a redução dos períodos para brincar e sem que as crianças sejam ouvidas.


Também a psicóloga clínica Lara Constante vê a "demasiada estruturação dos tempos livres das crianças" como uma diferença marcante em relação há 20 anos. "A maior parte das crianças que acompanho tem um horário muito sobrecarregado de atividades, algumas sem um único dia verdadeiramente livre, em que possam brincar como entendam, criar, desenvolver-se", conta.


Falta de criatividade


Mesmo os tempos fora da escola são demasiado estruturados. Fica assim a faltar criatividade nas brincadeiras e capacidade para inventar o que se faz no tempo livre.

"As crianças tornaram-se também mais dependentes, mesmo nas brincadeiras. Têm mais dificuldade em relacionar-se socialmente e em verbalizar os afetos", acrescenta a psicóloga infantil.

Há 20 anos, a vida familiar era diferente e havia uma comunidade próxima mais disponível para ajudar a ir educando as crianças.


Culpabilização pela falta de tempo

Atualmente, a sobrecarga profissional dos pais e de muitos avós fá-los ceder mais facilmente à imposição dos filhos, enquanto a culpabilização pela falta de tempo é trocada por presentes: "Nota-se uma grande dificuldade em estabelecer uma sintonia entre mimo versus regras".

Contudo, em duas décadas a criança beneficiou também da evolução da sociedade.

"O ensino pré-escolar é frequentado por um número cada vez maior de crianças. Entrar numa escola aos três anos traz muitos benefícios, até porque é a altura em que se começa a desenvolver o relacionamento social", refere Lara Constante.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 1990/91 a educação pré-escolar não obrigatória abrangia cerca de metade das crianças entre os três e os cinco anos, enquanto em 2007/2008 já cobria 80%.

Diferentes realidades

Luís Januário alerta porém que há pouco de comum entre uma criança de um colégio privado no Porto ou Lisboa e outra cuja escola encerrou numa aldeia em Lamego.

"Há pouco em comum entre uma das 10 mil crianças institucionalizadas e uma outra vivendo com uma família que a estima. Entre uma criança com os pais desempregados e outra com pais economicamente estáveis. Entre um filho de emigrantes de uma minoria linguística e outro cujos pais escrevem em português segundo o novo acordo ortográfico.

Entre uma criança negligenciada ou maltratada e outra que é acarinhada", exemplifica. "

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Bairro do Amor


“Para criar uma criança é preciso uma aldeia inteira”

provérbio africano


Há coisas que só percebemos quando, de repente, sem estarmos à espera, olhamos em volta e tudo faz sentido. Eu não gosto de fazer planos, antes imaginar que ando ao sabor do vento e do destino. Esta filosofia, se assim se pode chamar, tem, obviamente, muitas falhas. Porque a verdade é que, mesmo inconscientemente, acabamos por procurar aquilo que queremos. Podemos é fazê-lo de forma tão despistada que nem damos por isso. E ser surpreendida com os resultados.

Foi o meu caso. Um dia, por uma sucessão de acontecimentos que simplesmente encaixaram uns nos outros, dei por mim a mudar de casa. Uma casa sobre a qual tínhamos feito uma reportagem uns anos antes e que não me saia da cabeça. Ao telefone eu comentava com uma amiga que um dia gostava de viver ali. Ela disse: “olha, ouvi dizer que está disponível”. Menos de um mês depois eu e o meu marido estávamos a mudar as tralhas.
Dois dias antes de começarmos a carregar caixotes, descobri que estava grávida. A minha barriga e o meu bebé já iam crescer ali.

É uma terra pequenina. Todos os dias quando saio de casa e cheira a mar, tenho a sensação que estou de férias, sem estar. Ao início estranhei a senhora da farmácia a perguntar se eu andava a tomar as vitaminas pré-natais ou os “bom dia” e “boa tarde” repetidos a cada 5 metros quando passeava na rua. Cresci e vivi no centro de Lisboa até me casar e o anonimato da cidade sempre foi das coisas de que mais gostava. Nunca me imaginei a viver de outra forma.

Até virem os bebés. Ela primeiro. E eu que não queria mandá-la para a escola antes dos três anos, constatei, ainda não tinha passado um ano, que não ia ter alternativa. Corri uma série de infantários. Uns tinham chão aquecido nas salas, outros, hortas biológicas ou piscinas de bolas. Todos cobravam mensalidades de (muito) mais de metade do meu ordenado. Em todos, durante os vinte minutos da visita, ouvi bebés a chorar, sempre os mesmos bebés, à espera de colo de alguma educadora ou auxiliar atarefada.
Mais uma sucessão de acontecimentos felizes e acabei por entregar a minha bebé ao único infantário onde não havia vagas, nem chão aquecido, nem luxos tecnológicos. Havia boa vontade, colos disponíveis e, mais importante, havia amor.
Tive muita sorte.

Como devia acontecer em todas as escolas, aqui as mensalidades são calculadas em função do rendimento dos pais. Como devia acontecer em todas as escolas, aqui todas as funcionárias desde a limpeza, às cozinheiras, passando pela directora, sabem o nome de todas as crianças. Como devia acontecer em todas as escolas, aqui há comida saudável e boa, feita, não por uma empresa, mas por cozinheiras a sério que mandam vir do talho carninha boa para os meninos e misturam maçã cozida na papa dos bebés. Como devia acontecer em todas as escolas, há regras e rotinas diárias, mas há também excepções, e meninos, que em vez de estarem na sala, andam a passear ao colo da directora pela escola fora, porque nesse dia estão mais tristes e há que lhes dar atenção especial.

E há música desde o berçário e, à medida que crescem, ginástica e ballet e natação. Tudo dentro do horário escolar, que a partir das cinco da tarde o trabalho das crianças é brincar. Não há muitos luxos, não é preciso. Há tudo o que as crianças realmente querem nestas idades: atenção, carinho, segurança. E há uma família na escola, de braços abertos para a família de casa.

Sei hoje que tive muita sorte. Ainda não tinha a ecografia do primeiro trimestre e o bebé número dois já estava matriculado. Lá anda ele, de colo em colo. A mais crescida chegou a chorar nas férias com saudades da escola. Até eu já tinha saudades do cheiro a sopa às 9 da manhã e o carrinho com maçãs cortadas para a merenda a passear pelas salas.

Levo os dois de manhã, um ao colo, a outra pela mão, o cão pela trela. É só subir a rua e estamos lá. À tarde, descemos a rua. Às vezes vamos até ao jardim, outras eles ficam a andar de triciclo e bicicleta na rua, com outras crianças do prédio e da escola. Ou apanham a senhora do quiosque que lhes dá beijinhos e bolos. No café ao fundo da rua, há outra senhora, com o mesmo nome da mãe, que põe a menina atrás da caixa registadora ou a leva para a cozinha para ajudar a fazer bolos.

Dizemos “bom dia” e “boa tarde” a cada cinco metros enquanto andamos na rua. E eu penso que, mesmo sem planear nada disto, não podia ter resultado de forma mais perfeita.
E tremo ao pensar que um dia eles vão sair e descobrir que o resto do mundo não é todo assim.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Gravidez não é doença (a não ser na Suécia)


Por Patrícia Lamúrias*

Gravidez não é doença. Não há grávida que não oiça a frase. Ao mínimo sinal de desconforto, ao simples desabafo sobre a vontade de nada fazer, à mais pequena hesitação sobre se deveria ou não executar alguma tarefa mais complicada, lá vem a frase batida: gravidez não é doença. Pois não. Gravidez não é doença, quer dizer, até é, mas ao contrário.

Eu explico: estar grávida é uma sensação estranha, ficamos expectantes sobre o que está a acontecer no nosso corpo, só conseguimos pensar naquilo, parece que mais nada no mundo tem importância. Não é assim que muita gente se sente quando está doente? Só que quando estamos grávidas tudo isto é por uma boa causa. Daí que seja doença, mas ao contrário. Em bom.

Porque estar grávida muda tudo. A cabeça depressa se perde em pensamentos sobre bebés minúsculos e indefesos que vão depender de nós e quase só de nós, roupinhas fofinhas, quartos cores de sugus, fraldas e cremes nunca antes vistos, mamas a deitar leite, noites que nunca mais vão ser iguais, o corpo a abrir-se e gritos de dor, a vida toda de pernas para o ar. E será que vai correr tudo bem? Será que eu vou estar à altura? Será que sou capaz? Será que é tão bom como dizem? Será que é tão mau como pintam? São milhões de perguntas (quase todas sem resposta) que vão e vêm todos os dias, a toda a hora, ao mesmo tempo que o corpo muda e dá sinais que nem sempre reconhecemos.

E isto é mau? Não. É óptimo. Maravilhoso. O maior desafio de uma vida. Mas seria melhor se nos pudéssemos concentrar ainda mais neste estado diferente de todos os outros. Não digo deixar tudo para trás e não fazer mais nada durante nove meses (se bem que até era bastante agradável), mas ter oportunidade de reduzir o horário de trabalho ou de ir para casa um mês ou dois antes da data prevista para o parto. É que ter um filho dá mesmo muito trabalho e, afinal, é um bem que estamos a fazer ao mundo. O mundo precisa de crianças!

Ter lugares nos transportes (depois de ter que pedir), deixarem-nos passar à frente na fila (ainda que com má cara) ou ter lugar para estacionar no shopping (quando não estão abusivamente ocupados) é muito útil mas não chega. Trabalhar com um bebé na barriga é complicado. Nem a cabeça nem o corpo ajudam. E ter um bebé nos braços sem ter pensado e amadurecido bem a ideia, sem ter descansado o suficiente, sem ter preparado toda a logística necessária também é complicado. Nada ajuda.

Há mulheres que conseguem fazer tudo. Não me admiro. Somos todas diferentes. E há quem goste e faça questão de dizer a toda a gente que quer trabalhar até ao dia do parto. Eu estive de baixa nos dois últimos meses de gravidez e foi o melhor que me podia ter acontecido. Tirando o susto inicial de que a minha bebé poderia nascer antes do tempo, foi óptimo. Praticamente não me podia mexer e mal saí de casa, mas era exactamente isso que eu estava a precisar. Concentrei-me em mim, nas mudanças. Ouvi o meu corpo. Senti a gravidez. E quando chegou a hora senti que estava mesmo pronta.

Eu sei que isto (para já) parece impossível. Que a discussão ainda está em ter uma licença de maternidade decente, em não se ser despedida por estar grávida. Mas, andei a pesquisar e, felizmente, não estou sozinha na luta. A União Europeia já lançou a discussão em 2009, com os seguintes argumentos: «proteger a mulher de qualquer pressão do empregador» para «evitar o risco de partos prematuros» (que, como se sabe, estão a aumentar), e «proteger a mulher da fadiga do trabalho e dos transportes».

A conversa não terá dado ainda grandes frutos, mas é um começo. Para alguns, que outros já vão bem adiantados, como a Suécia, que prevê uma licença pré-natal de oito semanas e possui um sistema de licença parental flexível que pode ser transferido para o pai da criança e ir até às 75 semanas. Lá chegaremos. Acredito.


*Patrícia Lamúrias é mãe e jornalista na revista Pais e Filhos.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Regresso às aulas



Por Bárbara Wong*

As férias terminaram e Setembro já começou. Se antes de ir de férias não o fez, então agora é a altura certa: uma limpeza ao local de trabalho dos mais novos, de preferência com eles, para que aprendam a fazê-lo sozinhos, para que não estejam constantemente a perguntar aos pais onde é que está isto ou aquilo – eles sabem, eles arrumaram, lembram-se?

A limpeza serve para guardar os cadernos do ano lectivo passado, os livros (deixar apenas os das disciplinas cuja matéria é sequencial, as gramáticas, dicionários e outros livros auxiliares), e deitar fora o restante material obsoleto (as canetas que já não escrevem, os lápis partidos, os pedaços de borracha, etc).

Feita a limpeza é possível escrever uma lista do que é preciso comprar e que será muito pouco, porque os maiores pedidos de material vêm das disciplinas de EVT e Educação Física e, se a criança não tiver perdido ou estragado, esse material pode passar de ano para ano, até ao secundário!

Logo aqui é uma grande poupança porque não precisa de comprar todos os anos os pincéis, godés, lápis de cera, réguas e esquadros, etc; provavelmente terá que comprar canetas de filtro, guaches, cola e as sapatilhas para a ginástica porque a criança cresceu.

O menino quer um estojo do herói em voga, mas o do ano passado está bom. É uma questão de explicar isso mesmo e se tem que comprar novo material evite a Dora, a exploradora, as princesas da Disney, o Pooh, o Ben10, de maneira a que nada passe de moda e possa continuar a ser utilizado. Ou escolha heróis eternos como o Homem-Aranha e o Snoopy!

Quanto aos livros escolares - por esta altura já estão todos encomendados – veja se os irmãos mais novos podem herdar algum dos mais velhos. Para cada disciplina, é normal haver livro e caderno de exercícios, provavelmente só precisará de comprar os cadernos de exercícios, caso frequentem a mesma escola e não tenha havido novas adopções de manuais. Mais uns euros poupados!

Uma secretária arrumadinha, bonita, com todos os livros e cadernos (ou dossiês) alinhados, é meio caminho andado para entusiasmar uma criança para o novo ano lectivo que se aproxima! A expectativa de rever os amigos, os professores, a escola é muita! Há meninos que nem dormem por estes dias, sobretudo os que vão mudar de turma ou de escola.

Visitar a nova escola antes de as aulas começarem é bom para a criança porque lhe permite desmistificar a ideia que tem do estabelecimento de ensino. Se puder conhecer o professor ou director de turma, por estes dias, melhor ainda. Muitas escolas preparam actividades de integração dos novos alunos, o que é positivo. Transmite-lhes outra segurança saber onde são as salas de aula, as casas de banho, o refeitório; do que andar à deriva pelo recreio, com medo de perguntar.

Aos pais cabe-nos transmitir-lhes estabilidade, segurança e confiança, mesmo que tenhamos as mesmas borboletas no estômago... Bom regresso à escola! Ah! E lembrar-lhes que não é só ir à escola passear o material escolar, que o novo ano se conquista desde o primeiro dia de aulas: concentrados, com atenção e respeito pelos professores e colegas.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Uma ideia gira para as últimas idas à praia

fotografia: Ana Catarina Pereira



Mais uma ideia enviada por uma mãe e partilhada pelo Bebé. Vejam lá se não é tão giro:

Apesar das férias já estarem quase no fim deixo uma sugestão para quem faz férias na praia.



Os miudos adoram apanhar pedrinhas, conchas e afins. É uma excelente maneira de os manter ocupados e a fazerem exercício caminhando pela praia.


Este anos resolvemos usar algumas dessas pedras e fazer o nosso jogo do galo.


Depois de escolhidas as pedras, pintámos 3 com uma X e outras 3 com um 0. Como as pedras eram mais que muitas fizemos ainda um 2º conjunto com as iniciais do nome deles. Não tinhamos tintas para pintar....usámos o verniz das unhas da mãe ;-) ....ficou perfeito! Arranjamos uma bolsinha para colocar as pedrinhas.


Agora jogamos todos as jogo do galo. Uma forma divertida de entreter a criançada.

E é mesmo. Obrigado, Ana Catarina!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Regresso


As férias já terminaram ou estão a acabar e é altura de organizar ideias.

O Bebé Filósofo quer saber o que é que as mães e pais gostavam mais de ler por aqui. Quais são os temas, as idades, as preocupações que mais lhes interessam. Para nós pormos os nossos "filósofos" convidados a tratar disso.

Ideias, sugestões e tudo o resto são muito bem-vindas.

Nos comentários ou para o mail sociedadepediatrica@gmail.com.

Bom regresso!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Quem tem (amor de) mãe, tem tudo









Estudo publicado no “Journal of Epidemiology and Community Health”:


"Saúde emocional na idade adulta depende do afecto materno

O carinho e o afecto materno dado à criança na infância têm um grande impacto no desenvolvimento da saúde mental e emocional na idade adulta, revela um artigo publicado no “Journal of Epidemiology and Community Health”.

Para este estudo, os investigadores da Duke University, nos EUA, acompanharam 482 crianças desde os oito meses de idade até estas terem atingido os 34 anos. Aos oito meses de idade, as crianças foram submetidas a testes para avaliação do seu desenvolvimento. Os resultados dos testes foram apresentados às mães, tendo também sido registadas as suas reacções aos mesmos.

Simultaneamente, a quantidade de afecto e atenção maternas foram igualmente avaliadas e classificadas em níveis que variavam entre o “negativo” e o “extravagante”. Posteriormente, a saúde mental dos participantes foi avaliada na idade adulta, quando estes tinham atingido, em média, os 34 anos de idade.

O estudo revelou que 10% das mães davam pouco afecto aos seus filhos, 85% davam afecto considerado “normal” e 6% davam demasiado afecto.

Os investigadores constataram que as crianças que tinham recebido mais afecto das mães aos oito meses de idade apresentavam, na idade adulta, menores níveis de stress, ansiedade e hostilidade. Pelo contrário, quanto menos afecto tinham recebido na infância maior eram os níveis de stress, ansiedade e hostilidade, os quais podem contribuir para uma instabilidade emocional e insegurança.

Os investigadores concluem que o afecto materno pode permitir e promover um desenvolvimento saudável das relações com os outros e das ligações emocionais, ajudando a criança a desenvolver capacidades sociais que são importantes para combater o stress e a ansiedade."

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Hiperactividade ou falta de educação?

Por Bárbara Wong *


Acreditem que estou convencida que a “hiperactividade” existe, que é uma doença e que deve ser medicada, tratada, acompanhada, etc. Contudo, conheço casos diagnosticados como “hiperactividade” e a mim não me parece mais do que falta de educação.

Senão, vejamos:

G., seis anos, diagnóstico: hiperactividade. Na escola, a professora queixou-se que o menino era muito agressivo, atirava-se para o chão a gritar e a espernear quando a docente o mandava ficar quieto, sentado, a fazer os trabalhos, como aos outros. Pontapés nas pernas da professora, queixou-se a mesma.

Eu lembro-me do crescimento de G. . Desde bebé em frente ao televisor, as refeições foram (e continuam a ser) feitas com um pequeno ecrã de DVD em cima da mesa, para que a criança coma em sossego e não faça barulho, concentrada que está nos desenhos animados.

As brincadeiras envolvem sempre lutas, guerras, bater e “morrer”. Há lá coisa mais feia que ouvir uma criança de três anos, com ar zangado a dizer: “Vou-te matar!” e sermos surpreendidos com um murro no nariz? Aconteceu-me, não achei graça, peguei-lhe nos pulsos, olhei-o nos olhos e disse-lhe em tom muito sério: “Não. Nunca mais voltes a fazê-lo”. Remédio santo, nunca voltou a acontecer, ganhei o afecto de G., mas não o dos pais. “Somos incapazes de falar-lhe assim, estava a brincar”, censuraram-me.

G. corre atrás do gato da avó, agarra-o, aperta-lhe a cauda e o bicho arranha-o. Culpa do animal que é muito arisco, dizem os pais. G. replica a mesma brincadeira com o cachorro da família, que o mordisca. Castigo para o animal, decidem os pais. G. brinca com os primos e amigos que depressa não querem brincar com ele. O problema é dos outros. Hiperactividade e aquele xarope que o acalma. Má educação, digo eu.

J., quatro anos, o terceiro filho, faz uma diferença de oito anos da irmã mais velha e cinco da do meio. “Quero um chupa”, grita desalmadamente, às sete da manhã, dentro do carro. A mãe corre as pastelarias todas, abertas àquela hora, à procura do chupa que não existe. Ele não desiste e grita durante uma hora, até que o supermercado abre e o chupa aparece na sua mão.

O menino pára de chorar, de rosto fechado diz: “Não quero”. “Vou dar à M.”, responde-lhe a mãe. “Não. É para o lixo. Lixo” e os gritos recomeçam. Estava zangado porque as irmãs foram para fora e ele ficou sozinho, justificam os pais. Para a próxima, as meninas não sairão de casa, decidem.

Castigadas as filhas, mas não o menino a quem são feitas todas as vontades. É preciso termos paciência, desculpam os pais. Não quer comer com a família porque “andou a petiscar antes do almoço”; quer sentar-se no lugar do avô ou do tio, “é só desta vez”, pedem; ou grita “calem-se todos, calem-se todos, calem-se todos” enquanto os adultos tentam conversar, “gosta de chamar a atenção”, riem-se os progenitores. Má educação, digo eu, exasperada e logo recebo um olhar de censura.

Há sempre uma desculpa para não assumirmos as nossas funções. No fundo, no fundo, a esperança dos pais (os de J. não estão sozinhos) é que a escola remedeie a situação. Se a escola não conseguir, haverá sempre um medicamento que adormecerá a falta de educação destes miúdos e a venda desses fármacos continuará a aumentar, como dizem as notícias.


* Bárbara Wong é jornalista do Público, especializada em assuntos de Educação, e autora do livro "A Escola Ideal: como escolher a escola do seu filho dos 0 aos 18 anos" (ed. Sebenta, 2008)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Bons hábitos desde a infância precisam-se

Estudo de prevenção cardiovascular do Instituto Ricardo Jorge
Metade dos alunos do secundário já tem factores de risco cardíaco

O estudo, denominado "Coração Jovem", envolveu 854 alunos de 8 escolas secundárias da região de Lisboa (5 públicas e 3 privadas).
Cerca de 35% dos jovens dos 15 aos 18 anos que participaram no estudo tinham dois factores de risco cardiovascular e outros 12% apresentavam três factores. Entre os factores de risco mais comuns estão a obesidade, hipertensão e o tabagismo.

"A grande surpresa foi a prevalência da hipertensão: 11% dos alunos tinham já tensão alta e 28% uma pressão arterial normal-alta, ou seja, pode ser considerada pré-hipertensão. É uma barbaridade", disse, citada pelo jornal “Diário de Notícias”, Mafalda Bourbon, investigadora do Departamento de Promoção da Saúde e Doenças Crónicas do INSA.

O excesso de peso e a obesidade foram outros problemas detectados, afectando 16% dos jovens que participaram no estudo. Além disso, 13% dos alunos fumavam, e destes 8% fumavam todos os dias. Apesar de apenas 0,5% terem diabetes, 1 em cada 10 jovens tinha anomalias do metabolismo. A investigadora salienta ainda a existência de 22% de adolescentes com níveis de colesterol a rondar os limites.


quinta-feira, 29 de julho de 2010

Silly season

Em época de festivais, o direito dos bebés aos clássicos.

Com as devidas adaptações, claro.










quinta-feira, 22 de julho de 2010

O Programa Anos Incríveis


Os grupos de pais Anos Incríveis funcionam em Coimbra desde 2007 (e muito brevemente também em Lisboa e no Porto), sob coordenação de uma equipa de investigação ligada à Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação. São dirigidos a pais de crianças entre os 3 e os 6 anos de idade e permitem aos pais partilharem as suas experiências com outros pais, em grupo, ao longo de 14 semanas, em horário pós-laboral (18.00h-20.00h). Para que os pais possam frequentar os grupos é disponibilizado um serviço de baby-sitting para as crianças.

Este Programa foi desenvolvido nos EUA por C. Webster-Stratton (www.incredibleyears.com). Tem sido estudado e aplicado em diversos países e demonstrado resultados positivos a curto, médio e longo prazo, quer como programa de prevenção, quer de intervenção.

Ao longo do programa são trabalhadas aptidões como: brincar, elogiar e recompensar a criança, dar ordens de forma eficaz, estabelecer limites claros, ignorar, aplicar consequências, promover estratégias de resolução de problemas. Pretende-se fortalecer as relações pais-criança e encorajar a cooperação da criança; estreitar a relação escola-família; incentivar estilos parentais positivos; encorajar a imposição de limites efectivos e a definição de regras claras; e promover o uso de estratégias disciplinares não violentas.

Sabemos que nestas idades as birras, o “não”, o ser irrequieto fazem parte do normal desenvolvimento da criança. Mas quando estes comportamentos persistem e interferem na vida da família, na aprendizagem e nas relações sociais, temos todos de estar atentos (pais, educadoras, médicos de família, pediatras, ...). Alguns pais (e profissionais) continuam a acreditar que as crianças são pequeninas e que quando entrarem na escola “logo se vê”. Muitas vezes têm medo que os seus pequenos tesouros sejam rotulados, ou de se sentirem invadidos pela culpa (em que tantos psicólogos se esforçaram por fazer os pais acreditar). Ou estão tão isolados e sem suporte social, que não conseguem dar o primeiro passo... Não são precisas culpas, nem rótulos, apenas agir atempadamente, dando aos pais a oportunidade de se poderem sentir mais confiantes e competentes no seu papel.

Se interviermos precocemente a história poderá ter outro final e abrem-se um sem número de trajectórias de vida possíveis para aquela criança e família.

Ainda se lembra da Ana e do Tiago? Não sabemos com terminará a sua história. Mas sabemos que os pais do Tiago se conseguiram organizar para vir ao grupo, que estão disponíveis para aumentar o número de estratégias que já traziam consigo (algumas delas desde os tempos da sua própria infância) para conseguirem lidar de uma forma mais eficaz com o seu filho, e que querem fazer algo de diferente.

A maior parte dos pais também. Às vezes só não sabem é como.

Contactos:

http://projectopaismaesincriveis.blogspot.com/

anosincriveis.coimbra@gmail.com

Andreia Azevedo e Tatiana Carvalho Homem– Psicólogas, Doutorandas e Investigadoras
Maria João Seabra Santos e Maria Filomena Gaspar– Professoras da FPCEUC e Coordenadoras Científicas do Projecto

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Fintar multidões a caminho das férias (post útil #5)

E a dica desta semana é da Filipa. Tomem nota, tomem nota!

Tenho 31 anos, uma filha - a Margarida - de 2 anos e meio, já fui advogada e troquei a barra do Tribunal por muitas horas "extra" com a minha mais-que-tudo. Agora trabalho num Banco. Adoro uma boa gargalhada, um passeio na praia, tenho a síndrome do Peter Pan, uma filha fantástica, um marido fenomenal e muitas, muitas, muitas dúvidas que me levam a ler o Bebé Filósofo com regularidade.


Não sou nenhuma expert neste assunto, tenho apenas duas dicas que nas preparações para irmos de férias com a pequenina têm dado, até à data, bons resultados.

Começamos sempre por, uns dias antes, anunciar-lhe o destino, falamos com ela sobre o local, a casa, quem lá vai estar (amigos, família, etc.) o que vamos poder fazer (sobretudo de diferente), as saudades que já tínhamos porque é sempre tão bom, o quão divertido vai ser, como vamos passar X dias juntos, sem horários e com toda a disponibilidade uns para os outros.

Depois, cumprimos apenas duas coisas que se revelam para nós essenciais e que parecem ser suficientes para tudo correr bem.

A primeira: pedimos-lhe para escolher os brinquedos que quer levar. Explicamos que não pode levar todos e que alguns poderão não poder ir por não serem apropriados (ao local das férias ou pelo seu tamanho ou objectivo). Fazemos questão de não deixar cá os bonecos, brinquedos e livros de que mais gosta. A segunda: nunca vamos quando "toda a gente" vai, nem nunca regressamos quando tudo está de regresso. Normalmente quando vamos de férias mais de uma semana é para o Algarve e fazêmo-lo em Agosto ou em altura de feriados como tantas outras pessoas. Por isso, vamos sempre depois de jantar (imediatamente depois) e sempre a um Sábado ou a um Domingo. No regresso, voltamos sempre depois de jantar e sempre a uma Sexta-Feira ou a um Sábado. Com isto evitamos trânsito, calor, e a Margarida dorme o caminho todo, pelo que, evitamos também paragens. A última vez que fomos de férias foi este mês e, até hoje, tem corrido sempre muito bem.


Espero que ajude alguém... :-)


Obrigada pelo vosso blogue, os vossos conselhos, as vossas palavras e esclarecimentos! Têm sido um grande apoio e uma ajuda preciosa!

Obrigado nós, Filipa!

Próxima sexta-feira mais uma dica preciosa enviada por outra mãe ou pai "filósofos".
Para quem quiser enviar mais ideias, está tudo explicado aqui!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Só de fraldinha para ficarem mais fresquinhos

Quando tu nasceste, choraste e o mundo alegrou-se.
Vive a tua vida de forma a que, quando morreres, o mundo chore e tu te alegres.
(ditado nativo-americano)

Na semana passada comemorou-se o aniversário de dois dos meus avós. Da minha avó materna, que já morreu há muitos anos e de quem me lembro todos os dias como se a tivesse visto ontem, e do meu avô paterno, que está de excelente saúde e nos convidou para irmos lá a casa ver o futebol e jantar todos juntos.



Eu não tenho grande queda para o que normalmente se chama “os velhinhos”. Confesso que nunca senti muita apetência (nem paciência) para ouvir a mesma história vinte vezes, contada com voz trémula, e pontuada mil vezes com a expressão “no meu tempo” ou “isto agora”…


Na minha família nunca tive muito contacto com esta realidade. Os meus avós são, ou foram, pessoas activas, lúcidas, actualizadas e em contacto com a realidade do mundo. Os avós dos meus filhos trabalham tanto ou mais do que eu, ou, no caso dos meus sogros que já estão reformados, alinham em correrias no parque infantil e sabem de cor o último modelo do carro da Barbie ou a consola mais tecnológica lançada no mercado.


Mas recentemente, suponho que não alheio ao facto de ter passado a barreira dos 30, dou por mim a pensar na vida. Na velhice. Na passagem dos anos. Pela primeira vez, surpreendo-me a constatar que gostava de chegar aos 100 anos. Rodeada de netos e bisnetos. Do meu marido também, já agora. Gostava de ter alguém a quem contar o que aprendi na vida, como uma velha anciã, de roda de quem os jovens se juntam para ouvir frases cheias de sabedoria e conselhos avisados.

Descubro que talvez valha mesmo a pena fazer um pé de meia, começar já, e cuidar da minha saúde para um dia chegar aos 80 e ouvir coisas como “Ai, eu não lhe dava mais de 70!”.



Isto é o que eu gostava. Depois há a realidade. Há anúncios como o que eu vi há uns dias: “Vá de férias descansado e deixe o seu idoso connosco!”. Sim, é real, e a publicidade a um ATL para idosos.

E há a história que me contaram de uma reunião num serviço de saúde, em que se discutia a onda de calor e de como os idosos internados estavam a sofrer com ela, e onde alguém dá a genuinamente bem-intencionada sugestão: “Deixem-nos andar só de fraldinha para ficarem mais fresquinhos”.

E há as residências VIP para a terceira idade, na Marginal de Cascais, com uma vista espectacular para o mar e onde eu nunca vi ninguém na varanda. Ninguém. Não é tão triste?


(imagino-me a viver ali e digo sempre que por lá passamos, “quando a mãe e o pai forem velhinhos tu pões-nos aqui a viver e depois vens-nos visitar ao fim de semana, está bem?”. Ela abana a cabeça e tenta sempre fazer-me prometer-lhe que nunca vamos ficar velhinhos).


Oiço histórias como a da “fraldinha” ou o ATL para idosos e o meu primeiro instinto é rir. De tamanho disparate. Mas depois fica este nó na garganta.

Saberemos nós alguma vez arranjar forma de conviver com a velhice de uma maneira normal?

Penso nisto e lembro-me do que temos falado neste blog a propósito das crianças. De ter paciência, respeitar os ritmos, ouvir, aprender. De como o ritmo desenfreado nos impede de gozar as coisas simples, com eles.


Da importância de todas as idades da vida.

A imagem que ilustra o início deste texto é de Gustav Klimt e chama-se “As três idades da Mulher”. É muito conhecida. No entanto, talvez sejam mais os que conhecem o pormenor da obra em que a mãe, jovem, abraça o seu bebé. Mãe e filha. Belas. Perfeitas. A imagem da mulher idosa, à esquerda, raramente é utilizada para posters ou cartões de felicitações. E, no entanto, está lá.

Ela está lá, essa é a verdade. E está lá porque é real. A imagem que nos habituámos a ver não é a mãe e o seu bebé. É a mesma mulher. Só ocultámos a sua imagem já velha.

Estaremos a ensinar as crianças para conviver com a velhice? Com a nossa velhice? Com a sua própria velhice? Saberão elas que não há fases da vida mais ou menos importantes? Saberemos nós?

Como é que se faz isto...? Esta aproximação... sem ser levar as criancinhas a lares de idosos onde se batem palminhas e se dança descoordenado ao som de músicas ridículas?

Esta sociedade que sabe tudo comete os mesmos erros com as crianças e com os idosos. Cria ATLs para os entreter e libertar os adultos activos da sua guarda. Entretém-nos com digitintas e DVDs.

Qual é a maneira certa de recuperar o respeito pelo ancião?

Dúvidas, dúvidas… tantas dúvidas.

E só uma certeza. Eu não quero ser um fardo para os meus filhos quando for velha. Mas agradecia que houvesse alternativas a ficar, só de fraldinha, num hospital.
Horrorizada por ser eu, igualinha talvez ao que sou hoje, presa num corpo para o qual ninguém consegue olhar.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Reflexões de um Pediatra de urgência, num hospital distrital

Por Inês Torrado*


Vinha da sala de partos, onde acabava de nascer mais um menino vigoroso… chinês. Este ano vamos com menos duas dezenas de partos em relação ao ano passado. Ainda vão ajudando nos números os emigrantes de leste, os brasileiros, alguns chineses…

No elevador cruzei-me com um menino de 6 anos, muito obeso, que comia um pacote de açúcar, mastigando já uma pastilha elástica. Ao sair, ainda ouvi a mãe a ralhar: “Olha que vou dizer à tua médica que não fazes nada do que ela mandou!”.

No corredor do serviço, fui interceptada por um delegado de informação médica, que apresentava dois novos medicamentos. O primeiro, era um suplemento alimentar para crianças distraídas, sem critérios formais de criança hiperactiva com baixa de atenção, isto é sem doença. As cápsulas parecem umas gomas, que dão vontade de comer de uma só vez, apanhando os pais desatentos.

O outro medicamento destina-se a manter a flora intestinal, estando indicado segundo o delegado: “para diminuir a diarreia, porque as crianças têm cólicas, porque choram.. Olhe, mesmo quando não se queixam, só faz bem e desde o primeiro mês…"

A pensar nas recomendações da SPP sobre vacinas para 2010, que estava a ler antes de ser chamada ao bloco de partos, tinha contado 10 vacinas recomendadas para 15 doenças. Em conjunto com a melhoria da qualidade de vida, da higiene e da educação, que drástica mudança em meio século no panorama das doenças pediátricas!

As crianças sobrevivem cada vez mais e melhor em Portugal.

Um contraste com os colegas de medicina interna, a braços com serviços e urgências entupidos de doentes. Uns com várias doenças num só corpo, outros só com uma, mas no corpo todo, e tantos que já nem sabem bem qual o mal…

Se as crianças são cada vez mais saudáveis, porque morrem tão mal uns anos depois?

Hoje, até sabemos que muitas doenças do adulto “nascem” na infância e mesmo antes.

Tantos hábitos bons se instalam na infância e perduram pela vida toda. O que mudou?
Em pediatria, já não são as doenças que preocupam, mas sim a saúde. Nós, médicos, fomos mais preparados para tratar doenças, do que para promover saúde…

Vivemos num mundo que nos consome. Perdemos a dimensão humana. Morremos à fome no Sul e comemos demais no Norte. Dá mais lucro engordar as populações e de seguida emagrecê-las, do que resolver a saúde das populações.

A crise chegou. Medos e insatisfações paralisam o bom senso.

No fim do banco, transferi um lactente de 2 meses por, discutível, administração profiláctica de paracetamol pós vacina… mas numa dose tóxica, por erro de interpretação.

Talvez, pudéssemos evitar dar medicamentos na ausência de doença, e defender melhor a saúde dos que ainda não se podem proteger. Mas isso implica sairmos dos hospitais e aproximarmo-nos mais das crianças e da comunidade.

*Inês Torrado, pediatra.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Banhos no lavatório e dormir onde calha (Post útil #4)

Por 3 picuinhas*

As dicas de férias da 3 picuinhas dão vontade de largar já tudo e por-nos a caminho só com a roupa que temos no corpo!
Ora vejam:


Tenho 42 anos e duas filhas pequenas: 8 e 4 anos. Viajo com as minhas filhas desde sempre e o lema é: simplificar. Simplificar tudo, incluindo os destinos :)

E simplificar quer dizer que viajamos com pouca tralha e muita imaginação.

Nos últimos anos, como são duas, temos limitado as viagens a destinos cá dentro: Alentejo e ilha da Berlenga.

As pequenas tomam banho onde der: lavatório da cara se são bebés ou chuveiro, com mangueira no quintal se está calor :), com água salgada e champô na Berlenga onde a água doce se reserva apenas para a passagem final, e o ano passado já as convenci a lavar os dentes com água salgada, uma conquista!

Dormem onde é possível: no chão em colchões de encher, no barco embaladas pela ondulação, dentro de um barquinho insuflável enquanto eram bebés.

As viagens de carro são sempre feitas ao cair da tarde que isto de se fazer 250 Km em direcção ao Alentejo tem que se lhe diga. Elas normalmente adormecem a meio e no entretanto vamos parando para beber água e desentorpecer as pernas a cada hora. Nos 2 últimos anos e porque juntamos à nossa prole mais dois primos de 4 e 7 anos, optámos por dormir a meio caminho...onde der :) normalmente numa hospedaria sem qualquer estrela mas com cheirinho a aventuras.

As minhas filhas viajam sem brinquedos. No carro vamos entretidos com jogos de descobertas (vês aquele pássaro? quantos carros amarelos é que vamos encontrar? palavras começadas pela letra...) e nos locais de férias os brinquedos inventam-se com paus e pedras.

E finalmente a roupa...ou a falta dela. Nas férias ninguém se preocupa com vestimenta. Meia dúzia de t-shirts, fato de banho e sandálias e a festa faz-se. Na Berlenga basta a t-shirt e o fato de banho, andam descalças e só vestem mais qualquer coisa à noite quando faz frio. No Alentejo calções e t-shirts.

E pronto. As minhas filhas regressam sempre das férias com arranhões novos e roupa muito suja e muitas, muitas aventuras.

Nunca adoeceram, nunca se aborrecem, nunca fazem fitas. Nas férias não há horas e as regras reduzem-se ao mínimo, apenas as regras de segurança.

O que nunca falta na nossa mala: coletes de salvação para o barco, protectores solares factor máximo, anti-histaminicos, pensos e sprays para queimaduras, brufen e benuron, termómetro e repelente de insectos... e muita descontracção.

*Esta dica foi enviada pela 3 picuinhas, 42 anos, mãe de duas meninas de 4 e 8 anos.
Obrigada!

Próxima sexta-feira mais uma dica preciosa enviada por outra mãe ou pai "filósofos".
Para quem quiser enviar mais ideias, está tudo explicado aqui!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Um dos muitos cuidados a ter na estrada



Em tempo de férias e viagens de carro, não esquecer a nossa segurança e a de todos os outros que viajam na estrada.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O que fazer com os miúdos?

Por Bárbara Wong*



Os mais velhos, eu e dois dos meus primos, todos com menos de dez anos, carregávamos os baldes, as pás e tomávamos conta dos mais pequenos, a mais nova tinha um ano, ainda precisava do carrinho. Chegávamos à praia e a minha avó sentava-se, grande, no seu fato-de-banho de fundo preto e florinhas pequeninas, de óculos de sol e chapéu de palha de abas largas, a conversar com as vizinhas, das barracas ao lado - as amigas que revia anualmente, que nos diziam como estávamos crescidos e bonitos -, mas sempre com um olho em nós.

O Verão era longo e depois vinha o tempo que passávamos na quinta, a brincar no tanque de água gelada, a dar de comer aos patos, às galinhas, a dormir na casota do cão; a regar a horta, de sacho na mão, a abrir caminhos para a água entrar e o cheiro dos tomateiros, da salsa. A viajar na carrinha de caixa aberta, com o vento quente a bater na cara e os olhos entreabertos.

A apanha da fruta, pêssegos, maçãs e, por último, a vindima. As férias de Verão eram tão compridas que podíamos fazer a vindima, de cestinha no braço e a tesoura na mão, a cortar os cachos das uvas, a deitá-los para a tina, a ir no tractor com o senhor António até à cooperativa onde deixávamos o fruto do nosso trabalho e da nossa diversão.

Eram quase quatro meses de dias compridos que pareciam pequenos com tanta coisa que havia para fazer! E sestas! E romarias! E, pelo meio, as viagens ao estrangeiro com os pais, quando estes tinham férias.

Hoje as férias da escola são mais curtas e nós não sabemos o que fazer com os miúdos porque já não há avós grandes e calorosas, donas-de-casa com as suas criadas e muitos netos à mesa, ao almoço e ao jantar. Hoje as avós trabalham ou têm pouca paciência para os miúdos.

“Porque é que achas que pago um balúrdio pelo colégio?”, ouço perguntar ao meu lado. Por estes dias, as aulas acabaram, eles têm dois meses e meio de férias e nós 22 a 25 dias... Não há família alargada e a opção passa por mais escola, desta vez mascarada de ATL, alguns funcionam nos estabelecimentos de ensino, outros em empresas, fundações e instituições.

Os miúdos vão à praia com a escola, fazem campos de férias por cá ou no estrangeiro e tudo isso é bom, acreditamos; eles têm mais oportunidades do que nós tivemos com a idade deles, aprendem línguas, conhecem autores e pintores contemporâneos, ouvem histórias, constroem-nas eles, convencemo-nos.

No fundo, no fundo, não é bem verdade porque o que eles gostam mesmo é de estar connosco, de preferência, sempre! E quando digo “connosco” não falo só dos pais mas dos tios, dos avós, da família.

Por isso, a proposta que deixo é que a família seja mais solidária. Porque é que não há um tio que vai de férias e leva os sobrinhos todos? Ou uma avó? Ou uma madrinha? Se as famílias fossem cooperantes entre si, em vez de pagar ATL's, pagavam-se gelados, refeições fora de casa, bilhetes de cinema, etc.

Utópico? Não! Eu adoro levar os filhos e os sobrinhos à praia, ao cinema, ao museu ou simplesmente ficarmos sem fazer nada! Adoro ensinar-lhes o que sei, ouvir o que sabem, fazer cara feia quando se portam menos bem, dar-lhes abraços, beijos e vê-los sorrir e então lembro-me das minhas férias e rezo para que eles não se esqueçam nunca de mim, como eu não esqueço a minha avó!