sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Pinceladas sobre a situação da criança em África

Por Brígida Rocha Brito*



África é um continente grande, imenso, marcado pela diversidade de paisagens, espécies, oportunidades e níveis de desenvolvimento. Cada caso é um caso e não é, de todo, correcto fazer generalizações que resultam numa mera simplificação de características por tipificação. A pobreza e a vulnerabilidade imperam, mas há, pelo menos, dois aspectos que tenho encontrado em todos os países africanos onde vivi ou que visitei: a beleza natural e a alegria das crianças.


Em África, a contemplação da natureza transmite, muitas vezes, a sensação de dureza em resultado da seca ou da indisponibilidade de água doce: percorrem-se quilómetros, que parecem infinitos, na companhia de paisagens que alternam entre a relativa densidade e a profunda aridez. De quando em vez, encontram-se comunidades que dão cor e vida aos espaços como se de um quadro animado se tratasse. E, uma vez ali, novas sensações nos enchem a alma: o tempo parece ter parado fazendo-nos viajar até outras formas de vida, mas sentimo-nos rejuvenescidos pela multidão de crianças chegando de todos os lados só para ver quem acabou de entrar na aldeia.

África é um continente de contrastes, o mais velho do Mundo, que identificamos com a origem da humanidade, e um dos mais jovens do ponto de vista demográfico, já que cerca de 40% da população tem idade inferior a 15 anos. Os dados sócio-demográficos levam-nos a pensar que é um continente de esperança porque as crianças representam o futuro, porque quando olhamos para elas vemos dois olhos enormes, imensos, repletos de curiosidade e um sorriso tão grande quanto as pequenas fisionomias permitem. Estas são crianças pobres que não têm quase nada, só comem uma refeição por dia, estudam e trabalham para ajudar as famílias na aquisição de alimento e de outros recursos, dentro das suas possibilidades e do que consideramos impensável para os nossos. São crianças vulneráveis que crescem demasiado depressa porque não brincam, estudam pouco porque não podem seguir mais à frente, são responsabilizadas pelas tarefas domésticas, pelo acompanhamento de outras crianças e pela continuidade da família. Casam antes de tempo sem se aperceberem do que é o amor, têm filhos a correr, uns atrás dos outros, porque, apesar de nos parecer que o tempo ali não passa, para eles o envelhecimento vem quase a seguir à infância.

E ao olhar nos olhos destas crianças, quase adultas, cheios de curiosidade e de ver os seus sorrisos abertos, genuínos e cheios de pureza, questiono-me: no meio de tudo, onde fica a esperança? A sensação com que fico é que estas crianças estão a viver da mesma forma que os pais, os avós e todos os que viveram antes deles. E que os filhos e os netos viverão da mesma forma...



*Brígida Rocha Brito é socióloga, Doutorada em Estudos Africanos, Investigadora (CEA/ISCTE-IUL) e docente da Universidade Autónoma de Lisboa (Licenciatura em Relações Internacionais)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Sensibilização precoce à língua estrangeira

Por Mafalda Napierala*



Olá! Sou Educadora de Infância e dou aulas de Inglês há dois anos em Jardins de Infância. Não gosto de dizer “dou aulas”, prefiro antes dizer “sensibilizo para a existência de outra língua - inglês”.

Levo, às crianças dos Jardins, recursos materiais, muitos jogos e canções em inglês para nos divertirmos todos juntos a conhecer outra língua.

Na realidade, também não gosto da ideia de ir uma pessoa de fora do Jardim de Infância “dar inglês”, quando defendo que nesta idade são os educadores, os pais e os irmãos, os melhores, e certamente mais interessantes para a criança, meios de fazer “o mundo” chegar até ela.

Mas é o que estou a fazer no momento, tentando ser o mais próxima possível do dia-a-dia das crianças e das equipas dos Jardins, nas 2/ 3 horas por semana que passo em cada Jardim, e adoro o que faço! Falar-vos-ei um bocadinho dos porquês da importância de ter um contacto intencional com a língua inglesa (ou outra língua) em idade pré-escolar e nalgumas formas muitíssimo acessíveis de proporcionar o mesmo.

O contacto intencional na infância com a Língua Inglesa vai alargar na criança a compreensão do mundo. Vai permitir também “aproveitar” a idade em que somos naturalmente “esponjas” de tudo o que nos rodeia para aprender inglês e desenvolver competências comunicativas na criança.

Regularmente as crianças ouvem inglês, contactam com crianças que falam outras línguas, e têm naturalmente curiosidade. É importante contactarem desde cedo com a realidade de que existem outros países, outras culturas, outras caras e diferentes formas de viver. Outros sons, possíveis de serem reproduzidos.

Vivemos num mundo multicultural e não estamos sozinhos no nosso cantinho.

Quanto mais novas, mais receptivas estão as crianças a novas aprendizagens, nomeadamente de uma língua. Gostam de experimentar, arriscam sem medo. Quem é que nunca “cantou” em inglês “a fingir”?

Mais tarde, quando aprenderem inglês “formalmente”, já não existem tantos receios e medo de errar pois já foi construída confiança na produção de palavras, e a criança desenvolve a sua auto-estima. E assim será até mais fácil a aprendizagem de uma terceira língua.

O contacto com o inglês, os seus sons, entoações e ritmos, permite o desenvolvimento de competências comunicativas. Educa o ouvido, a percepção, a concentração e a capacidade articulatória.

O contacto com o inglês pode-se fazer diariamente através da repetição de frases, do contacto com recursos em inglês e de situações de jogo.

A repetição de frases como “Good morning”, “How are you?”, “Let’s play”, “Let’s go”, “Sleep well”, etc., é uma forma muito acessível e possível de se tornar rotineira, de permitir o contacto com o inglês. Associando um momento que já conhecem a uma palavra ou expressão dita em inglês, apercebem-se facilmente dos significados, e não é nunca preciso traduzir, apenas repetir regularmente e até ajudar gesticulando. Quando menos esperamos, já são eles que nos respondem em inglês!

A convivência com livros, CDs, desenhos animados e sites para a infância em inglês (todos monitorizados), é outra forma de contactar naturalmente com a língua. Principalmente se os recursos materiais tiverem personagens já conhecidas, como o Noddy, o Bob o Construtor, ou o Ruca.

Os jogos, lenga-lengas e canções são um óptimo aliciante para se entrar no mundo do inglês a brincar. Assim como a canção do “Happy Birthday” quando alguém faz anos, lenga-lengas (ver no fim do texto), o vestir enquanto dizemos as peças de roupa ou partes do corpo em inglês, contar as escadas a subir/ descer, a comida ou dizer as partes da casa à medida que vamos entrando.

O objectivo não é então ensinar vocábulos às crianças, mas permitir-lhes sentirem-se bem a experimentar falar inglês, divertirem-se e assim aprenderem naturalmente. A repetição é essencial. É importante não corrigir a expressão ou palavra proferida pela criança, mas ir repetindo correctamente até a própria criança se inteirar da forma como as palavras são pronunciadas.

“One, two
I love you.
Three, four
Let’s count some more.
Five, six
Get your sticks.
Seven, eight
Counting is great.

Nine, ten
Numbers are friends.
Let’s count them all again!”


Alguns sites úteis:
 http://www.noddy.com/uk
 http://www.bobthebuilder.com/uk/index.asp
 http://www.thomasandfriends.com/uk/


*Mafalda Napierala é educadora de infância e viveu dois anos nos Estados Unidos onde trabalhou como au pair. Actualmente é responsável pela implementação de um projecto itinerante de sensibilização precoce à língua inglesa em jardins de infância. Dá também formação nesta área.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Gripe A, a vacina e o regresso dos papões



Orgulhamo-nos da taxa de vacinação. Praticamente universal. Os grupos anti-vacinas nunca prosperaram em Portugal. As razões para este sucesso são discutidas: o Plano Nacional de Vacinas surgiu em 1965 com as características que hoje lhe conhecemos: gratuito, universal, fornecido por Centros de saúde sem necessidade de consulta. Embora não seja obrigatório, conquistou os portugueses. Enquanto a visita a um Centro onde se administrem vacinas é vista , em alguns dos países mais desenvolvidos do hemisfério norte, como uma oportunidade a não desperdiçar, em Portugal entrou-se, silenciosamente, numa onda eufórica que tem permitido aos Centros de Saúde marcar arrogantemente horários especiais para vacinação, fazendo perder dias de trabalho às famílias submissas, adiando por motivos fúteis ( inventando falsas contra-indicações), recusando vacinas simultâneas, criando intervalos entre vacinas não exigíveis por nenhuma racionalidade.
Alguns enfermeiros vêem , na administração da vacina, um momento de poder. E se muitos aprofundam o tema e aproveitam o momento para preciosa intervenção pedagógica de vigilância ou ensino de saúde, outros exercem esse poder da pior maneira.
Seja como for, o mito de que, na disciplina do PNV somos excepcionais, prosperou.
Até à gripe A. Até à vacina da gripe A.

Peço desculpa pela incomodidade do tema. A saturação dos leitores é imaginável. Se algum, porventura me seguiu até este momento, é seguro que aqui me abandonou. Não importa. Este blogue não existe para ter 5 000 amigos, nem nenhum dos bloguers é candidato a cargos da República.
Mas a gripe A, os planos de contingência e a vacinação decorreram com tal mediatização , e foi tal o enfado subsequente, que nos arriscamos a que não haja avaliação, nem discussão das experiências, por desistência dos responsáveis e enfado dos intervenientes possíveis.
No que respeita à vacinação os objectivos não foram atingidos: não se vacinaram os designados grupos de risco, os Centros de Saúde não perceberam o carácter de "campanha" da vacina, ignoraram as directivas da DGS, criaram obstáculos, mantiveram uma atitude que os utentes interpretaram correctamente como de distanciamento, quando não de discordância .
As principais características das campanhas anti-vacinas estiveram presentes e mostraram como, afinal, somos iguais aos piores. Ignorância disfarçada – toda a gente falava de "adjuvante"; alarmismo injustificado - ressuscitaram- se quase todos os ancestrais inimigos das vacinas entre as quais pontificam o Síndrome de Guillain Barré e o Autismo ; o comportamento de médicos e enfermeiros foi deplorável, contrariando surdamente o esforço das autoridades. Os médicos, incluindo o seu Bastonário , evidenciaram a proverbial impreparação para as questões ligadas à vacinação.
A confusão continua e a postura de avestruz não facilita o esclarecimento das posições. Alguns médicos atribuem à vacina, mesmo quando a relação temporal é longínqua, toda a casta de sintomas. Em vez de reportarem esses efeitos e de os apresentarem às reuniões de pares ou de os submeterem a publicação em revistas de mérito reconhecido, comentam com os doentes.
A indústria farmacêutica devia igualmente perceber que a sua imagem na opinião pública está ferida. Cidadãos que nunca leram o Fiel Jardineiro nem ouviram falar da Freira de Montjuich nem da falsa ex-Ministra da Saúde da Carélia, desenvolvem as teorias conspirativas sobre a gripe, a declaração de pandemia e a compra de vacinas pelo Estado. E a OMS, remeteu-se a uma estratégia defensiva que, pelo menos nos seus aspectos mediáticos, se tem revelado decepcionante.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O rato vai nu

*Por Filipe Froes e António Diniz


Os últimos dias têm sido férteis em notícias sobre a pretensa farsa da pandemia de gripe A, agora reduzida a uma bem urdida campanha de manipulação e influência da indústria farmacêutica junto da Organização Mundial de Saúde (OMS) que, por sua vez, condicionou os governos das nações a comprarem medicamentos antivíricos e vacinas de utilidade e segurança duvidosas para uma doença banal, que se poderia tratar com um simples antipirético.

Passados mais de 7 meses da declaração de pandemia, a 11 de Junho de 2009, convém esclarecer que estas críticas são falsas, não fundamentadas e irresponsáveis.

Criticar, à luz dos conhecimentos actuais, as decisões tomadas há muitos meses atrás é o mais fácil, mas o menos útil e efectuar “prognósticos no fim do jogo” não é equivalente a competência científica. O que não significa que, construtivamente, se não deva avaliar o que foi feito em toda a sua extensão. Quando a OMS declarou a pandemia, ouviu os representantes da maioria dos países e a decisão foi unânime. Não se ouviram, nessa altura, as vozes agora discordantes. Estávamos perante uma nova estirpe de vírus influenza, desconhecida para o sistema imunológico dos humanos. Esta estirpe estava disseminada por todos os continentes e era capaz de provocar doença, havendo registo de dezenas de casos mortais por pneumonia grave no México e nos EUA, atingindo crianças e adultos jovens. Só por ignorância, imprudência ou neglicência se não declararia a pandemia. Esteve bem a OMS!

De imediato, foram activadas várias medidas, tais como a disponibilização dos fármacos das reservas estratégicas e a aceleração dos mecanismos que conduziriam à manufactura de uma vacina. Os países melhor preparados, entre os quais Portugal, com reservas previamente constituídas de fármacos estratégicos, incluindo os antivíricos, beneficiaram deste esforço de previdência e responsabilidade. Questionou-se, então, a eficácia e a segurança das vacinas por o seu desenvolvimento ter demorado poucos meses.

Mais uma vez, os conhecimentos actuais vieram corroborar a eficácia e a segurança da vacina. Esteve bem a OMS!

Porém, a polémica instalada acabou por contribuir para uma baixa taxa de vacinação, em especial num grupo de elevado risco como as grávidas.

E, finalmente, passou-se a criticar os resultados. Agora, a pandemia é uma farsa porque morreram menos pessoas do que o previsto. A montanha, que a OMS ajudou a “construir”, pariu um rato. Mas muitos, incluindo alguns profissionais de saúde, continuam a não querer ver e a confundir opinião pessoal com evidência científica. Porque o rato que a montanha pariu é muito real e reflecte o sofrimento de milhões de pessoas e o desespero de dezenas de milhares de famílias enlutadas. O trabalho de parto ainda não terminou e se a montanha não pariu um tigre devemo-lo aos recursos agora existentes e, em grande parte, ao esforço de informação e preparação. Pela organização e coordenação deste esforço a nível mundial, devemos um agradecimento à OMS.

(Artigo de opinião publicado na edição de 1 de Fevereiro de 2010 do Jornal PÚBLICO e enviado também para O Bebé Filósofo)

*Filipe Froes e António Diniz são Pneumologistas e Consultores da Direcção-Geral da Saúde

Fala o pai; fala a filha: o uso do telemóvel

*Por António Tavares e Joana Barata Tavares

Um estudo em Portugal sobre o uso do telemóvel concluiu que este equipamento é utilizado cada vez mais precocemente. A criança mais nova que recebeu um telemóvel tinha 2 anos!

fala o pai

Quando a minha filha tinha 2 anos não havia telemóveis, mas se lhe desse uma prenda com um lá dentro, ela ficaria feliz a brincar com o papel, desinteressada do aparelho. Se começasse a mexer nele eu até ficaria receoso que o estragasse.

Agora, quando sou eu a mexer no computador dela, ouço “Ó pai, sai daí! Estragas-me isso”. Sempre duvidei se a questão era eu não ter jeito para aquilo ou se era a preocupação de que eu visse o e-mail do namorado, “um rapaz vil e viperino" que existe na minha imaginação desde que ela completou 13 anos!”


Decidi fazer um curso sobre Internet. Mas ela insiste em relembrar-me, do alto dos seus 24 anos, “Não mexas no meu portátil, não percebes nada disso!”

Ela tem um PDA, que serviu para, um Natal, eu gastar 250 € e fazer-lhe uma surpresa. Ela disse-me “Ó pai, podes dar-me este presente! Pagou a mãe.” Era como dizer: “pagaste tu, sem teres autorizado que os 250 € voassem da tua conta.”

O PDA vinha num embrulho com papel colorido e laço vistoso. Ela adorou a “minha ideia em lhe ter comprado aquele presente, como é que eu sabia que era aquilo que ela desejava!”
Eu estava feliz por “lhe” ter comprado o que ela queria! “Sempre fui muito perspicaz a avaliar as suas pretensões!...”


Enquanto ela dissertava sobre a próxima prenda que eu “lhe” iria dar, o iPod, eu acabei a guardar o embrulho, tão giro que até serviria para uma próxima prenda.

Provavelmente foi isto que fez a criança de 2 anos ao receber o telemóvel. Brincou com o embrulho e não ligou ao aparelho.


Fala a filha


O meu pai ainda não percebeu que o iPod foi comprado antes do PDA.

De facto, o que “ele me comprou” primeiro foi um telemóvel, quando fiz 13 anos e comecei a andar com o tal namorado “vil e viperino”, cuja existência ele imagina e só agora, do alto dos meus 24 anos, assumo ter existido.

Acrescento que o tal curso sobre Internet nunca chegou a ser concluído…


Falam ambos

Actualmente não está estabelecida uma relação de causalidade entre os campos electromagnéticos dos telemóveis e algumas doenças. Mas, devido aos possíveis efeitos cumulativos de um elevado tempo de exposição, podemos assumir que ter um telemóvel aos 2 anos é muito cedo.

Há queixas sobre eventuais efeitos dos campos electromagnéticos na saúde. Mas quem nunca poderá reclamar sobre isso é quem ofereceu o telemóvel a uma criança de 2 anos.


António Tavares – Médico Especialista e Doutorado em Saúde Pública. Director do Departamento de Saúde Pública e Delegado de Saúde Regional da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo. Professor Convidado de Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa.


Joana Barata Tavares – Médica Interna do Ano Comum no Centro Hospitalar Lisboa Ocidental.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A caixa.. ou a importância do Porque Não?

Corbis/Sandra Seckinger


Falava há alguns dias a Bárbara, prezada contribuidora deste blog, sobre a importância do não. Dizia que nem sempre o não tem que vir acompanhado de uma explicação, que às vezes é não e pronto, acabou.

Eu cresci a perceber que havia "nãos" que até eram negociáveis, enquanto outros eram "nãos" a sério, incontornáveis e finais. "Nãos" que quando eu perguntava "porquê" tinham como complemento "porque eu sou a mãe/pai e digo que não". E eu aceitava. Parecia-me lógico. Parece-me lógico ainda e, embora não tenham sido muitas as vezes, já usei este argumento do "eu sou a mãe e digo que não" numa ou outra situação.

Há uma tendência actual para se falar disto. Reflexo de inversão, suponho eu, face ao surgimento dos tais "pequenos tiranos" com honras mediáticas. Os tais que, dizem, estão a crescer com ausência total de regras. Fala-se muito da importância da autoridade, das regras firmes, das balizas que as crianças devem ter, de forma a não crescerem desaustinados e verdadeiras pestes endemoínhadas que nunca serão felizes na vida, simplesmente porque assumem que tudo lhes é devido.


Certo.


Mas eu deparo-me com uma curiosa dicotomia. Na minha profissão, que atravessa o marketing, comunicação e afins, usa-se muito, cada vez mais de há uns anos para cá, o conceito de "thinking outside the box". Esta expressão, que nem sequer é recente, nem inicialmente aplicada a estas áreas, sintetiza algo que é cada vez mais valorizado: o pensamento criativo na procura de soluções alternativas. Imaginemos uma reunião de briefing criativo, um brainstorming para uma campanha, numa agência de comunicação. Ao fim de duas horas de banalidades, alguém sugere algo inesperado como soltar 70 lémures selvagens no metro em plena hora de ponta, vestidos com t-shirts estampadas com o logotipo do cliente. E pronto. É considerado um génio.

A verdade é que nós, adultos, estamos a valorizar cada vez mais esse bem raro que se tornou a criatividade. Estamos a perceber a sua importância, a sua necessidade imprescindível face a uma vida, que por mais que não aceitemos ou antecipemos, é em si mesma…imprevisível. Já percebemos, por fim, que quando A não leva a B, teremos que inventar um C para lá chegar.

Mas… ao mesmo tempo, esquecemos que os verdadeiros “thinkers outside the box” estão mesmo aqui ao lado. Sim, estão ao nosso lado. Mas temos que olhar para baixo para os ver...As crianças são reservatórios natos de criatividade. De uma imaginação que não conhece limites. A não ser aqueles que nos encarregamos afincadamente de lhes impor.


Mãe, posso ir de pónei para a escola?

Mãe, podemos jantar no chão da sala?

Mãe, porque é que não faltas ao trabalho e ficamos em casa a brincar?

Mãe, o jantar hoje pode ser cocó?


Todas as perguntas são verídicas, a todas elas a resposta foi “não”. Mas dou por mim a pensar: “Porque não?”. (excepto a última, e por motivos óbvios…).Porque é que nos sai tão mais rapidamente o "não"…? Não, quase sempre "não", a tudo o que sai do normal, da rotina, do convencionado. Dizemos muitas vezes “Não” para bem deles, claro, da sua saúde, da sua estabilidade. Para bem até da articulação entre afazeres e responsabilidades, para bem da nossa própria subsistência. É verdade: temos que trabalhar, viver, conviver com a sociedade, as suas regras. As regras são importantes.

Mas também nos sufocam, coarctam… A rotina inexorável mata a criatividade. E o “porque não?” pode ser um grito de liberdade em dias cinzentos.


Assumo como compromisso férreo responder mais vezes “Porque não?” a todas as propostas inocentes e deliciosamente disparatadas que ela me fizer. E aceitar onde quer que isso nos leve. Um dia, gosto de acreditar, o “porque não” pode levá-la longe, mundo fora à descoberta, sem medo de deixar raízes ou de arriscar. Pode fazê-la largar tudo por amor ou viver aventuras imprevistas.


Ou pode, simplesmente, levá-la a soltar lémures selvagens em hora de ponta no metro.


Qualquer uma das opções será com certeza… bastante divertida.

A prevenção da gravidez na adolescência

Por Filomena Sousa*

Muito se fala da prevenção da gravidez na adolescência e muito se tem feito, mas por vezes parece que os esforços vão todos no sentido de uma maior divulgação e acessibilidade aos métodos contraceptivos.


Na minha opinião, estas iniciativas são úteis mas são a última etapa na prevenção da gravidez na adolescência, porque antes de iniciarem a vida sexual precocemente, muitas adolescentes já tiveram falta de afecto em famílias desmembradas, ocupação pouco saudável dos tempos livres, insucesso escolar e baixa auto-estima.

Uma adolescente que se sente acarinhada no seio de uma família, tradicional ou não,

uma adolescente a quem são incutidos hábitos de vida saudáveis, incluindo a prática de actividades extra-curriculares como o desporto ou a música,

uma adolescente de quem é esperado sucesso escolar e estimulada a construção de um projecto de vida,

dificilmente sente necessidade de se envolver em comportamentos de risco ou de iniciar a vida sexual.

Claro que, ao entrar na adolescência, a sexualidade desponta e leva a procurar contactos íntimos e novas sensações, que os adolescentes podem e até devem experimentar, mas sempre com responsabilidade e noção dos limites que querem, ou não, ultrapassar.

Tenho vigiado muitas grávidas adolescentes e não encontro mais riscos para a saúde física da mãe e/ou do feto, desde que a gravidez seja assumida, vigiada e apoiada pela família. Parece que a natureza nos preparou para ter filhos novas, mas a sociedade nos exige que os tenhamos mais “velhas”.

Partindo do princípio que vivemos numa sociedade que pede cada vez maior diferenciação profissional para se poder ter alguma estabilidade económica, de modo a criar os filhos sem ter que pedir ajuda, não há dúvida que na adolescência não estão reunidas todas as condições para ter um filho. Então há que prevenir, mas não basta investir na educação sexual nas escolas e na distribuição gratuita dos métodos contraceptivos. A prevenção da gravidez na adolescência tem que começar muito antes… ainda na infância.

*Filomena Sousa é médica, especialista em ginecologia/obstetrícia, trabalha em exclusividade no Hospital D.Estefânia onde se dedica à área da ginecologia da adolescência e do planeamento familiar.