Orgulhamo-nos da taxa de vacinação. Praticamente universal. Os grupos anti-vacinas nunca prosperaram em Portugal. As razões para este sucesso são discutidas: o Plano Nacional de Vacinas surgiu em 1965 com as características que hoje lhe conhecemos: gratuito, universal, fornecido por Centros de saúde sem necessidade de consulta. Embora não seja obrigatório, conquistou os portugueses. Enquanto a visita a um Centro onde se administrem vacinas é vista , em alguns dos países mais desenvolvidos do hemisfério norte, como uma oportunidade a não desperdiçar, em Portugal entrou-se, silenciosamente, numa onda eufórica que tem permitido aos Centros de Saúde marcar arrogantemente horários especiais para vacinação, fazendo perder dias de trabalho às famílias submissas, adiando por motivos fúteis ( inventando falsas contra-indicações), recusando vacinas simultâneas, criando intervalos entre vacinas não exigíveis por nenhuma racionalidade.
Alguns enfermeiros vêem , na administração da vacina, um momento de poder. E se muitos aprofundam o tema e aproveitam o momento para preciosa intervenção pedagógica de vigilância ou ensino de saúde, outros exercem esse poder da pior maneira.
Seja como for, o mito de que, na disciplina do PNV somos excepcionais, prosperou.
Até à gripe A. Até à vacina da gripe A.
Peço desculpa pela incomodidade do tema. A saturação dos leitores é imaginável. Se algum, porventura me seguiu até este momento, é seguro que aqui me abandonou. Não importa. Este blogue não existe para ter 5 000 amigos, nem nenhum dos bloguers é candidato a cargos da República.
Mas a gripe A, os planos de contingência e a vacinação decorreram com tal mediatização , e foi tal o enfado subsequente, que nos arriscamos a que não haja avaliação, nem discussão das experiências, por desistência dos responsáveis e enfado dos intervenientes possíveis.
No que respeita à vacinação os objectivos não foram atingidos: não se vacinaram os designados grupos de risco, os Centros de Saúde não perceberam o carácter de "campanha" da vacina, ignoraram as directivas da DGS, criaram obstáculos, mantiveram uma atitude que os utentes interpretaram correctamente como de distanciamento, quando não de discordância .
As principais características das campanhas anti-vacinas estiveram presentes e mostraram como, afinal, somos iguais aos piores. Ignorância disfarçada – toda a gente falava de "adjuvante"; alarmismo injustificado - ressuscitaram- se quase todos os ancestrais inimigos das vacinas entre as quais pontificam o Síndrome de Guillain Barré e o Autismo ; o comportamento de médicos e enfermeiros foi deplorável, contrariando surdamente o esforço das autoridades. Os médicos, incluindo o seu Bastonário , evidenciaram a proverbial impreparação para as questões ligadas à vacinação.
A confusão continua e a postura de avestruz não facilita o esclarecimento das posições. Alguns médicos atribuem à vacina, mesmo quando a relação temporal é longínqua, toda a casta de sintomas. Em vez de reportarem esses efeitos e de os apresentarem às reuniões de pares ou de os submeterem a publicação em revistas de mérito reconhecido, comentam com os doentes.
A indústria farmacêutica devia igualmente perceber que a sua imagem na opinião pública está ferida. Cidadãos que nunca leram o Fiel Jardineiro nem ouviram falar da Freira de Montjuich nem da falsa ex-Ministra da Saúde da Carélia, desenvolvem as teorias conspirativas sobre a gripe, a declaração de pandemia e a compra de vacinas pelo Estado. E a OMS, remeteu-se a uma estratégia defensiva que, pelo menos nos seus aspectos mediáticos, se tem revelado decepcionante.