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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Este post é longo (mas fala de sexo)

O teu corpo O meu corpo E em vez dos corpos
que somados seriam nossos corpos
implantam-se no espaço novos corpos
ora mais ora menos que dois corpos


Que escorpião de súbito estes corpos
quando um espelho reflecte os nossos corpos
e num só corpo feitos os dois corpos
ao mesmo tempo somos quatro corpos


Não indagues agora se o meu corpo
se contenta só corpo no teu corpo
ou se busca atingir todos os corpos
 que no fundo residem num só corpo
Mas indaga sem pausa além do corpo
o finito infinito destes corpos


David Mourão-Ferreira

Eram seis da tarde e eu tinha oito anos quando dei o meu primeiro beijo na boca. No campo de futebol da quarta classe, à porta das casas de banho, jogava-se ao bate-pé. Eu e uma amiguinha da mesma idade emparelhávamos com dois rapazes mais velhos (nós éramos da segunda, eles eram da quarta). Aquilo não estava fácil para o meu lado.


A minha amiga já tinha entrado na casa de banho duas ou três vezes, sem bater o pé aos números que correspondiam ao beijo na boca com e sem língua e a variações mais elaboradas que incluíam apalpões fortuitos e consentidos. Eu dizia que sim ao abraço, beijinho na cara e pouco mais. O resto, tudo o que passava do número 3, obtinha, lá está, um bate-pé determinado da minha parte.


Ora, diziam as regras que só se podia bater o pé três vezes até se ser expulso do jogo e a minha amiga começava a fulminar-me com os olhos. Afinal, ela queria continuar a jogar e eu não podia sair de jogo assim, já que o meu par era irmão dela e, haja limites, ela não ia jogar com o próprio irmão e o coleguinha. Não, eu tinha que continuar. Portanto, assim estávamos nós, às seis da tarde. Mais uma nega minha e o jogo estaria arruinado (bem como a minha vida social no recreio da primária, concluí eu, prudentemente). Foi assim que ao novo pedido de beijo na boca (sem língua, não te preocupes) enchi o peito de ar e entrei na casa de banho com o meu experiente companheiro. Fechei os olhos com força, cerrei os lábios e preparei-me. Pronto, foi rápido, está despachado. Dificilmente se poderá chamar beijo ao que se passou, mas por qualquer razão, o rapaz gostou e destemido volta a agarrar-me para pedir “mais um, só mais um”. Para mim foi o limite.


Um pontapé certeiro, a porta aberta em par e eu atravesso a correr o campo da quarta para entrar esbaforida na sala de estudo onde se faziam os trabalhos de casa e de onde eu me baldava diligentemente todos os finais de tarde.


No dia seguinte, e contrariamente ao que eu pensava, o grupinho do bate-pé não tinha desistido de mim. Não houve grandes jogos, mas por alguma razão, acharam que eu merecia o investimento e então dedicaram-se a explicar-me os factos da vida. Não fizeram um grande trabalho, diga-se de passagem. Mas eu estava abismada. Tanto que resolvi dizer à minha mãe que ela que não se preocupasse, pois eu já sabia o que era “f….”. E para confirmar: “Já sei que o homem e a mulher ficam todos nus à frente um do outro e depois a mulher engravida”. A minha mãe estava virada de costas a fazer o jantar. Lembro-me que ficou suspensa por um instante e se virou lentamente enquanto dizia: “Não se usa essa palavra porque é muito feia. E falta aí uma parte…”. Minutos depois, como qualquer criança de oito anos, eu estava completamente horrorizada e enojada.


(eu nunca, nunca, vou fazer isso, jurei a mim própria).


Avancemos vinte anos. Eu estou grávida. É domingo e estou na ronha no sofá com a minha filha de dois anos. Tenho uma barriga de cinco meses e contei-lhe há pouco tempo que vai ter um mano ou uma mana. Estamos a ver televisão e oportunamente vejo que vai dar o documentário da National Geographic, “A Vida no Ventre”. Parece-me uma boa ideia, vê-lo com ela, assim pode perceber melhor o que se passa dentro da barriga da mãe.


Começam as imagens e dou conta da esparrela onde caí - raio, mas como é que me fui esquecer da concepção?- o ecrã mostra a explosão de espermatozóides em correria desenfreada por ali acima e a menina delira: Que é aquilo, mãe? Que é aquilo?!Hesito. E decido despejar tudo de uma vez. “Olha que boa ideia, assim ficamos despachadas”, ela fica a saber como se fazem as coisas e se crescer a saber isto nem lhe vai fazer confusão nenhuma.

Comecei a explicar, mas ela bloqueou na palavra espermatozóide “Diz outra vez o nome daquelas minhocas, mãe!”, e ria, ria, ria…


Eu continuava estoicamente, tentando ser científica, mas pedagógica, num mix infrutífero. Tão infrutífero que se passaram dois anos deste episódio e ainda há poucos dias ela me pediu “Ó mãe, não fiques outra vez grávida sem falarmos com a senhora das sementes... É que eu desta vez quero mesmo uma mana”. Eu engoli em seco e balbuciei qualquer coisa como “não peças à senhora das sementes (?!), tens que pedir ao teu pai”. E fugi a sete pés.


Haverá uma razão para eu estar aqui a partilhar estes episódios bastante humilhantes. Na época da pedagogia e da ciência, fala-se da importância da informação para uma sexualidade consciente. Certo. Isto não é assim tão novo. Eu estudei 15 anos num colégio católico e em meados do 8ºano nós já sabíamos que havia sessão pedagógica sobre sexo. Meninas para um lado com a directora de turma “É normal que os rapazes tenham curiosidade sobre as vossas maminhas”, e nós aos risinhos (stôra, têm mais curiosidade pelas suas) e depois a garantia de que estávamos elucidadas para podermos sair mais cedo e ouvir à porta da sala onde estavam os rapazes com um padre velhote: “Agora que começais a sentir o sabor dos primeiros beijos na boca..”. E nós a correr pelo corredor fora, aos gritos e a rir.


Eram tentativas honestas dos adultos. Bem intencionadas. De cuja eficácia eu duvido, tal como duvido dos conteúdos assépticos e politicamente correctos, leccionados na sala de aula.

Dizemos que as crianças de hoje são mais avançadas, mais precoces. Não são. Elas têm é mais acesso a conteúdos que os adultos lhes fornecem.


Em muitos casos, o objectivo desses conteúdos é vender qualquer coisa. Noutros casos, mais raros, o objectivo é informar ou formar. Em ambos os casos, são coloridos, apetecíveis e têm uma boa dose de marketing. E usam orgulhosamente expressões como “sem papas na língua” ou “sem tabus” para justificarem o seu vanguardismo e ausência de preconceitos. Que interessa se os miúdos querem ou estão preparados para tanta informação. Se a sabem digerir. Como esta exposição que eu não vou comentar porque não vi. A Bárbara foi e diz que está bem feita. Eu confio. Mas comento esta reportagem, após a qual fiquei em choque.


Ele é bonecos com línguas articuladas, preservativos insufláveis, perguntas insistentes aos meninos que não sabem o que dizer. Que modernos e desempoeirados. (e desculpem-me, é de mim ou esta luta do sexo “sem preconceitos”, não é tão anos 90?). Horroriza-me o ar dos miúdos nesta reportagem. Tão incomodados, e a jornalista a perguntar “mas achas que dói?” e eles lívidos sem saber bem o que dizer. E mais de uma vez ouve-se “não sei nem me interessa”.


Parece-me uma súplica: mas porque me trouxeram aqui se eu só queria jogar à bola?

E fico a pensar. Nada contra explicarem às crianças de onde vêm os bebés. De forma informada e correcta. Está tudo muito bem. Mas arrepiam-me estes títulos “Sexo?.. e então?”.

Porque então… tudo.

Fica a faltar tudo.

Eu guardo para os meus filhos aquilo que acho que as crianças deviam saber. Quando perguntarem. Não antes disso. Que pressa temos nós de os encharcar em informação! Não sei se eles quererão ouvi-lo da minha boca, mas deixo na net. Pode ser que daqui a uns anos quando procurarem “sexo” no Google aqui venham dar e corem de vergonha com as palavras da mãe, mas qualquer coisa fique lá dentro.

É que eu não sei se confio nesta Educação Sexual politicamente correcta, com cheiro a desinfectante e látex.


E então falo para eles:



Eu tenho a certeza de que não é preciso veres exposições com bonecos articulados para saberes dar um bom beijo de língua. E não, não é nojento. Pode ser mesmo bom. Às vezes não é bom, mas isso é sinal que estás com a pessoa errada. Ou que és tu a pessoa errada para aquela pessoa. Às vezes só percebemos isso no dia seguinte. É confuso, mas assim são as coisas boas da vida… confusas, difusas. E sim, é bom teres toda a informação. Protege e respeita o teu corpo e o da outra pessoa. No momento decisivo o critério será o teu. Não te ponhas em situações de risco. Não vale mesmo a pena. E também não dói, necessariamente, lá está, se estiveres com a pessoa certa e estiveres preparada. Mas vai haver momentos em que não tens a certeza se é a pessoa certa. A verdade é que ninguém sabe bem, mas a maneira como o corpo se comporta é um bom indício. Vale a pena esperar porque há coisas que se calhar não vais compreender aos 14, mesmo que os Morangos com Açucar te pareçam tão adultos e conhecedores (são actores mais velhos a fingir ter a tua idade, sabias? e as palavras que dizem foram escritas por adultos).


Acima de tudo espero que descubras a poesia. Porque nas palavras inspiradas vemos como pode vir da carne o desejo, a paixão, o amor. É assim que deve ser. A vontade de agarrar e ser agarrado. Os dedos que queimam quando tocamos em quem amamos. As noites passadas acordado a pensar na outra pessoa, a música deprimente. O não querer adormecer só para ficar a olhá-lo mais um bocadinho. E um dia, anos depois da avalanche de hormonas, dás por ti a trocar fraldas, mas já não tens tempo de trocar poesia. És adulto, de repente. E fazes um ar entendido e falas sobre a importância da sexualidade consciente e alertas os adolescentes e as crianças de forma pedagógica. E crias exposições interactivas onde se leva os meninos ao fim de semana. E decides tu o timing em que se deve falar de sexo e como. E falas muito mas não fazes assim tanto. Porque em casa, já te esqueceste do fogo e agarras-te à ciência porque já não sabes dissertar sobre os mistérios do amor e da paixão. E usas a desculpa de que as emoções são subjectivas e é muito complicado e os meninos precisam de mensagens simples.


Mas isso é porque os adultos não sabem tudo. Porque se soubessem, arranjavam tempo e espaço. E se calhar descobriam que eles próprios também precisavam de alguma Educação Sexual ao longo da vida. Ou de ler um poema do David Mourão Ferreira de vez em quando, e de ter vontade de namorar mais.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Contracepção, consulta de ginecologia e adolescentes...Qual é a altura certa?

Por Filomena Sousa*

Ser médica-ginecologista e lidar com as filhas dos outros é quase sempre fácil, basta aplicar os conhecimentos teóricos e algum jeito para falar com adolescentes. Mas ser mãe e lidar com a própria filha adolescente é completamente diferente…

É como ginecologista-mãe de uma adolescente que vou tentar expor o meu ponto de vista:

Os adolescentes em geral gostam de ser ouvidos com atenção e detestam o chamado “sermão”. Claro que às vezes faz falta um sermão, mas também temos que lhes dar ouvidos e tentar ver as coisas pelos olhos deles, para melhor os compreendermos.

Cada família tem valores que deve transmitir aos filhos, para que eles os utilizem como entenderem. Não podemos mandar na cabeça deles mas podemos dar-lhes uma orientação.

Depois é necessário ficar atento para ir percebendo o que pode estar a acontecer, sem invadir a privacidade dos filhos.

O “boletim de saúde infantil e juvenil” (aquele livrinho cor-de-rosa que nos deram na maternidade há 14 ou 15 anos), tem algumas orientações que considero úteis.

Cada adolescente amadurece ao seu ritmo e não se pode dizer qual é a altura certa para falar de contracepção ou para levar a filha a uma consulta de ginecologia.

A maioria das adolescentes sabe perfeitamente como é que se engravida (daahh!)… e que ao ter relações sexuais pode ficar grávida ou apanhar uma doença… e que existem métodos para evitar estas consequências… E portanto não me parece que seja preciso “ensinar a missa ao padre”…

O que acho importante é partir do princípio que já sabem estas coisas e orientá-las pela positiva, para que utilizem os conhecimentos quando chegar a altura. Podemos pegar no exemplo de uma adolescente da telenovela ou de uma colega da escola que tenha ficado grávida e transmitir a convicção (mesmo que tenhamos sérias dúvidas…) de que acreditamos que a adolescente que temos à frente vai ser capaz de só ter relações sexuais se estiver preparada para o fazer e de se proteger, se for caso disso. É mais provável que se proteja se souber que estamos à espera que o faça do que se constantemente ouvir dizer: “Agora vê lá o que é que vais fazer, irresponsável como és, é bem possível que não tomes a pílula correctamente, nem uses preservativo…”.

O ser humano tem tendência a tentar corresponder às expectativas dos outros, por isso é bom que as filhas percebam que esperamos que sejam responsáveis e tomem a atitude certa.

Se os pais não se sentirem à vontade para falar sobre este tema, podem sempre comprar lá para casa uns livros sobre Educação Sexual para adolescentes. “Como quem não quer a coisa”, se a adolescente tiver curiosidade, vai acabar por folhear o livro ou até ler as partes que lhe interessam.

Se a adolescente referir queixas do foro ginecológico, ou os pais se aperceberem de que algo não está bem, então talvez seja prudente marcar uma consulta no Centro de Saúde ou mesmo no ginecologista.

É frequente as menstruações serem irregulares ou acompanhadas de dores abdominais, e na maior parte dos casos, isso não significa que se passa algo de grave. No entanto, algumas adolescentes já sabem que a pílula, além de ser contraceptiva, também alivia a dor menstrual e regulariza os ciclos, e alegam um motivo mais aceitável pelos pais para pedir uma consulta e eventualmente começar a tomar a pílula. Neste caso, os pais devem providenciar uma consulta para a filha e admitir que já não devem assistir a essa consulta, pelo menos na totalidade. Se a filha sair da consulta com uma receita de pílula isso também não significa que já tenha iniciado a vida sexual, nem que a vá iniciar em breve, e devemos respeitar a sua intimidade.

No caso de a adolescente ter necessidades especiais, por ter problemas de saúde, físicos ou psicológicos, então talvez devam ser os pais, ou os educadores, a tomar a iniciativa de ouvir a opinião de um especialista.

Se a adolescente não referir queixas e existir uma boa comunicação com os pais, não me parece obrigatório a jovem ser observada do ponto de vista ginecológico a partir de determinada idade, mas sim aquando do início da vida sexual.

Claro que não é fácil perceber se está na altura de levar a filha adolescente ao médico de família ou ao ginecologista, mas uma boa dose de afecto e compreensão podem ajudar a manter a comunicação e assim talvez consigamos espreitar pela janela do mundo da nossa filha, mesmo não podendo ficar à espera que ela nos abra a porta e nos convide a entrar… (com muita pena nossa, não é?).

*Filomena Sousa é médica, especialista em ginecologia/obstetrícia, trabalha em exclusividade no Hospital D.Estefânia onde se dedica à área da ginecologia da adolescência e do planeamento familiar.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A prevenção da gravidez na adolescência

Por Filomena Sousa*

Muito se fala da prevenção da gravidez na adolescência e muito se tem feito, mas por vezes parece que os esforços vão todos no sentido de uma maior divulgação e acessibilidade aos métodos contraceptivos.


Na minha opinião, estas iniciativas são úteis mas são a última etapa na prevenção da gravidez na adolescência, porque antes de iniciarem a vida sexual precocemente, muitas adolescentes já tiveram falta de afecto em famílias desmembradas, ocupação pouco saudável dos tempos livres, insucesso escolar e baixa auto-estima.

Uma adolescente que se sente acarinhada no seio de uma família, tradicional ou não,

uma adolescente a quem são incutidos hábitos de vida saudáveis, incluindo a prática de actividades extra-curriculares como o desporto ou a música,

uma adolescente de quem é esperado sucesso escolar e estimulada a construção de um projecto de vida,

dificilmente sente necessidade de se envolver em comportamentos de risco ou de iniciar a vida sexual.

Claro que, ao entrar na adolescência, a sexualidade desponta e leva a procurar contactos íntimos e novas sensações, que os adolescentes podem e até devem experimentar, mas sempre com responsabilidade e noção dos limites que querem, ou não, ultrapassar.

Tenho vigiado muitas grávidas adolescentes e não encontro mais riscos para a saúde física da mãe e/ou do feto, desde que a gravidez seja assumida, vigiada e apoiada pela família. Parece que a natureza nos preparou para ter filhos novas, mas a sociedade nos exige que os tenhamos mais “velhas”.

Partindo do princípio que vivemos numa sociedade que pede cada vez maior diferenciação profissional para se poder ter alguma estabilidade económica, de modo a criar os filhos sem ter que pedir ajuda, não há dúvida que na adolescência não estão reunidas todas as condições para ter um filho. Então há que prevenir, mas não basta investir na educação sexual nas escolas e na distribuição gratuita dos métodos contraceptivos. A prevenção da gravidez na adolescência tem que começar muito antes… ainda na infância.

*Filomena Sousa é médica, especialista em ginecologia/obstetrícia, trabalha em exclusividade no Hospital D.Estefânia onde se dedica à área da ginecologia da adolescência e do planeamento familiar.