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sexta-feira, 15 de abril de 2011

As crianças e a crise



Por Deolinda Barata*

É uma realidade inquestionável que a “crise” também chegou ao universo das nossas crianças e para isso muito contribuiu a televisão que as bombardeia constantemente com a “crise financeira”, o “IVA”, o “FMI”, a “BOLSA”, o “Rating”. Descobrimos até que fazem arremedos a opinar sobre a política fiscal… «então mãe, não achas que o IVA não devia aumentar, porque assim as coisas ficam mais caras e é pior para toda a gente?»!


Este facto obriga-nos a estar redobradamente atentos não ocultando este registo às crianças para as poupar a preocupações e ansiedades!

Além disso os pais/família têm de assumir uma atitude equilibrada, sensata e ponderada para que a “ansiedade financeira” causada pelas medidas de austeridade, vivenciando um quotidiano, por vezes doloroso, de sobrevivência, não os coloque a si mesmos num estado de preocupação, ansiedade e mesmo de dramatismo que os torne muito menos disponíveis e despertos para as inquietações das suas crianças. É fundamental não esquecer que se deve dar sempre às crianças uma perspectiva de “saída”, de optimismo e positiva em relação ao futuro. Pois para se ter empenho e interesse em crescer com as potencialidades de desenvolvimento como pessoa, é necessário ter uma ideia de “futuro” e não de “beco sem saída”.

Esta atitude proactiva seguramente implica uma reformulação do modelo de vida vigente (baseado no consumo e no “quanto mais melhor”, mesmo que desnecessário), educando os nossas filhos, dando importância mais “ao ser” do que “ao ter”. É óbvio que é necessário aprender a viver em padrões de desenvolvimento diferentes, outras formas relacionais de vida, com maior enriquecimento pessoal, sem ser necessariamente à custa do consumo exagerado de bens materiais.

É necessário reformular hábitos, saber, em total partilha e envolvimento das crianças (explicando de maneira adaptada às suas idades, desdramatizando as arestas mais agudas) estabelecer um plano de despesas e gastos, estabelecendo prioridades e banindo o que é supérfluo. Esta atitude não significa um empobrecimento da vida relacional, afectiva, social e cultural, bem pelo contrário.

Por paradoxal que possa parecer, as “crises” em geral obrigam-nos a repensar os projectos de vida e a encontrar soluções mais criativas e eventualmente mais satisfatórias. Assim, é fundamental que os Pais/Famílias evitem dar uma dimensão catastrófica da vida, oferecendo sempre a ideia de que há um “futuro” para o qual há uma saída, reforçando o conceito que o ser humano é dotado de uma capacidade de adaptação às adversidades, ultrapassando-as. Deve ser dado relevo a que as pessoas/famílias podem sair destas crises (quando superadas com equilíbrio) com aumento das suas competências relacionais, sociais e culturais.

Contudo não deve ser esquecido que existem situações de extrema pobreza, degradantes sob o ponto de vista humano, que conduzem à exclusão social e que obrigam necessariamente a desencadear medidas concretas de ajuda, nomeadamente pelos órgãos de decisão (Estado/Governo), dotando as famílias de meios que lhes permitam sair desta situação humilhante socialmente. Além disso, deve ser fomentada uma cultura de cidadania, com sociedades solidárias e preocupadas com “o outro” que necessita de ajuda.

Como explicar a crise às crianças

A crise deve ser explicada às crianças com verdade, de uma maneira simples e perceptível para o seu grau de compreensão, sem dramatismos desnecessários ajudando a fazer opções, sempre com o seu envolvimento e partilha nas decisões. É fundamental explicar que a impossibilidade de comprar coisas que não são prioritárias não é uma catástrofe, pois há crianças que podem vivenciar estas opções angustiadas pela ameaça de “ruína” (todos nós já vivemos com menos bens de consumo e não nos angustiámos e envolvemo-nos com a vida com alegria!).

Obviamente que o “aperto” financeiro dos pais pode ser motivo de ansiedade entre os mais novos se os pais projectarem sobre os filhos as suas inquietações, angústias e a ansiedades.

Os pais com a vida pessoal e profissional tão intensa e exigente, a quem resta pouco tempo para partilhar com os filhos, é frequente que, numa atitude de desculpabilização e compensação “comprem” os filhos, oferecendo-lhes bens materiais, a maior parte das vezes desnecessários. Como nesta época de crise a capacidade de compra diminuirá consideravelmente, podem agora os pais explorar outras abordagens, encontrando maior disponibilidade de tempo para o envolvimento afectivo e emocional com os seus filhos.

*Deolinda Barata é pediatra e presidente da Secção de Pediatria Social da Sociedade Portuguesa de Pediatria. 


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A Pediatria


Por Luís Januário, presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria*

Vivemos os tempos conturbados de uma crise mundial que alguns querem reduzir aos aspectos quase caricaturais da política nacional mas que é uma crise civilizacional, cujas causas, dimensão, profundidade escapam ao indivíduo comum mas que é seguramente demorada, com reflexos na comunidade que somos e sem saídas visíveis.

O Estado emergente da segunda guerra mundial e do triunfo das democracias esboroa-se, sem que se vislumbrem propostas que assegurem que as suas funções mínimas - nomeadamente na saúde, educação, justiça - serão substituídas por modelos capazes de assegurar o bem estar geral, o respeito pelas minorias, a igualdade de oportunidades.

O ser humano, asseguram os neurobiólogos, é incapaz da visão de médio e longo prazo.

A civilização da ilha da Páscoa derrubou até à última árvore para levantar as estátuas das divindades, os maias desmataram as florestas, os habitantes do Chaco Canyon não resistiram à alteração ambiental que ajudaram a produzir.

Por outro lado o nosso cérebro produz permanentemente imagens, uma construção autobiográfica, uma falsa causalidade entre eventos díspares, dominado por uma compulsão para dar explicações, encontrar uma razão profunda na vida - mesmo quando nenhuma razão, nenhuma coerência, são prováveis.

Nenhum privilegiado renunciará ao que considera o direito adquirido, mesmo que este o tenha sido pelo roubo, o engano dos crédulos.

Destruiremos as florestas como os habitantes da ilha da Páscoa, e nenhuma memória do passado nos salvará enquanto alguns beneficiarem alguma coisa e a turba não sentir a fome, a miséria e a doença (que é um pouco diferente de “o povo sentir as dores do governo”).

É neste cenário de fim de festa que crescem a crianças da Europa, de maneira desigual consoante a cena decorra na Calheta ou em Cascais mas todas unidas na contracção demográfica, na superioridade relativamente aos mais fracos, no desconhecimento e no medo do Outro (seja ele o cigano, o árabe ou o subsahariano).

No caso português é importante juntar a estes factos outro, mais antigo e mais importante: muitas das nossas crianças são pobres. Somos o país europeu com mais pobreza infantil e onde os factores de stress económico são mais importantes tais como os de privação material (condições materiais de vida, habitação, posse de bens duráveis, capacidade de obter as necessidades básicas).

Só conseguiremos responder às questões das crianças e das famílias se juntarmos à nossa visão especializada uma outra, de carácter global, sobre a infância.

Nos dias de hoje essa visão não pode ignorar as alterações sociais que criaram uma sociedade de filhos únicos, na cidade de betão sem passeios nem quintais, com creches e ATL,s impondo ritmos que, como veremos neste congresso, são muitas vezes mais exigentes do que os impostos aos adultos empregados.

Dez por cento das crianças entre os 9 e os 17 anos têm problemas de comportamento. Os problemas de comportamento atravessam todas as idades e são o motivo explícito ou o não-dito de muitas consultas.

Os avanços tecnológicos informatizaram os serviços muitas vezes na perspectiva da facturação.

A facilidade de contacto com colegas de outros centros e de outros países e o acesso on line à informação tem uma contrapartida: muitos pais também procuram informação na rede, tornando a questão da administração da informação e da comunicação uma exigência.

A profissão de pediatra é hoje exercida no feminino.E as mulheres trazem ao exercício profissional um repto: como conciliar a família com a carreira?

O Serviço de Saúde modificou-se. Na crise económica um sector que parece rentável é o da saúde. Os capitais privados investem na saúde criando uma competição que seria saudável se não enfraquecesse o SNS, capturasse mão de obra especializada após mais de 20 anos de elevado investimento e num ambiente em que as regras de respeito pela carreira médica- e a própria noção de carreira médica- foram congeladas.

O que procurámos fazer foi assegurar a centralidade destas questões, promover a investigação e a formação, a ligação à investigação antropológica, linguística, biológica, sociológica, filosófica.

Crentes de que, se houver resposta, ela terá de ser encontrada nas nossas baixas origens, como dizia Darwin, na nossa animalidade, que está paradoxalmente próxima da natureza e da divindade.

Acabo como comecei: quando deixo o meu cérebro à solta ele dá-me, apesar dos tempos cinzentos, uma mensagem de optimismo. Não interessa que este optimismo seja, ele também, sem ligação com a realidade, apenas uma manifestação mais da pressão selectiva da evolução. Os meus antepassados optimistas foram bafejados na lotaria genética da procriação e é a eles que agora agradeço esta característica, que sei partilhar com muitos de vós e em última análise nos reúne aqui hoje.

* discurso de abertura do 11º Congresso Nacional de Pediatria que decorre até 8 de Outubro no Funchal e reúne mais de 700 pediatras.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Reflexões de um Pediatra de urgência, num hospital distrital

Por Inês Torrado*


Vinha da sala de partos, onde acabava de nascer mais um menino vigoroso… chinês. Este ano vamos com menos duas dezenas de partos em relação ao ano passado. Ainda vão ajudando nos números os emigrantes de leste, os brasileiros, alguns chineses…

No elevador cruzei-me com um menino de 6 anos, muito obeso, que comia um pacote de açúcar, mastigando já uma pastilha elástica. Ao sair, ainda ouvi a mãe a ralhar: “Olha que vou dizer à tua médica que não fazes nada do que ela mandou!”.

No corredor do serviço, fui interceptada por um delegado de informação médica, que apresentava dois novos medicamentos. O primeiro, era um suplemento alimentar para crianças distraídas, sem critérios formais de criança hiperactiva com baixa de atenção, isto é sem doença. As cápsulas parecem umas gomas, que dão vontade de comer de uma só vez, apanhando os pais desatentos.

O outro medicamento destina-se a manter a flora intestinal, estando indicado segundo o delegado: “para diminuir a diarreia, porque as crianças têm cólicas, porque choram.. Olhe, mesmo quando não se queixam, só faz bem e desde o primeiro mês…"

A pensar nas recomendações da SPP sobre vacinas para 2010, que estava a ler antes de ser chamada ao bloco de partos, tinha contado 10 vacinas recomendadas para 15 doenças. Em conjunto com a melhoria da qualidade de vida, da higiene e da educação, que drástica mudança em meio século no panorama das doenças pediátricas!

As crianças sobrevivem cada vez mais e melhor em Portugal.

Um contraste com os colegas de medicina interna, a braços com serviços e urgências entupidos de doentes. Uns com várias doenças num só corpo, outros só com uma, mas no corpo todo, e tantos que já nem sabem bem qual o mal…

Se as crianças são cada vez mais saudáveis, porque morrem tão mal uns anos depois?

Hoje, até sabemos que muitas doenças do adulto “nascem” na infância e mesmo antes.

Tantos hábitos bons se instalam na infância e perduram pela vida toda. O que mudou?
Em pediatria, já não são as doenças que preocupam, mas sim a saúde. Nós, médicos, fomos mais preparados para tratar doenças, do que para promover saúde…

Vivemos num mundo que nos consome. Perdemos a dimensão humana. Morremos à fome no Sul e comemos demais no Norte. Dá mais lucro engordar as populações e de seguida emagrecê-las, do que resolver a saúde das populações.

A crise chegou. Medos e insatisfações paralisam o bom senso.

No fim do banco, transferi um lactente de 2 meses por, discutível, administração profiláctica de paracetamol pós vacina… mas numa dose tóxica, por erro de interpretação.

Talvez, pudéssemos evitar dar medicamentos na ausência de doença, e defender melhor a saúde dos que ainda não se podem proteger. Mas isso implica sairmos dos hospitais e aproximarmo-nos mais das crianças e da comunidade.

*Inês Torrado, pediatra.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Noites em Claro

Por Gabriela Pereira*


imagem: Corbis/Tomek Olbinski




Passas em claro as noites a chorar;

Dia a dia, teu rosto empalidece...

Faze tu, pobre Mãe, por serenar,

Santa Resignação sobre ela desce!



Rochedo que a penumbra desvanece,

Tu, por acaso, não lhe podes dar

Um pouco d'esse frio que entorpece

O coração e o deixa descançar?...

Jamais! Não ha remedio! Nem as horas

Que passam! Toda a fria noite choras;

Tua sombra, no chão, é mais escura.

Soffres! E sinto bem que a tua dôr,

Como se fôra um beijo, acêso amôr,
Vae-lhe aquecer, ao longe, a sepultura.

Teixeira de Pascoaes, in 'Elegias'


O assunto da morte em Medicina é sempre difícil de abordar. Nenhum profissional de saúde foi preparado para se deparar com a impotência, a incapacidade de salvar uma vida.

Esta vivência é, se possível, ainda mais dramática em Pediatria – quem está no início do ciclo de vida não deve morrer.

Penso que quase todos os pediatras já passaram noites em claro a recordar todas as crianças que morreram nas suas mãos, vendo com uma nitidez que julgamos precisa, a sua imagem e o desespero espelhado nos familiares. Como muitos dizem, todos temos os nossos cemitérios...

Há que preparar os mais jovens para esta realidade com que se irão deparar mais tarde ou mais cedo. É importante que saibam o que fazer e, talvez ainda mais, o que não dizer ou fazer nessas circunstâncias. E também como “sobreviver” com a consciência de que não somos infalíveis.



*Gabriela Pereira é pediatra, especialista em Cuidados Intensivos.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O pediatra tem que atender sempre o telefone?

Por António Brito Avô*


Nesta sociedade da impaciência (como lhe chamou outro dia o Gonçalo) vive-se a ânsia do “já” “aqui” e “agora”… como se as coisas e as pessoas não tivessem um tempo e um espaço necessários para acontecer, para ser e para estar.

Não se aceita a imprevisibilidade, nem a diferença, nem o desconforto da ignorância.

Não se acredita no instinto, nem na intuição, nem nos saberes herdados de geração em geração.

Tudo tem que ser antecipado, programado e resolvido no exacto momento em que é detectado ou sentido – apenas porque nesta “sociedade do conhecimento” o medo e a ansiedade do desconhecido se tornou completamente insuportável.

As dúvidas e os receios assumem carácter de urgência – para resolver tudo “já, aqui e agora” corre-se para a net, para as redes sociais, para sites e revistas de duvidosa credibilidade, e disparam-se chamadas telefónicas, SMS’s, e-mails em todas as direcções em busca de um apaziguamento interior.

Vem este arrazoado a propósito do difícil convívio com o meu telemóvel, instrumento execrável, que destruiu a minha intimidade, que invadiu o meu tempo e o meu espaço, e que tem um toque necessariamente incomodativo.

Não nego as inúmeras vantagens comunicacionais deste sinistro invasor.

Em inúmeras situações de emergência, ele tem permitido que um aconselhamento atempado contribua para a solução de problemas de muitas crianças ou para facilitar o seu encaminhamento adequado. Por essa razão tenho permitido que os pais dos meus pacientes utilizem a facilidade desta via, quando a situação lhes causa extrema preocupação.

Tem sido um auxiliar insubstituível e precioso.

A ansiedade dos pais é compreensível e a troca de algumas palavras com o pediatra pode ajudar a aliviar as tensões e beneficiar as crianças – para isso estarei sempre disponível.

Mas (há sempre um …mas) confesso-me parcialmente arrependido de não ser um pouco mais selectivo e mais pedagógico…

Nalguns casos (felizmente poucos) o uso do telemóvel é levado ao extremo, no limite do conveniente.

Incomoda-se o pediatra a horas impensáveis por motivos despudoradamente irrelevantes - “de que côr acha que devo mandar pintar o quarto do Pedro?”; “ posso comprar uma tartaruga à Francisca?” ; “pode passar-me uma declaração para a natação?”.

Há gente que, por banalidades e questões sem qualquer relevância, têm o irritante hábito de ligar 6-7 vezes seguidas, quando não me é possível atender (seja porque estou ocupado com doentes, seja porque tenho o azar de ser humano e fisiologicamente imprevisível).

Era suposto que estas manifestações de suposta emergência, que não se confirmam quando devolvo a chamada, deixassem os seus autores embaraçados. Mas surpreendentemente isso não acontece!

Será o sinal dos tempos da impaciência e da intolerância?

É bom para todos que haja bom senso na utilização desta ferramenta preciosa, sem a qual já não conseguimos sobreviver.

Caso contrário, tal como na fábula, “pagará o justo pelo pecador” e uma situação verdadeiramente urgente poderá ficar por atender!


*António Brito Avô – Médico Pediatra

segunda-feira, 3 de maio de 2010

As curvas de crescimento da criança

Por António José Guerra*

Os boletins individuais de saúde incluem tabelas de percentis referentes ao peso, comprimento/estatura (0 aos 20 anos), perímetro cefálico (0 a 36 meses) e índice de massa corporal (2 a 20 anos). A evolução da curva de crescimento estaturo-ponderal é um bom indicador do estado de nutrição e saúde da criança. No entanto, o modo como a curva progride ao longo da idade é por vezes gerador de ansiedade nos pais que gostariam de ver as curvas dos seus filhos evoluírem de preferência em percentis mais elevados do que aqueles em que ocorrem. Há alguns aspectos que vale a pena conhecer e que poderão tranquilizar os pais na maioria das situações.

Em primeiro lugar as curvas de percentis não são mais do que o modo como uma determinada população de crianças cresceu (no caso dos nossos boletins individuais de saúde as curvas foram construídas com base na avaliação de crianças norte-americanas avaliadas em vários inquéritos nacionais realizados entre as décadas de 70 e 90). As curvas representam assim, a distribuição percentual de valores referentes a parâmetros corporais (peso e estatura) de uma determinada população de crianças. Dizer que uma criança tem um comprimento no percentil 25, significa que na população usada como referência, 75 em cada 100 são mais altas que a criança em causa.

O segundo aspecto que importa conhecer é que o crescimento é um processo dinâmico e é portanto imprescindível ter uma ideia da evolução da curva, ou seja do modo como ela progride ao longo do tempo. Uma progressão estável (sensivelmente paralela às curvas de percentis) traduz um crescimento normal. Isso significa que uma criança no percentil 25 ou mesmo inferior pode não levantar qualquer problema, ao contrário de outra criança num percentil superior, por exemplo 75, mas que está a evoluir num sentido de cruzamento superior ou inferior das curvas de percentis.

O terceiro ponto é que as curvas tem o aspecto liso e quase que traçado a compasso porque tal resulta de manipulação matemática. Em boa verdade cada criança evolui geralmente ao longo do crescimento com uma curva em forma de linha quebrada, o que é normal, desde que a tendência seja no sentido grosseiramente paralelo às curvas de percentis como referi (isto é, desde que a tendência não seja no sentido do cruzamento de percentis).

Em quarto lugar, deve haver uma harmonia entre o crescimento do peso e da estatura. Como é de todos conhecido, a obesidade (com uma prevalência crescente também em Portugal) não é mais do que uma situação resultante da existência de um peso excessivo para a estatura. A sua prevenção é a melhor atitude, daí a grande relevância de os boletins de saúde infantil incluírem agora as curvas de percentis referentes ao índice de massa coropral, que não é mais do que uma relação peso para a estatura, (neste caso peso em Kg sobre estatura em metros2). O que importa é que a criança cresça proporcionalmente relativamente ao peso e estatura em percentis próximos, sendo sempre desejável que quando uma dos parâmetros tem ascendente sobre o outro, seja a estatura a situar-se num percentil superior relativamente ao peso.

O quinto aspecto que importa alertar relaciona-se com uma variação de amplitude das curvas de crescimento, superior à distância entre dois canais de percentis contíguos (ex, 25 e 50). Se essa oscilação é negativa (desaceleração de crescimento) poderá haver uma situação de ingestão alimentar insuficiente ou, o que será mais frequente, alguma situação de patologia (mesmo na ausência de sintomas). Se pelo contrário a variação é positiva, o que ocorre entre nós frequentemente com o peso, o que estará em causa será um suprimento alimentar que ultrapassa as necessidades energéticas da criança. É apenas nessas situações que será necessário identificar a causa da alteração do crescimento e intervir de modo a corrigir o mais precocemente possível o desvio encontado.

Sexto e último, as necessidades alimentares são uma característica específica e exclusiva de cada criança, ou seja para duas crianças da mesma idade crescerem de modo idêntico (mesmo peso, mesma estatura e mesma composição corporal), as suas necessidades alimentares são diferentes. Quer isto dizer que mesmo que os pais entendam que a criança come muito pouco, mas se as curvas de crescimento evoluirem a uma velocidade normal, não haverá seguramente nenhum problema. Mas se a criança comer muito e as curvas evoluirem inadequadamente, por defeito ou por excesso, então é aí que se tornará necessário intervir.

Em resumo as curvas de crescimento são uma ferramenta muito importante que nos permite apreciar o estado de nutrição e crescimento das crianças e que devem ser sempre avaliadas e interpretadas ao longo de todo o ciclo de vida pediátrico.

* António José Guerra é pediatra, especialista em nutrição infantil, e Professor da Faculdade de Medicina do Porto.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O que mata são as doenças, não as vacinas.

*Por Luís Januário

As doenças infecciosas do passado quase desapareceram e com elas a percepção do perigo que representam. Quando o actual Plano Nacional de Vacinação surgiu, gratuito e universal, num país que despertava para a modernidade, morriam anualmente muitas pessoas com difteria (o garrotilho) e com sarampo. Nas ruas era possível cruzar com vítimas da paralisia infantil.

O que permitiu mudar radicalmente esta paisagem foram as vacinas.

De início vacinas simples, como as que Jenner e Pasteur conceberam. Depois vacinas mais complexas como as que actualmente previnem a diarreia por Rotavírus ou a meningite por Meningococo ou Pneumococo.

Estas vacinas não matam, nem provocam sequelas. O que mata e deixa sequelas aos sobreviventes são as doenças que as vacinas evitam.

Os inimigos das vacinas apoiam-se na ignorância e ironicamente, proliferam quando a doença se torna rara pela eficácia da vacina.

Periodicamente, com grande difusão, ressurgem os velhos mitos dos activistas anti-vacinas: o autismo, o síndrome de Guillain Barré, por exemplo.

Não interessa que nenhuma investigação séria confirme estas associações e todas as contradigam. Vêm do nada, de um terreno movediço empapado pela subcultura naturista e a informação do youtube.

As crianças, desde o nascimento, possuem um sistema imunitário capaz de fabricar estratégias de defesa contra vírus, bactérias e outros microrganismos, nomeadamente através das vacinas. Estas devem ser dadas na idade adequada. Para algumas doenças o risco máximo existente é nos primeiros dois anos, pelo que não tem sentido adiar a vacinação.

A existência em Portugal de um Serviço de saúde bem organizado e de um bom Plano Nacional de Vacinas (embora de actualização um pouco lenta) tem permitido taxas de vacinação elevadas e quase a erradicação de algumas doenças. Uma imunidade de grupo assegura que alguma desta protecção seja extensiva aos não vacinados. Os filhos dos pais que recusam a vacinação são assim beneficiários da consciência da maioria. Se o fenómeno que eles representam se estender, no entanto, voltarão as velhas doenças do passado.

*Luís Januário é pediatra e presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Viver com poucas defesas

*Por António Figueiredo

O sistema imunitário depende de barreiras anatómicas e fisiológicas, da imunidade inata e da imunidade adaptativa. A imunidade inata é responsável por iniciar uma resposta inflamatória em minutos, após a exposição a micróbios agressores. A imunidade adaptativa, ao contrário, demora alguns dias para ser suficientemente robusta para responder à infecção mas é mais específica e tem a capacidade de reconhecer virtualmente qualquer micróbio.

Numa visão simplista e integrada podemos considerar estes 3 níveis naquela que é provavelmente a mais complexa e extraordinária organização do nosso organismo: o sistema imunitário ou as nossas “defesas”, termo habitualmente usado coloquialmente com os pais. É fácil entender a sua importância: imaginem um grande queimado, a sua mortalidade é directamente proporcional à percentagem total da superfície corporal afectada. Imaginem ainda alguém submetido a quimioterapia intensiva, a quem foi subtraído um sistema imunitário normal, e a necessidade de a colocar num ambiente protector, isolado em câmaras especiais, para que não seja exposto a nenhuma infecção; ou alguém infectado com o vírus VIH e que adoece facilmente com bactérias, vírus, fungos ou parasitas que não causariam doença se o sistema imunitário estivesse saudável. Dei-vos exemplos de imunodeficiências secundárias a diversas causas, seja a extensa alteração da integridade da pele, medicamentos ou o vírus VIH.

Contudo, existem outras situações, menos frequentes, em que as nossas defesas não desempenham a sua função como previsto: as Imunodeficiências Primárias (IDP), defeitos congénitos, muitas vezes hereditários, do sistema imunitário, que resultam invariavelmente de defeitos num ou mais genes que controlam o seu desenvolvimento e/ou função. São um grupo heterogéneo de mais de 200 doenças que, apesar de relativamente raras, colectivamente representam um consumo significativo de cuidados de saúde pediátricos. Tanto podem ser fatais no primeiro ano de vida, caso não se proceda a um transplante de medula óssea (TMO) (caso dos SCID – Severe Combined Immunodeficiency) como pouco sintomáticas (caso do Défice de IgA). Quando suspeitar então de uma Imunodeficiência Primária?

Os 10 sinais de alarme desenvolvidos pela Jeffrey Modell Foundation (http://www.info4pi.org/), uma das organizações norte-americanas mais empenhadas na investigação e divulgação das IDP, são um excelente ponto de partida: 4 ou mais otites, 2 ou mais sinusites graves, 2 ou mais pneumonias, tudo num período de 1 ano; antibioterapia prolongada (1 a 2 meses) sem bons resultados; má progressão ponderal; abcessos de orgão ou cutâneos recorrentes; infecções fúngicas persistentes, da pele e mucosas; necessidade de antibioterapia endovenosa para tratar infecções; 2 ou mais infecções graves, incluindo sepsis; e história familiar de IDP.

Poder-se-iam acrescentar outras, não necessariamente do foro infeccioso, como por exemplo febre recorrente ou periódica, ou doença auto-imune nos primeiros anos de vida. Os pais podem estar alerta e discutir estes sinais com o Pediatra, que caso considere os receios fundamentados, referenciará a uma das diversas consultas de especialidade, actualmente existentes em muitos hospitais.

Na investigação de uma IDP é muito importante considerar no diagnóstico diferencial situações muito mais frequentes, nomeadamente, a frequência normal de infecções em crianças pequenas no infantário, exposição passiva a fumo, asma, hipertrofia dos adenóides ou refluxo gastro-esofágico. Caso a suspeita se mantenha procede-se então a uma abordagem analítica por passos, que habitualmente inclui o pedido inicial de imunoglobulinas séricas (nível sanguíneo de anticorpos), acessível, barato e extremamente informativo. Se a suspeita diagnóstica se confirmar ou se a suspeita clínica se mantiver forte o próximo passo é estabelecer um plano terapêutico.

Gostava de sublinhar que nem sempre é possível chegar a um diagnóstico molecular definitivo; contudo, este deve ser almejado porque permite a optimização do tratamento, aconselhamento genético e diagnóstico pré-natal. Relativamente ao tratamento, pode tratar-se de uma emergência quando se trata de crianças com defeitos imunológicos graves (por exemplo os SCID, atrás referidos, são doenças raras que se apresentam em crianças pequenas, com um ar doente, também chamadas de bubble-babies, que não aumentam normalmente de peso e têm infecções graves e difíceis de tratar), e que carecem de uma reconstituição imunológica completa ou seja, um transplante de medula óssea. Quando não existe um dador considerado adequado, a terapia génica, ainda em fase de aperfeiçoamento, é já uma opção nalguns países. O mais frequente, contudo, é o defeito residir apenas na produção de anticorpos, no seu número ou função. Nestes casos o tratamento consiste na substituição dos anticorpos através da administração periódica de imunoglobulina, o que pode ser feito de 4 ou 4 semanas por via endovenosa, ou semanalmente por via subcutânea, o que tem a enorme vantagem de poder ser administrada em casa e conferir autonomia ao doente (e família).

É importante ter a noção de que estamos a tratar doenças que se conseguem manter sob controlo a maior parte das vezes, habitualmente com o auxílio de outros meios (antibióticos, antifúngicos, vacinas, cinesioterapia respiratória, imunomoduladores, etc); pretende-se que para a criança e sua família, à semelhança de outra doença crónica, a vida continue da forma mais natural possível e sem grandes restrições.

As crianças afectadas devem ser, contudo, alvo de uma atenção especial quando adoecem: observação no início da doença (habitualmente através do contacto directo para o telemóvel do médico ou enfermeira) e baixo limiar para iniciar antibioterapia, eventualmente endovenosa. O pulmão é o órgão alvo por excelência de muitas imunodeficiências primárias, pretende-se evitar lesões irreversíveis (designadas de “bronquiectasias”), consequência de infecções repetidas, ou então evitar o agravamento, ou mesmo melhorar, as alterações já existentes. Neste sentido, o tratamento com imunoglobulina veio revolucionar a qualidade de vida e prognóstico destes doentes.

Por isso é tão importante um diagnóstico precoce, diga-se em abono da verdade, também extremamente gratificante para o médico. Paradoxalmente neste campo as doenças mais severas curam-se, mediante um procedimento com riscos, o transplante de medula óssea, ou são invariavelmente fatais, e as doenças “menos graves” serão crónicas, controláveis, mas sem cura vislumbrável num futuro imediato. Existem ainda algumas recomendações especiais para grupos especiais, mas são a excepção e não a regra. Cada IDP tem as suas particularidades, impossível de cobrir num texto desta natureza.

Gostava de reforçar a ideia da importância do diagnóstico precoce, comum a qualquer IDP, pelas suas implicações prognósticas. A Medicina nesta área avança a um ritmo vertiginoso, os meios de tratamento actuais permitem a cura ou o controlo da maior parte das IDP, no futuro certamente novas e melhores opções terapêuticas vão aparecer, mas qualquer das opções terá melhores hipóteses de sucesso se o doente se encontrar na “melhor forma” possível.

*António Figueiredo, pediatra.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Conversar desde o berço

Por Fátima Pinto*

Ser capaz de falar e comunicar, ou usar qualquer outro tipo de linguagem (gestual, corporal ou escrita), é uma necessidade básica para se ser feliz, auto confiante e ter sucesso na vida.


Aprender a falar tem grande influência na comunicação, na aprendizagem e no sucesso escolar. Falar bem melhora a literacia, a auto confiança e a saúde em geral.

Logo após o nascimento, os recém-nascidos estão aptos para a comunicação e, através de estímulos exteriores vão formando o seu universo afectivo, psíquico e cultural. O bebé compreende antes de falar e é capaz, com poucos dias de vida, de distinguir e imitar expressões faciais, possuindo um potencial de linguagem que pode e deve ser estimulado.

Actividade lúdicas de interacção ajudam o desenvolvimento das competências linguísticas e comunicativas e melhoram todo o processo de do desenvolvimento global, quer a nível das actividades do quotidiano e da relação com os pares, descritas como sociais e pessoais, quer a nível da realização e do raciocínio prático, tornando ainda a criança mais saudável, serena e auto confiante.

Falar-lhe sobre tudo, disto e daquilo, falar-lhe do tempo, do que se está a fazer, do que se gosta e pensa, no banho, na refeição, na rua e no supermercado, é potenciar a linguagem dando a possibilidade da imitação nas trocas interpessoais no jogo do agora eu e agora tu.

Os conceitos e códigos sociais podem e devem ser transmitidos muito cedo, bater palmas, dizer adeus, atirar beijinho, Brincar às escondidas, aparecer e desaparecer … o bebé vai associar o gesto à função.

Os pais actuais têm o tempo contado, trabalham todo o dia, moram longe e por isso passam horas nos transportes, a semana é longa mas o dia é curto. Passam pouco tempo com os filhos e sentem culpa e remorso… importa lembrar que pouca quantidade não implica pouca qualidade e por isso o mais importante é aproveitar esse pouco tempo enriquecendo-o com actividades de relacionamento, falando do que se passa nas coisas do dia a dia.

Sobre a criança e a sua actividade criativa Vygotsky diz: “… quanto mais veja, ouça e experimente, quanto mais aprenda e assimile, quanto mais elementos da realidade disponha em sua experiência, tanto mais considerável e produtiva será, como as outras actividades, a actividade da sua imaginação”.

Conversar, ler em conjunto, brincar, são actividades promotoras de um melhor desenvolvimento infantil, proporcionando ainda prazer na família e laços afectivos mais fortes.



Fátima Pinto é pediatra, especialista em Desenvolvimento Infantil.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Férias da Páscoa: o que fazer antes de viajar com crianças para regiões tropicais

Por Luís Varandas*


Nos últimos anos, a oportunidade de viajar para regiões tropicais aumentou de forma significativa, consequência, em grande parte, da maior facilidade e comodidade das viagens aéreas. Num curto espaço de tempo percorrem-se de forma confortável grandes distâncias, transportando-nos a locais remotos e exóticos. Por ano, partem da Europa, vários milhões de pessoas, tendo como destino as regiões tropicais. As motivações são várias e incluem o simples turismo, cooperação, trabalho, negócios ou missões humanitárias. As crianças, com frequência, acompanham os adultos. Estudantes adolescentes efectuam viagens em grupo, para férias ou em programas de intercâmbio entre as escolas. Imigrantes regressam aos seus países, para rever familiares e amigos, levando as crianças consigo. Muitos destes grupos de viajantes ficam expostos e em risco de contrair doenças inexistentes, eliminadas ou controladas nos países de origem.



Este incremento do número de viajantes a nível internacional contribuiu para o desenvolvimento, nos últimos anos, da chamada “Medicina das Viagens”. A facilidade em importar e exportar doenças, algumas eliminadas nos países desenvolvidos, mas com ecossistema favorável a nova disseminação, a descrição de casos fatais em turistas, por atraso ou erro de diagnóstico de “doenças tropicais” e a consciencialização de que existem medidas profiláticas para grande parte destas situações, contribuiu, de igual modo, para o impacto que, actualmente, tem a “Medicina das Viagens”.



Como em outras áreas da pediatria, os cuidados à criança que viaja devem enfatizar a identificação de factores de risco e formas de prevenção das doenças e dos acidentes. Isto pode ser conseguido se os pais e as crianças forem informados sobre os comportamentos a adoptar e a evitar. A preparação da viagem das crianças, no que se refere aos cuidados de saúde, deve iniciar-se algumas semanas antes da partida. Estes mantêm-se durante e após a estadia. De facto, após o regresso, a criança pode ser portadora de infecções, ainda, assintomáticas ou pode apresentar sinais e sintomas de doenças, com as quais o seu médico poderá não estar familiarizado.



Ao longo das próximas semanas, neste espaço virtual promovido e dinamizado pela SPP, vamos abordar e discutir alguns cuidados e recomendações a ter quando se viaja para regiões tropicais. Comecemos por planear a viagem!



Planeamento da viagem

Em um mês de estadia numa região tropical, 75% dos viajantes experimentam algum problema de saúde. Os viajantes de maior risco parecem ser os inexperientes, os que viajam para regiões rurais e com estadias mais prolongadas. Assim, a viagem deverá ser cuidadosamente planeada, com tempo e com conhecimento, tão completo quanto possível, do local do destino, da duração e do objectivo da estadia. O viajante deverá informar-se sobre a organização política e social do país a que se dirige. A resposta às seguintes perguntas poderão ajudar a planear a viagem de forma mais segura e realista: 1) onde vai, por quanto tempo, quais as condições climatéricas? 2) Quais as doenças que irá encontrar e que vacinas deve fazer? 3) Que recursos de saúde existem, onde e como pode recorrer-se a eles? 4) Quais os medicamentos disponíveis? 5) Que cuidados deve ter com a água e comida? 6) Onde fica alojado? 7) Qual é a qualidade e disponibilidade de ensino, livros, actividades culturais e recreativas?

* Luís Varandas é pediatra, Responsável da Unidade de Infecciologia e da Consulta do Viajante do Hospital Dona Estefânia e Professor de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas e do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Universidade Nova de Lisboa

quinta-feira, 4 de março de 2010

Quando não sabes, pergunta aos poetas...

Por Pedro Sampaio Nunes*



Tinha um cravo no meu balcão;


veio um rapaz e pediu-mo: mãe, dou-lho ou não?


Sentada, bordava um lenço de mão


veio um rapaz e pediu-mo: mãe, dou-lho ou não?


Dei um cravo e dei um lenço, só não dei o coração:


mas se o rapaz mo pedir: mãe, dou-lho ou não?"


Eugénio de Andrade


Ao fim de 5 anos dedicados às crianças, apercebo-me que a pediatria de hoje acompanha as profundas mudanças sociais e culturais da nossa sociedade…já não somos só os médicos dos anjos…dos bebés tão queridos, dos corações inocentes, somos também os médicos dos adolescentes problemáticos, das crianças dos bairros marginais, das, cada vez mais, famílias disfuncionais…

A abertura das urgências pediátricas até aos 18 anos condicionou uma nova realidade para nós, mas já presente na nossa sociedade. Não é incomum encontrar nas nossas enfermarias adolescentes que já são mães, o que as coloca num papel paradoxal. Se por um lado, não podem assumir responsabilidades por si próprias, porque são menores, por outro lado assumem grande influência na vida do seu próprio filho. São questões como estas de carácter não só moral, mas também ético-legal, com as quais deparamos cada vez mais.

As crianças crescem e hoje, a complexidade da estrutura social leva-nos a pensar qual o limite entre adolescência e idade adulta. Teoricamente definidos os 19 anos como o limite da idade pediátrica, será na verdade esta barreira real? Pois actualmente aos 16 anos a estrutura física implica terapêuticas destinadas a adultos; e será que a mentalidade assumida, há vários anos, como correspondente à adolescência poderá hoje continuar a ser assumida como pediátrica? A verdade é que as nossas crianças tornam-se cada vez mais precoces. A disponibilidade e facilidade com que se acede à informação, condiciona modelos comportamentais diferentes de há 15 ou 20 anos atrás e a maturação dos processos cognitivo-sociais ocorre de forma individual e dependente de uma série de variáveis, das quais o modelo socio-familiar impõe um peso relevante. Não é por isso de estranhar que encontremos adolescentes com comportamentos e mentalidades de adultos.

Mas, chegará a adulto, aquele a quem roubaram a infância, os sonhos de adolescente, as tardes infindáveis de futebol, a emoção do primeiro namoro?

Acredito que nalguns casos a própria sociedade obrigou estas crianças a ultrapassar esta fase da sua vida, obrigou-os a crescer, por vezes sem quererem, por vezes das formas mais cruéis, sem família, sem apoio, sem sonhos, obrigados a lutar das mais diversas formas para conseguirem um lugar na sociedade que não criaram, mas na qual são obrigados a viver.

Actualmente na área correspondente ao Hospital onde me formei, 80% da criminalidade é perpetrada por jovens com menos de 16 anos de idade e não pretendo de alguma forma desculpar os comportamentos anti-sociais com as influências sócio-familiares, mas não nos podemos esquecer que, tal como disse Pitagoras: "Eduque os meninos e não será preciso castigar os homens". A verdade é que a educação social e moral começa sempre no lar (quando existe), mas atendendo às famílias disfuncionais, que papel cabe ao Pediatra na educação dos seus pacientes? Será meramente de educação e promoção para a saúde? Ou devemos ir mais longe e tentar alcançar a moralidade social? Será este o papel correspondente ao provedor da criança? E porque não da família? E que papel compete a todos nós enquanto membros da sociedade que criámos? Continuar a ostracizar estes grupos menos favorecidos ou contribuir de alguma forma para a sua educação…contribuir para a educação de uma família global, transmitindo valores que nos permitam criar um mundo melhor…

Acredito que o Pediatra de hoje deve saber evoluir, actualizar-se, crescer enquanto clínico e aprender como lidar com as diferentes componentes sociais, enquanto pessoa e enquanto médico. Compete-nos a nós, assumir a resiliência das nossas crianças e saber adoptar as melhores estratégias para lidar com grupos cada vez mais heterogénos.

…Muitas são as dúvidas que percorrem o meu espírito, mas como dizia Freud: “quando não sabes, pergunta aos poetas…eles têm sempre resposta para as questões da alma…” e este poema de Eugénio de Andrade relembra-nos que por muito problemática que seja a nossa sociedade…por muito confusa que estejam as nossas crianças, acima de tudo foram e serão no seu íntimo inocentes, com falta de amor neste mundo…

* Pedro Sampaio Nunes tem 32 anos, é pediatra e Assistente Hospitalar de Pediatria Médica na  Unidade de Cuidados Intensivos e Especiais Pediátricos do Hospital Fernando Fonseca EPE.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ver ou Viver?

Por Maria João Lage*

Estamos todos à espera de ser entretidos. Confesse: se eu não o conseguir entreter em duas linhas, vai passar à frente.

E as crianças não são diferentes: a escola, o pediatra, os amigos, os pais... existem exclusivamente para os entreter. A vida é um enorme espectáculo para gozar, de preferência sentado e com comida na mão.

Os programas escolares têm que ser atraentes; os livros têm que ser coloridos interactivos e cheios de fotografias; a informação, rápida, variada e superfical; as aulas, cheias de power-points e os professores divertidos.

Na rua , é preciso ouvir música ou enviar / receber mensagens “urgentes”.

Em casa, continua a exigência: os pais têm que propor “programas giros ” ou ser fornecedores permanentes de meios de entretenimento.

Já se perguntou alguma vez o que é que transformou as crianças de jogadores de bola e saltadores do eixo em massas informes atarrachadas aos sofás? O que lhes forneceu milhares de imagens e informações desgarradas e lhes tirou a capacidade de formular verbalmente uma ideia lógica? O que lhes tirou o olho negro e a perna esfolada depois da luta ganha aos amigos e lhes deu vários kilos a mais e a incapacidade de conhecer a sua força e de dominar o seu mundo? O que lhes deu acesso ilimitado e permanente a tudo ao mesmo tempo e lhes roubou a possibilidade de fechar o livro e dizer: acabei, vou fazer outra coisa? O que os fez ignorar o miúdo da casa ao lado e assistir passivamente ao desenrolar irreal das vidas dos outros? O que lhes pôs dentro do quarto pessoas que ninguém deixaria entrar pela porta de casa?

Se ainda não descobriu a resposta, recomendo-lhe um livro.

Se não o ler, leia este comentário...




*Maria João Lage, Pediatra

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Compreender o desenvolvimento

Por Mónica Pinto *

O desenvolvimento infantil, as suas etapas, as idades em que determinadas aprendizagens se realizam e como ajudar a criança a optimizar o seu potencial são preocupações crescentes dos pais. No entanto há muitas questões que ficam por esclarecer e alguma informação pode estar errada. É importante compreender porque acontecem estas etapas…


Para perceber o desenvolvimento temos de nos situar em termos evolutivos e ter em conta as particularidades na nossa espécie que é diferente dos restantes primatas.

Os primatas têm uma selecção K reprodutora, ou seja produzem uma cria, geralmente única, fruto de uma gestação prolongada, muito bem adaptada e que nasce com capacidade de sobrevivência. Outros mamíferos menos evoluídos como por exemplo os coelhos ou os ratos, têm gestações curtas, com ninhadas de crias, mal adaptadas em que umas sobrevivem e outras são eliminadas por selecção natural

A espécie humana, devido à evolução do sistema nervoso central e aumento de dimensões do cérebro, teve de encontrar estratégias para garantir a sua sobrevivência já que seria impossível a criança completar a maturação dentro da barriga da mãe.

A solução foi antecipar o trabalho de parto, gerando uma cria ainda incompleta, dependente e mal adaptada, continuando a sua maturidade fora do ventre materno. Assim, a gravidez humana tem 9 meses dentro da barriga e completa os restantes 12 meses “extra-uterino”. Este período em que a criança ainda não deveria ter nascido é um período de enorme vulnerabilidade e dependência. Enquanto o veado ao nascer sabe comer, deslocar-se e comunicar, o nosso bebé é muito mais frágil e imaturo e só completa o mesmo nível de autonomia a partir dos 12 meses, quando o bebé começa a andar, a falar e a ser capaz de se auto-alimentar.

Isto tem implicações físicas mas também emocionais e percebe-se assim que seja fundamental a proximidade da mãe (e daqui se percebe que nos países desenvolvidos a licença de maternidade não seja inferior aos 12 meses…) e que a pressão das sociedades ocidentais de estimular precocemente a separação das crias e das mães e a “independência” do bebé (como ter o seu quarto, querer que se entretenha sozinho, iniciar creche,…) pode ser contraproducente e levar a maior insegurança e dificuldades emocionais e mesmo físicas (cólicas, problemas de sono, birras, ansiedade,…).

Se o bebé não pode estar esses 12 meses na barriga da mãe deverá pelo menos estar o mais próximo dela possível! A proximidade física e emocional da mãe ajuda a promover melhores cuidados alimentares, confere protecção física, regulação térmica, regulação emocional, e a interacção continuada promove um desenvolvimento completo e harmonioso.

* Mónica Pinto é pediatra do Desenvolvimento, presentemente no Centro de Desenvolvimento do Hospital D Estefânia, na Clínica Gerações e Centro Diferenças. Tem 40 anos e é mãe de dois filhos, com 7 e 5 anos.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Falar sobre crianças

Por João Farela Neves*

Falar de crianças é falar sobre o mundo, os seus maiores encantos e angústias. Vivemos todos os dias para as recordarmos e fazermos felizes. As crianças não serão nunca pequenos adultos, são antes meninos e meninas com o seu lugar perfeitamente definido junto de nós.


Fernando Pessoa ilustrava com mestria a sua inocência e pragmatismo:

A CRIANÇA que pensa em fadas e acredita nas fadas.

Age como um deus doente, mas como um deus.

Porque embora afirme que existe o que não existe

Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,

Sabe que existir existe e não se explica,

Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,

Sabe que ser é estar em algum ponto

Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

“A criança que pensa em fadas”
Fernando Pessoa, Alberto Caeiro

Todos nós criámos mentalmente o que é ser uma criança. Quais as suas capacidades, funções, desígnios e direitos. Gostaria de recordar a visão de sete reconhecidos directores de cinema que filmaram curtas metragens sobre crianças, criando uma obra fantástica. Em Cidades Invisíveis cada um deles ilustra possíveis infâncias da região do globo de onde são originários, recriando cenários dantescos e inimagináveis. Apesar da dificuldade que sinto nesta selecção, gostaria de vos remeter para as curtas metragens de Chafer, Spike Lee, Katia Lund e John Woo. O primeiro transporta-nos para um cenário de terror no meio da Guerra civil de um qualquer país Africano. Spike Lee faz um retrato soberbo e devastador de uma criança HIV-positiva que sofre a imensa crueldade dos seus pares. A perspectiva brasileira de Kátia Lund angustia-nos com permanente luta pela sobrevivência de duas crianças. John Woo encanta-nos com a história emocionante de duas crianças diametralmente oposta nas suas condições de vida mas unidas na sua fantasia.

A recordação deste filme desperta certamente em todos aqueles que vivem e trabalham com crianças um sentimento de dever inacabado. Temos, todos, um enorme caminho para andar. Nada melhor que percorrê-lo harmoniosamente em conjunto pela felicidade das crianças.

* João Farela Neves é pediatra na Consulta de Imunodeficiências Primárias do Hospital D. Estefânia

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Impaciência

Por Gonçalo Cordeiro Ferreira*


"The time has come," the Walrus said,"To talk of many things:

Of shoes—and ships—and sealing-wax—

Of cabbages—and kings—

And why the sea is boiling hot—

And whether pigs have wings."


Lewis Carroll ; Through the looking glass


Nunca como hoje a perspectiva da duração da vida foi tão longa.
Seria pois de esperar que de uma forma geral todos fôssemos mais pacientes, para não dizer contemplativos.  Afinal, nos séculos anteriores em que a esperança de vida era bem mais curta , não havia a pressa actual de fazer tudo em menos tempo.

Esperava-se.

Com as doenças das crianças passa-se o mesmo. As doenças, sobretudo as agudas e simples, têm uma história natural própria, usualmente com bom prognóstico, em que a intervenção médica pouco vai adiantar no sentido de a encurtar e, por vezes, até pode indirectamente prolongá-la.

Tomemos como exemplo dois sintomas muito comuns nas crianças: a tosse e a febre.

Nestes casos, na maioria das vezes, a quantidade dos mesmos não tem directamente a ver com a gravidade da doença.

Os médicos sabem isso.

Os pais não, e preocupam-se.

Mas, quer a febre, quer a tosse, correspondem geralmente, sobretudo quando juntas, a processos infecciosos de origem viral das vias respiratórias altas.

Na maioria dos casos benignos, mas com uma história natural bem definida, em que a febre dura habitualmente dois a quatro dias e a tosse pode arrastar-se, antes e depois da febre, por uma a duas semanas.

E por mais que se faça, por mais antis que se dêem (antibióticos, antitússicos, antialérgicos, antipiréticos) não vamos modificar, no sentido de encurtar (quando muito modulamos) esta situação.

E aqui começa a impaciência.
Impaciência dos pais porque a criança tosse a noite toda (às vezes nem acordando) e não conseguem dormir, ou porque a criança vomita com a tosse ou porque lá têm de a ir buscar novamente ao infantário. Ou porque estão verdadeiramente preocupados com o sintoma e acham que pode ser indício de doença mais séria.

Impaciência dos médicos, cansados de explicar vezes sem conta a benignidade da situação,  às vezes esquecendo-se que essas inúmeras explicações não são sempre dirigidas aos mesmos pais, e sentindo-se impotentes para atalhar o sintoma (sobretudo a famigerada tosse).


Impaciência dos professores ou educadores quando as crianças tossem na escola, telefonando imediatamente aos pais para as virem buscar, pois temem que possam ter uma doença que contagie todos os outros.
Este cruzar de impaciências aumenta a escalada terapêutica de resposta , numa panóplia que faz a felicidade de produtores de xaropes, aparelhos de aerossóis e outros, que podem inclusivamente perenizar os sintomas (o uso prolongado de expectorantes prolonga a tosse) e leva às vezes a gastos em análises completamente supérfluos.
(sobretudo quando se faz a ligação fácil entre muita tosse ou muitas tosses e “alergia”, esquecendo-se que as causas mais frequentes para a manutenção da mesma é a exposição da criança a irritantes das vias aéreas, nomeadamente ao fumo ou ao cheiro-até nas roupas- do tabaco).

Noutro nível, é esta mesma impaciência, o não saber aceitar a evolução habitual das doenças ou a variabilidade dos seres humanos, que faz nos hospitais os médicos mudarem de antibióticos quando a febre não passa logo, ou que faz com que os professores levantem logo a suspeita de perturbação do comportamento numa criança mais imatura ou distraída.

As crianças pequenas, sobretudo quando em contacto com outras crianças no infantário ou em casa com irmãos que os frequentam, estão expostas a múltiplos agentes infecciosos (vírus na maioria) e adoecem. Quando estimuladas, há células das vias aéreas superiores que produzem muco (mecanismo de defesa – que pode “embrulhar” os vírus) e depois leva à tosse,  expelindo esse muco e esses vírus.

A febre e a tosse devem pois ser entendidas como um mecanismo de defesa e não como uma ameaça, e a doença aguda, sobretudo na criança pequena, como um facto normal, uma espécie de vacinas naturais sucessivas.

O problema não está tanto na criança adoecer, mas sim numa sociedade em que ambos os pais trabalham, e que não está preparada para acolher, na sua casa, tantas vezes e por quanto tempo seja necessário, a criança doente.

Uma sociedade que não está preparada para a pausa. Uma sociedade da impaciência.

O bebé filósofo, que também sofre dos mesmos tiques civilizacionais, comenta: “não há paciência para tanta impaciência!"

*Gonçalo Cordeiro Ferreira, 53 anos,  pediatra e pai de 5 filhos.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Olá Bebé Mentiroso




Nós, humanos, temos cérebros grandes de mais para o nosso corpo. O que os fez assim foi o crescimento de áreas do neocórtex afectas a competências cognitivas e sociais a que , em 1988, Richard Byrne e Andrew Whiten, professores de Psicologia da Universidade de St. Andrews, na Escócia, chamaram de inteligência maquiavélica. Estas capacidades permitem a adaptação social num contexto de grupos alargados e asseguram poder e sucesso reprodutivo. Quando perguntamos aos psicólogos evolutivos, aos antropólogos e aos primatologistas, que género de competências são estas, a resposta é: manipular os outros através de estratégias de mentira, e de engano. E obviamente, o outro lado da questão: suspeitar dos outros, detectar a mentira e o logro.
Esta é a má notícia: tornámo-nos humanos, a espécie ecologicamente dominante dos últimos 50.000 anos, à custa de uma expansão do cérebro que serviu para formar alianças, explorar a nosso favor as qualidades dos outros e utilizar a projecção de visões igualitárias do futuro para favorecer a nossa posição de privilégio no presente.
A boa notícia é que este cérebro poderoso pode servir para outros objectivos: relativamente à natureza, à tecnologia, ao conhecimento de si-próprio, à vida em comum.
A inteligência maquiavélica pressupõe igualmente uma capacidade que tem a designação um pouco confusa de “teoria da mente”. Temos uma ideia (teoria) sobre a consciência do outro. Sabemos que eles pensam e tentamos perceber os conteúdos do seu pensamento.

Mais dois palavrões ainda para dizer quem somos: altriciais e neoténicos. O primeiro caracteriza os seres que nascem imaturos. O segundo é a qualidade de reter características jovens na idade adulta, mas também de viver fascinado com a a juventude e os juvenis.

Este blog é sobre isto tudo: o bebé humano visto como um fantástico produto evolutivo. Imaturo mas com equipamento surpreendente. Com uma carga pesada: os genes de primata. Mas uma possível vantagem: um cérebro que, ao querer compreender e procurar nexos de causalidade, ao estabelecer mapas cognitivos e inventar a fantasia, descobriu a liberdade.