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terça-feira, 13 de março de 2012

Coisas que as mães já sabem (e a Ciência agora descobre)

Com um olhar mães e bebés sincronizam bater do coração


Este comportamento já tinha sido estudado em animais, mas é a primeira vez que o mesmo é sugerido em humanos

Mães e filhos podem sincronizar o bater dos seus corações através de gestos simples como olhar ou sorrir, de acordo com investigadores da universidade de Bar-Ilan, em Israel.

Os investigadores descobriram que os afetos visíveis das mães têm efeitos psicológicos em bebés de três meses e estudaram-nos, medindo o ritmo cardíaco.

Atendeu-se à sincronização de afetos e da voz, provando-se uma maior sincronização biológica nesses momentos, explicaram os investigadores à publicação Infant Behavior and Development.

Este tipo de comportamento já tinha sido estudado em animais, ficando provado que as interações sociais afetam o o corpo do bebé animal, mas esta é a primeira vez que o mesmo é sugerido em humanos.
(notícia aqui)


terça-feira, 22 de março de 2011

Super-mães

Por Cláudia Pinto*




Contar histórias… Conhecer pessoas… Sentir-me pequenina quando vejo que, por vezes, também eu reclamo de quando em quando de coisas que, pasme-se, não têm mesmo importância! Enquanto jornalista especializada na área da saúde, tenho o grande privilégio de me cruzar com pessoas que têm uma história para contar e que me dão as maiores lições de vida que se possa imaginar.

A experiência é tão enriquecedora que tento manter-me a par das novidades e saber como estão… O Facebook acaba por ser um excelente aliado para que me sinta perto de entrevistados que me marcaram, por um ou outro motivo, e com quem acabei por ficar com uma ligação especial. Porque só assim sei viver nesta profissão.

Ao longo deste percurso, conheci verdadeiras super mães. Sara, Patrícia e Cristina. Três nomes de grandes mulheres, mães ideais, cada uma com uma história para contar e pelas quais tenho a maior admiração. Todas elas mães coragem que não baixaram os braços com as adversidades e que são movidas pelo amor. Sempre.

Sara Melo, mãe de cinco filhas, quatro delas, quadrigémeas. Todas elas foram as protagonistas de um artigo intitulado “Em quatro minutos, quatro bebés”. Benfiquista de coração, programou uma segunda gravidez porque gostava muito de ter um menino (já imaginava o filhote a jogar no Glorioso) até que uma ecografia deixou todos os profissionais da clínica extasiados. Aos poucos, Sara apercebeu-se que esperava quatro filhos… Sem tratamentos de fertilidade. De forma natural. Como se a mãe natureza a tivesse escolhido devido à sua garra, forma de viver a vida e de enfrentar a responsabilidade. Parece que Sara nasceu para ser mãe. Só uma pessoa com a sua energia e maneira de ser consegue dedicar-se por inteiro à maternidade no seu esplendor sem nunca ter sentido necessidade de apoio psicológico e com uma recuperação fora do normal. A vida é hoje e há que enfrentá-la. Sem medos. Como Sara sabe fazer tão bem ainda que durma poucas horas e se desdobre em funções.
Miriam, Zaida, Alícia, Cíntia e Dânia fazem as delícias de Sara e de Edgar, o super pai. Um dia-a-dia pouco rotineiro e cheio de aventuras para contar. Se tiver curiosidade, acompanhe http://www.mimieasquadrigemeas.blogspot.com/ e conheça melhor esta grande família. 
Patrícia Cãmano é mãe de Leonardo. Também ela tem dias e noites fora do comum e muito agitadas. Trabalha muito, dorme pouco, move céus e montanhas e não desiste. Consegue com determinação, serenidade, muito cansaço e amor incondicional apoiar o seu “ratinho”, um bebé que sofre de uma doença rara denominada de Lisecenfalia, que significa, cérebro liso.

O Leonardo é um bebé muito bonito a quem foi dada uma esperança média de vida de dois anos… mas felizmente o segundo aniversário já foi comemorado e os papás continuam a viajar até ao estrangeiro e a pedir variadas opiniões médicas para garantirem que a sua qualidade de vida melhora e que o sofrimento provocado pela doença pode ser minimizado. Não desistem. Vão à luta. Não se resignam. O Leonardo tem “um atraso mental profundo, com uma idade mental equivalente a 3 ou 5 meses de idade”, epilepsias graves e uma reduzida esperança média de vida. Contei esta história numa das revistas para onde escrevo e mantenho contacto com Patrícia via Facebook… Sinto-me impotente por pouco poder fazer mas apelo a quem souber mais sobre esta doença e a quem consiga aconselhar um especialista ou apoiar esta família de qualquer forma, que o faça sem hesitar. Não deixe de aceder ao blog oficial deste lindo “ratinho” em http://cerebro-liso-lisencefalia.blogspot.com/

Cristina Gonçalves Ferreira, mãe de António. Tudo corria bem na gravidez até ao 5º mês. Uma infecção contraída na gestação fez com que o seu filhote tivesse pressa de nascer. E nasceu. Com apenas 674 gramas. 24 de Abril de 2008 foi a data de nascimento do pequeno António, um verdadeiro lutador. Nasceu cedo demais como a defender-se da infecção que perturbou precocemente a gravidez.
A mãe de apenas 27 anos teve de aprender a lidar com a realidade de ter um filho prematuro que passou dez meses na unidade de neonatologia do Hospital de São Francisco Xavier. Cristina passava entre 10 a 12 horas no hospital para acompanhar o crescimento do pequeno António que sempre demonstrou vontade de viver. Os pais babados acompanham passo a passo o seu crescimento. Felizmente, António nunca ficou com sequelas motoras ou psicológicas. Três anos depois, é um bebé enérgico, carinhoso, de sorriso encantador… 
A mãe Cristina teve de dedicar-se em pleno ao seu filhote e deixar de lado alguns projectos profissionais, apesar de ter voltado para o curso de arquitectura que ficou em segundo plano depois do nascimento. Cada pequeno passo de António transforma-se numa grande vitória para a família.

Três mães, três histórias, três realidades. Mulheres que tive o privilégio de conhecer e que transformam a minha profissão na nobre possibilidade de contar estas histórias e passar mensagens de coragem. Para mim, que ainda sou só jornalista, tia de dois sobrinhos (a caminho do terceiro) e ainda não me aventurei na maternidade, fica o exemplo da enorme coragem com que cada uma vive os dias imprevistos e a realidade desconhecida. Espero um dia ser uma mãe tão forte, dedicada e brilhante! Sara, Patrícia e Cristina são AS super mães. Indiscutivelmente. Merecem o respeito de todos e a admiração de quem se cruza com elas. 

Merecem que a vida as trate bem. Porque dão muito da sua energia à vida. 

*Cláudia Pinto é jornalista especializada na área da saúde, editora do Jornal do Centro de Saúde e colaboradora em várias publicações da área. Está actualmente a concluir o Mestrado em Comunicação em Saúde pela Faculdade de Medicina de Lisboa.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Eu, eles e os heróis!

Por Bárbara Wong*


Quando era pequena sonhava ser como a Super-Mulher! Igual! Rodar sobre mim mesma, dar duas voltas e transformar-me! Ter um fato elegante e patriótico (igualzinho ao dela, que isto de termos uma bandeira vermelha e verde, faria o fato perder toda a graça!), uma cintura de vespa e peito!

Mas, por mais voltas que desse, ficava tudo na mesma, as mesmas tranças, a mesma saia, as mesmas sabrinas e o mesmo ar de menina pequena, sem peito, sem rabo, sem nada… Ainda assim, a imaginação dá para muito, por isso, imaginava-me de olhos azuis, cabelo longo e encaracolado e pronta para combater as injustiças. E ele era pontapés, corridas e saltos!

Hoje, eles têm outros heróis, vibram e imaginam tudo tal e qual como nós quando tínhamos a sua idade e dão uns pontapés e uns socos valentes, também correm dos inimigos ou com eles e fazem os mesmos gestos que os seus heróis, sejam o Ben 10, o Homem Aranha ou outro. As meninas não têm a Super-Mulher, mas têm outras heroínas, sejam cantoras como a Hannah Montana (um bocadinho pateta, mas há sempre uma liçãozinha de moral a tirar) ou as Winx (que também lutam contra o mal, transformam-se e voam! Muito melhor do que a antiquada Super-Mulher que só corria e saltava…).

Os heróis fazem parte do nosso crescimento. São figuras de referência e o que nos fica da infância não são os pontapés, mas a ideia que lutam pelo bem e pela justiça, valores que queremos que eles tenham. Depois, é educá-los, é dizer-lhes que os problemas não se resolvem com pontapés, mas com diálogo. E eles aprendem, uns levam mais tempo do que outros, mas aprendem!

Confesso que ainda hoje gostava de ser a Super-Mulher, sobretudo ter os seus olhos azuis e a cintura de vespa! Mas mesmo sem estes requisitos, eu sou uma Super-Mulher: quem senão uma Super-Mulher faz, em duas horas, pequenos-almoços, lanches, prepara os miúdos para sair para a escola; faz o almoço, um bolo, deixa a mesa posta, prepara-se para sair e toma o seu pequeno-almoço? Só uma Super-Mulher! Porque, de seguida, há um dia de trabalho pela frente, sem fato patriótico, mas na procura de fazer a justiça e praticar o bem!

*Bárbara Wong é jornalista do Público, especializada em assuntos da Educação.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Bairro do Amor


“Para criar uma criança é preciso uma aldeia inteira”

provérbio africano


Há coisas que só percebemos quando, de repente, sem estarmos à espera, olhamos em volta e tudo faz sentido. Eu não gosto de fazer planos, antes imaginar que ando ao sabor do vento e do destino. Esta filosofia, se assim se pode chamar, tem, obviamente, muitas falhas. Porque a verdade é que, mesmo inconscientemente, acabamos por procurar aquilo que queremos. Podemos é fazê-lo de forma tão despistada que nem damos por isso. E ser surpreendida com os resultados.

Foi o meu caso. Um dia, por uma sucessão de acontecimentos que simplesmente encaixaram uns nos outros, dei por mim a mudar de casa. Uma casa sobre a qual tínhamos feito uma reportagem uns anos antes e que não me saia da cabeça. Ao telefone eu comentava com uma amiga que um dia gostava de viver ali. Ela disse: “olha, ouvi dizer que está disponível”. Menos de um mês depois eu e o meu marido estávamos a mudar as tralhas.
Dois dias antes de começarmos a carregar caixotes, descobri que estava grávida. A minha barriga e o meu bebé já iam crescer ali.

É uma terra pequenina. Todos os dias quando saio de casa e cheira a mar, tenho a sensação que estou de férias, sem estar. Ao início estranhei a senhora da farmácia a perguntar se eu andava a tomar as vitaminas pré-natais ou os “bom dia” e “boa tarde” repetidos a cada 5 metros quando passeava na rua. Cresci e vivi no centro de Lisboa até me casar e o anonimato da cidade sempre foi das coisas de que mais gostava. Nunca me imaginei a viver de outra forma.

Até virem os bebés. Ela primeiro. E eu que não queria mandá-la para a escola antes dos três anos, constatei, ainda não tinha passado um ano, que não ia ter alternativa. Corri uma série de infantários. Uns tinham chão aquecido nas salas, outros, hortas biológicas ou piscinas de bolas. Todos cobravam mensalidades de (muito) mais de metade do meu ordenado. Em todos, durante os vinte minutos da visita, ouvi bebés a chorar, sempre os mesmos bebés, à espera de colo de alguma educadora ou auxiliar atarefada.
Mais uma sucessão de acontecimentos felizes e acabei por entregar a minha bebé ao único infantário onde não havia vagas, nem chão aquecido, nem luxos tecnológicos. Havia boa vontade, colos disponíveis e, mais importante, havia amor.
Tive muita sorte.

Como devia acontecer em todas as escolas, aqui as mensalidades são calculadas em função do rendimento dos pais. Como devia acontecer em todas as escolas, aqui todas as funcionárias desde a limpeza, às cozinheiras, passando pela directora, sabem o nome de todas as crianças. Como devia acontecer em todas as escolas, aqui há comida saudável e boa, feita, não por uma empresa, mas por cozinheiras a sério que mandam vir do talho carninha boa para os meninos e misturam maçã cozida na papa dos bebés. Como devia acontecer em todas as escolas, há regras e rotinas diárias, mas há também excepções, e meninos, que em vez de estarem na sala, andam a passear ao colo da directora pela escola fora, porque nesse dia estão mais tristes e há que lhes dar atenção especial.

E há música desde o berçário e, à medida que crescem, ginástica e ballet e natação. Tudo dentro do horário escolar, que a partir das cinco da tarde o trabalho das crianças é brincar. Não há muitos luxos, não é preciso. Há tudo o que as crianças realmente querem nestas idades: atenção, carinho, segurança. E há uma família na escola, de braços abertos para a família de casa.

Sei hoje que tive muita sorte. Ainda não tinha a ecografia do primeiro trimestre e o bebé número dois já estava matriculado. Lá anda ele, de colo em colo. A mais crescida chegou a chorar nas férias com saudades da escola. Até eu já tinha saudades do cheiro a sopa às 9 da manhã e o carrinho com maçãs cortadas para a merenda a passear pelas salas.

Levo os dois de manhã, um ao colo, a outra pela mão, o cão pela trela. É só subir a rua e estamos lá. À tarde, descemos a rua. Às vezes vamos até ao jardim, outras eles ficam a andar de triciclo e bicicleta na rua, com outras crianças do prédio e da escola. Ou apanham a senhora do quiosque que lhes dá beijinhos e bolos. No café ao fundo da rua, há outra senhora, com o mesmo nome da mãe, que põe a menina atrás da caixa registadora ou a leva para a cozinha para ajudar a fazer bolos.

Dizemos “bom dia” e “boa tarde” a cada cinco metros enquanto andamos na rua. E eu penso que, mesmo sem planear nada disto, não podia ter resultado de forma mais perfeita.
E tremo ao pensar que um dia eles vão sair e descobrir que o resto do mundo não é todo assim.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Quem tem (amor de) mãe, tem tudo









Estudo publicado no “Journal of Epidemiology and Community Health”:


"Saúde emocional na idade adulta depende do afecto materno

O carinho e o afecto materno dado à criança na infância têm um grande impacto no desenvolvimento da saúde mental e emocional na idade adulta, revela um artigo publicado no “Journal of Epidemiology and Community Health”.

Para este estudo, os investigadores da Duke University, nos EUA, acompanharam 482 crianças desde os oito meses de idade até estas terem atingido os 34 anos. Aos oito meses de idade, as crianças foram submetidas a testes para avaliação do seu desenvolvimento. Os resultados dos testes foram apresentados às mães, tendo também sido registadas as suas reacções aos mesmos.

Simultaneamente, a quantidade de afecto e atenção maternas foram igualmente avaliadas e classificadas em níveis que variavam entre o “negativo” e o “extravagante”. Posteriormente, a saúde mental dos participantes foi avaliada na idade adulta, quando estes tinham atingido, em média, os 34 anos de idade.

O estudo revelou que 10% das mães davam pouco afecto aos seus filhos, 85% davam afecto considerado “normal” e 6% davam demasiado afecto.

Os investigadores constataram que as crianças que tinham recebido mais afecto das mães aos oito meses de idade apresentavam, na idade adulta, menores níveis de stress, ansiedade e hostilidade. Pelo contrário, quanto menos afecto tinham recebido na infância maior eram os níveis de stress, ansiedade e hostilidade, os quais podem contribuir para uma instabilidade emocional e insegurança.

Os investigadores concluem que o afecto materno pode permitir e promover um desenvolvimento saudável das relações com os outros e das ligações emocionais, ajudando a criança a desenvolver capacidades sociais que são importantes para combater o stress e a ansiedade."

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Quatro




Há quatro anos, faz hoje quatro anos, eu estava a arrumar roupinhas de bebé e a dar risinhos com a minha irmã. Estávamos contentes e nervosas, expectantes com este bebé que era só nosso e com quem íamos “poder brincar à vontade”.

Eu e a minha irmã tínhamos esta sensação estranha de que o bebé que eu ia ter pertencia na realidade à nossa mãe. Comentávamos isto e riamos: “Achas que a mãe nos vai deixar andar com ela ao colo o dia todo?”. Na altura, sabíamos da estranheza desta impressão, mas não compreendíamos bem o porquê. Achámos que se devia ao facto de os últimos bebés a que tínhamos tido acesso terem sido os nossos dois irmãos mais novos, esses sim, de facto, os bebés da minha mãe.

Hoje, quatro anos depois, compreendo que não era só isso. A verdade é que eu não sabia ser mãe. A minha mãe sabia. A minha mãe é uma mãe de mão cheia. E eu, inconscientemente, achava que por isso, ela seria a melhor pessoa para ser a mãe do meu bebé.

Eu dizia “a minha filha” e olhava em volta, a tentar perceber se mais alguém achava aquela frase tão estranha como eu. Em segredo dizia-te "és o meu brinquedo". E mais baixinho, "desculpa, eu não sei bem o que estou a fazer".

Não foi automático, nem fácil, nem rápido. Foi trabalhoso e desafiante, como costumam ser as grandes aprendizagens da vida. Foi o que tinha que ser. Tu aprendias a viver neste mundo, eu aprendia a ser a tua mãe. Todos os dias coleccionámos uma nova lição. Até não haver dúvidas e estarmos as duas adaptadas. Mãe e filha.

Gosto de ir avaliando a minha prestação. Faço-o de uma maneira científica e rigorosa.
E então às vezes pergunto-te:

“Gostas da mãe ou queres ir buscar outra ao supermercado?”

(Umas vezes dizes logo Gosto desta, outras gozas-me descaradamente. “Gostava mais de ter outra” e acrescentas alguém que sabes que me vai fazer ciúmes, muitas vezes a avó, mãe do pai. Também já disseste que gostavas de ter dois pais. Eu rio-me e tu também. Sabemos que não tens alternativas. Mãe é mãe. Que se há-de fazer?)


Amanhã fazes quatro anos e eu tento lembrar-me como é o mundo quando temos quatro anos. E ocorre-me que crescer não é mais do que o esticar dos ossos aliado a algum cansaço trazido pelos anos. Não é muito mais do que isso, sabes. Para mim não tem sido.

Eu estou na mesma para aí desde os meus 18 anos. Não mudei muito, sou talvez mais paciente, mais tolerante. Sei mais coisas, descobri mais caminhos. Mas na essência, estou igual. E por isso, te digo: não esperes que os anos te tragam respostas. Confia que aquilo que hoje te parece evidente provavelmente é porque é mesmo.

Um dia vou mostrar-te este texto. Mas só quando fores crescida, se calhar mesmo à beira de teres os teus próprios bebés. E nesse dia vais perceber que ninguém sabe realmente o que fazer. Fingimos, isso sim. E ao fazê-lo aprendemos.

Há coisas que eu faço porque tem que ser, porque é o que é suposto uma mãe fazer. Às vezes consigo aparentar convicção, outras nem por isso.

E aqui te conto alguns segredos.

Eu e o pai, quando vamos às reuniões na tua escola, sentimos sempre que os pais dos outros meninos são amigos dos nossos próprios pais e não pessoas da nossa idade.
E eu, quando falo com a tua educadora, acho sempre que ela me vai mandar vestir o bibe e sentar-me ao pé de ti e dos teus amigos no tapete.

Lembras-te quando pintaste as paredes do corredor a caneta? Fiz uma cara zangada, mas deram-me vontade de rir aqueles rabiscos a menos de um metro do chão pela parede fora.

Outra: Quando eu insisto para comeres a sopa, é mais por uma questão de princípio. Não quero que sejas uma miúda “esquisitinha”. Mas sabes, na maioria das vezes, até nem havia problema se não comesses. Há coisas que eu também não gosto, ou que só aprendi a gostar mais tarde.

Ah. E eu não me importo se não tiveres sempre boas notas.

E acho que quando entrares na escola não devias ter trabalhos de casa.

Eu prefiro que tu tenhas vontade de brincar do que sejas a melhor da turma. Aliás, não precisas de ser a melhor em nada.Se um dia fores a melhor (seja no jogo do elástico ou se ganhares o Nobel da Química) que seja porque o percurso para lá chegar te deu gozo e felicidade e não porque meteste na cabeça simplesmente que tinhas que ser a melhor.

Também não precisas de um dia ter um cargo muito importante. Basta teres um trabalho que te faça feliz e te permita obteres as coisas que são verdadeiramente importantes para ti. Preocupa-te com essas, deixa as outras.
O tempo é mais importante que o dinheiro. A liberdade é carregarmos pouca bagagem. Não stresses, ignora o ritmo do mundo e vive segundo o teu próprio ritmo.
Vais estar muitas vezes rodeada de pessoas chatas. Uma dica: Mantém a tua imaginação fértil e a tua criatividade apurada. São o botão turbo para accionar em caso de emergência: O teu corpo fica, mas a tua cabeça já está a passear. Abana a cabeça com ar afirmativo e diz “Pois” ou “ahã” de vez em quando. Ninguém vai reparar que não estás a prestar atenção nenhuma.

Eu gostava que me respeitasses sempre mas que não tivesses medo de mim. Eu sei que quando fores adolescente vai haver alturas em que terei que te ameaçar com mil castigos e tu me vais desafiar constantemente. Às vezes já o fazes. Mas olha, se um dia estiveres mesmo enrascada, vem pedir-me ajuda. Que eu seja o teu primeiro telefonema. Sempre.
Aconteça o que acontecer, eu estou aqui para te ajudar.
E mantém-te fiel aos teus princípios. Em tudo o que fizeres deves ser honesta, trabalhadora e justa. Educada. Ciente da liberdade dos outros. Tolerante. Boa. Generosa. Feliz.
Tudo o resto são pormenores.

E, olha, dou-te estes conselhos, porque sim.
Porque as coisas que a minha mãe me ensinou ficaram para sempre na minha cabeça.

Mas eu sei que a decisão será sempre tua. Não posso viver por ti.

Eu sou tua, mas tu não és minha. Tu és do mundo.

E, aos quatro anos, o mundo é teu.

Parabéns, meu coração.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Dia da Mãe


 
Depois do sucesso do "post maratona" do Dia do Pai, o Bebé volta a querer fazer uma coisa diferente para o Dia da Mãe, no próximo domingo.

E então a pergunta: "Qual é a melhor recordação que têm com a vossa mãe?"

Respostas nos comentários deste post, ou para o mail sociedadepediatrica@gmail.com
Fotografias? Também pode ser.

Na sexta publicamos a compilação.
Vai ser bonito, de certeza.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A importância do pré-escolar

Por Bárbara Wong*

Quem não inveja, nem que seja só um bocadinho, as glamorosas donas-de-casa norte-americanas, que tomam conta dos seus filhos desde que nascem, ponha o dedo no ar. Não vejo um único dedo no ar! Elas existem, não é só nos filmes mas na vida real. São mulheres que estudaram, completaram o ensino superior mas os ordenados dos maridos permitem-lhes ficar em casa, ser mães a tempo inteiro e cozinheiras fabulosas, que fazem bolos com vários andares e cheios de cores (estou a exagerar).

A verdade é que elas ficam com os miúdos em casa até aos seis anos, idade com que entram para a escola. O pré-escolar existe nos EUA mas ou é para as crianças oriundas de famílias que podem pagar centenas de dólares mensalmente para estarem no jardim-de-infância ou para os mais desfavorecidos, aqueles para quem o inglês não é a língua materna, para os filhos de mães trabalhadoras, ou seja, para as crianças para quem o pré-escolar foi pensado como uma maneira de esbater as desigualdades à entrada do 1.º ciclo.

No primeiro dia de aulas, numa turma de 1.º ano, a professora chama o aluno pelo nome e ele não responde, a professora insiste até que o miúdo se apercebe e responde-lhe: “Eu não me chamo John, o meu nome é Mad Man (uma alcunha)”. Há crianças que chegam ao primeiro ciclo sem saber o seu nome próprio, afirma Sambie Shivers-Barclay, do departamento de Educação de Washington, DC, depois de contar a história e continua: “Há crianças que entram na escola e não sabem o nome, não sabem os números nem o alfabeto, não sabem sentar-se a uma secretária porque a única coisa que fizeram até então foi estar sentadas frente à televisão”, reforça.

O pré-escolar não é obrigatório nos EUA e por isso a aposta tem sido muito pouca neste nível de ensino. Por isso, existem milhares de jardins-de-infância com listas de espera, onde as direcções podem escolher os alunos e onde os pais que podem prometem mundos e fundos para que os filhos ingressem; mas também existem os que têm listas de espera para receber os mais pobres, os que têm necessidades educativas especiais, os que não sabem inglês.

A administração Obama tem dado particular importância ao pré-escolar como um meio para combater as desigualdades e de promover o futuro sucesso escolar. No final do ano passado, o governo federal disponibilizou mil milhões de dólares para que os 50 estados desenvolvam programas de pré-escolar. Enquanto por cá ainda nos escandalizamos porque a oferta do pré-escolar não atingiu os 100 por cento; no estado de Oklahoma apenas 55 por cento das crianças de quatro anos frequentam, ao passo que no Nevada apenas um por cento o faz.

Mas, como dizia no princípio, muitas mães estão em casa e os condados oferecem outras alternativas como o “day center”, onde a criança pode passar duas ou três horas diárias ou estar algumas vezes por semana, a fazer actividades semelhantes às desenvolvidas no pré-escolar; ou programas onde mães e filhos podem participar em conjunto.

A aposta tem que ser num pré-escolar com qualidade, como dizia Claire Hamilton, professora da escola superior de educação da Universidade de Massachusetts, “o pré-escolar pode ser qualquer coisa mas é o que vai marcar os alunos para o resto da vida. É o que vai determinar o futuro da criança se esta começar a ouvir falar sobre a universidade quando ainda tem quatro anos”. Ou seja, quando os pais têm poucas ou nenhumas expectativas, o pré-escolar pode e deve – lá como cá – fazer a diferença na vida das crianças, desde a mais tenra idade.

*A jornalista viajou a convite do Departamento de Estado dos EUA e a viagem foi financiada pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Obrigada Medicina. Obrigada Destino.

Ninguém gosta de ver um filho doente. E falo das doenças triviais, banais, nada de especial, que sabemos que fazem parte da infância e que são um mal necessário, mas que não deixam de ser uma chatice. A verdade é essa.
A mim bastam-me as viroses, bronquiolites, febres repentinas e afins para andar durante esses dias de respiração sustida, quase em piloto automático, à espera que passe e se vão cumprindo as etapas previstas rumo à recuperação total. “Ao terceiro dia a febre começa a espaçar, ao quarto dia já deve estar mais bem-disposto, a tosse demora um bocadinho mais, mas se está a comer é bom sinal…”.
Dou por mim a repetir estes timings como se fossem infalíveis, garantia de qualquer coisa, como se fossem um mantra que pela repetição se torna realidade. E torna. A verdade é que, na maior parte das vezes, as coisas se resolvem rapidamente e sem problemas. Passam-se umas noites em claro, limpam-se vomitados a meio da noite, dá-se uso à maquina dos aerossóis e está feito. Pelo menos até à próxima.

Já me conformei com este culto da paciência que implica a época das viroses. Não há muito a fazer senão esperar que passe. A alguma prescrição médica, junta-se uma dose extra de mimo que ajuda sempre. Também sou um bocadinho avessa a encharcar as crianças em medicamentos. Vale-me um pediatra pouco interventivo e confiante nas leis da Natureza. Tranquilizador. As corridas para a urgência são quase inexistentes. Tal como um oráculo sapiente, os seus prognósticos cumprem-se rigorosamente. Eu fico sempre surpreendida, como se assistisse a um milagre da previsão do futuro. Como se tivesse consultado o curandeiro da aldeia e ele acertasse em tudo só por interpretar as nuvens, ou sinais de fumo, ou o que quer que seja que os curandeiros usam para os seus diagnósticos.

Mas quando há percalços, quando no dia em que o bebé devia melhorar e piora, quando a febre, em vez de ceder, dispara, eu, que gosto de pensar em mim como uma mãe semi-new-age regresso ao natural-crianças-descalças-e-a-comer-terra, sinto-me repentinamente grata por ter uma urgência onde recorrer, com aerossóis e raio x e receitas para aviar na farmácia.

E só ter que esperar 24 horas para que o antibiótico comece a fazer efeito e o bebé volte a querer brincar e gatinhar e comer. Que deixe de gemer e tenha os olhos colados com ramelas infectadas e secreções amarelas a entupir-lhe o nariz e a afogar-lhe a garganta, o peito a chiar como uma locomotiva. Que haja uma ajuda farmacológica para que ele não tenha que passar mais um dia disto do que o necessário. Que a sociedade civilizada que eu tantas vezes critico, possibilite estes recursos que noutros lados do planeta são inexistentes.
E penso nas mães e pais que não podem fazer mais nada senão velar os bebés a noite e pôr-lhes panos húmidos na testa para baixar a febre. E esperar. Esperar que as crianças superem, o que sabemos que nem sempre acontece. Nos sítios onde não há médicos ao virar da esquina, nem hospitais, nem farmácias de serviço. Muitas vezes nem água potável.

E sinto-me grata por viver num país onde há tudo isto. Obrigada Medicina, obrigada investigação científica, obrigada sociedade civilizada, com todos os teus defeitos.
E obrigada Destino, por teres feito os meus filhos nascer do lado certo do mundo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Post útil número 1: lista de roupa para recém-nascido

*Por Inês Diogo

• 6 bodies interiores (os de trespasse são mais fáceis de vestir e mais confortáveis para o bebé)

• 6 calcinhas com pé (para vestir por baixo dos cueiros ou dos babygrows, mas apenas se for Inverno)

• 6 camisas

• 4 conjuntos confortáveis camisola+calça

• 4 casacos (de lã ou algodão conforme a estação do ano)

• 2 conjuntos (calças, camisola e casaco ou vestido e casaco)

• 1 Touca ou um Gorro (de lã ou algodão conforme a estação do ano)

• 6 Babygrows (se apenas os usar durante a noite, como pijamas; deverão ser mais se também preferir esta peça de roupa para usar durante o dia)

• 6 Pares de Meias (devem calçar-se por baixo das calças com pé ou dos babygrows, quando o tempo está mais frio)

• 4 Pares de Botinhas de lã (no Inverno) ou de algodão (no Verão).

• 1 casaco grosso (apenas no Inverno)

• 2 mantinhas

• 2 envoltas

• 10 babetes pequeno (para quando se começam a babar ou bolsar)

• 15 fraldas de pano

Nota importante:

Antes de vestir qualquer roupa ao bebé, lave-a muito bem com detergente próprio para bébé e passe com o ferro quente, mesmo que as roupas lhe pareçam novas e limpas. Este cuidado é muito importante para prevenir alergias e/ou outras complicações que podem surgir devido a fungos e/ou bactérias presentes em roupas não-cuidadas. Os mesmos cuidados devem ser tomados também para roupas e acessórios de cama e banho do bebé!

*Inês Diogo é gestora e mãe de dois filhos

terça-feira, 16 de março de 2010

Vínculo

Ele nasceu. E quando o encostaram a mim, ele abriu a mãozinha e encostou-a em cima do meu olho, como quem diz “Cheguei. Podes descansar”.

Nos dias seguintes, as enfermeiras da maternidade entravam no quarto para o encontrarem quase sempre ao colo. “Ai que esse bebé vai ficar tão estragadinho”, vaticinavam. Eu respondia “Não se preocupe que ele vai comigo, não o deixo cá”. Elas sorriam, a pensar “coitadinha nem sabe no que se está a meter…”.

Mas eu sabia. Sabia sim.

Na minha segunda gravidez tudo se passou a correr. Não tive muito tempo para grandes contemplações ou festinhas na barriga. Passei o tempo a correr, a trabalhar, a cuidar da mais velha. Orgulhosa por estar a dar conta de tudo. Sem mãos e pés inchados. Sem o “andar à pinguim” das grávidas de fim de tempo. A dar colo à minha filha até ao final. A ter reuniões e a mandar mails urgentes. Gravidez não é doença e lá andava eu com uma barriga gigante, orgulhosamente (hiper)activa.

Quando dei por mim na recta final, enviada à pressa para casa porque o líquido amniótico tinha desaparecido e o bebé não estaria a crescer como se esperava, senti-me uma bomba relógio. Pedia ao bebé que nascesse se não estivesse bem. Bebi litros de chá de canela e folha de framboesa, experimentei pontos de acupunctura e posições de yoga para o convencer a sair para o mundo, já que o mundo que ele conhecia até então poderia não estar a dar-lhe o que ele precisava.

Ele, horrorizado, trepava por mim acima e encaixava-se-me debaixo das costelas, o mais longe que conseguia da porta de saída. Li na altura que os bebés tendem a subir quando se sentem inseguros, aninham-se do lado esquerdo onde está o coração da mãe. Parece que nos rapazes é mais frequente, (o que até pode explicar muita coisa).

Já eu, desesperava. Afogada num baby blues prematuro e irremediável, passava o dia a chorar. Não. Minto. Não passava o dia só a chorar. Passava-o também a ver o vídeo em que a mãe do Dumbo, enclausurada porque teve um acesso de fúria ao defender o seu bebé das orelhas grandes, o embalava como conseguia, tromba através das grades, enquanto o pequenino chorava. De cortar o coração, eu sei. Na altura, estranhamente, parecia-me a solução óbvia. Passar os meus dias a ver este filme. Era tudo o que eu podia fazer.

Ainda na barriga prometi-lhe que quando nascesse eu iria ser assim. Uma mãe em estado selvagem, a defender a cria, a dar-lhe colo a todas as horas do dia. Teria mama quando quisesse, alguém para lhe velar as cólicas e os sonos trocados, sempre com um sorriso e paciência, tanto quanto possível, sem desesperar de cansaço. Seria um bebé de ouro, cujos pezinhos só tocariam o chão quando ele quisesse, porque até lá seria transportado ao colo.

Eu, a mãe macaca. Ele, o bebé filhote.

Primitivos e felizes, alheios a uma sociedade que espera que os bebés durmam 7 horas, mamem de três em três (mas acordem a tempo de esbanjar sorrisos para as visitas), cheirem sempre bem e não gritem muito, de preferência.

Na filha número1 ainda houve tentativas para a "domar", habituar às (nossas) rotinas, como se fosse possível fazer de um recém-nascido um adulto responsável, assim em meia dúzia de dias. Sem sucesso, claro. Não vale a pena lutar contra os bebés. As primeiras semanas são de caos absoluto. Mais valia dizerem-nos logo isso e pronto.  No filho número dois percebi que a solução para nos entendermos com um bebé está na natureza. A minha costela revolucionária já me devia ter ensinado a não procurar validação em manuais de instruções para bebés.

Mas o nosso instinto sai sempre reforçado quando encontramos as nossas estratégias improvisadas de maternidade, impressas em formato livro. Encontrei-o aqui. Diz o pediatra Carlos Gonzalez que os nossos bebés actuais choram porque são os sobreviventes de gerações longínquas, os descendentes de bebés antepassados que choravam a plenos pulmões e assim levavam os adultos a não os deixar sozinhos, mercê de predadores e outras ameaças. O choro do bebé é no fundo a emissão de “sinais de alerta”, sob a única forma de que dispõe. O choro do bebé enerva os adultos, fá-los agir no sentido de o acalmar. É esse o objectivo: fazer-nos agir. No meu caso, perceber a biologia das coisas ajudou-me a superar noites infindáveis a tentar aplacar cólicas e desassossegos. A ter calma. A respirar fundo. A não desesperar. A usar métodos antigos como o embalar, cantar canções de ninar, a embrulhá-lo em mantas apertadas e encostá-lo junto a mim para que o bater do coração que ele tanto procurava dentro de mim o acalmasse cá fora neste mundo que ele não conhecia e onde pela primeira vez encontrava a dor.

No fundo a deixar fluir hormonas. A construir o amor. A transformar este bebé perfeito num filho. O meu filho.

"... é impossível estragar um bebé dando-lhe muita atenção. Estragar significa prejudicá-lo. Estragar uma criança é bater nela, insultá-la, ridicularizá-la, ignorar o seu choro. Contrariamente, dar atenção, dar colo, acariciá-la, consolá-la, falar com ela, beijá-la, sorrir para ela são e sempre foram uma maneira de criá-la bem, não de estragá-la. Não existe nenhuma doença mental causada por um excesso de colo, de carinho, de afagos... Não há ninguém na prisão, ou no hospício, porque recebeu colo demais, ou porque lhe cantaram canções de ninar demais , ou porque os pais deixaram que dormisse com eles. Por outro lado, há, sim, pessoas na prisão ou no hospício porque não tiveram pais, ou porque foram maltratados, abandonados ou desprezados pelos pais. E, contudo, a prevenção dessa doença mental imaginária, o estrago infantil crónico , parece ser a maior preocupação de nossa sociedade."
in "Besame Mucho", Carlos Gonzalez

Fiz há pouco tempo uma tentativa patética de o deixar no infantário. Seria de esperar que, com tanto mimo parental, ele estrebuchasse, estranhasse, recusasse. Mas não. O meu bebé estende os braços para qualquer colo e não recusa ninguém. Não "estranha", embora esteja supostamente na idade de o fazer. Também na escola ficou sossegado, entretido a olhar os brinquedos, a educadora, os outros bebés. O meu bebé de ouro é, para os outros, um bebé banal. E é bom que assim seja, ajuda a equilibrar as perspectivas.

Eu, do lado de fora, contive-me o mais que pude. A vontade de usar a tromba de elefante para partir o vidro e embalá-lo foi quase mais forte que eu. Voltei a olhar. Ele estava bem. Nitidamente melhor integrado do que eu. Recolhi a tromba e saí de mansinho.

No caminho ocorreu-me.
Os bebés de coração cheio, não têm medo de voar. Mesmo que tenham orelhas grandes.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Hoje é um bom dia para...

Imprimir uma casinha de papel no trabalho. Levar para casa, cortar, pintar e colar com as crianças, depois dos banhos, antes de jantar (ou noutra ordem qualquer).

Está prontinha aqui.

E muitas ideias, simples e deliciosas aqui.


 

terça-feira, 2 de março de 2010

Pais Insuportáveis

*Por Rita Quintela

Pediram-me há dias que escrevesse acerca de crianças verdadeiramente insuportáveis.

Talvez este tenha sido um dos temas mais difíceis sobre o qual me pediram que escrevesse. É que eu não conheço crianças verdadeiramente insuportáveis. Haverá algumas mais mal-educadas mas que tolero, ou outras menos sociáveis mas cujos comportamentos aceito.

O pior são os pais. Há pais verdadeiramente insuportáveis e sobre esses ninguém me perguntou nada. Logo eu, que tinha tanto para dizer… Antes de mais nada, dizer que quase todos os miúdos menos “educados” deviam apontar o dedo aos pais.

A maior parte das crianças difíceis vivem com mães e/ou pais que não sabem impor regras, que se desautorizam mutuamente, que usam as crianças como estratégias de arremesso de emoções, que querem os filhos construídos à imagem das suas expectativas, que não exigem respeito, nem autonomia, nem nada.


Não tenho uma família perfeita, cá em casa também há miúdos birrentos e pais que fervem em pouca água. Mas vamos vivendo e aprendendo. Muito importante – vamo-nos adaptando.

Para criar miúdos equilibrados, considero que deve existir um conjunto de pressupostos no dia-a-dia das crianças e que passam:

- Pela consciência das responsabilidades: fazer a cama, arrumar a mochila, por a mesa, dobrar a roupa, fazer os trabalhos de casa;

- Pela partilha: ajudar os irmãos mais novos, partilhar os brinquedos, dividir o chocolate;

- Pelo respeito aos mais velhos: os pais e professores mandam, as crianças obedecem. Os avós são para respeitar em dobro (no meu caso particular, tenho alguns problemas em fazer perceber aos miúdos o respeito que devem ter com a minha mãe.)

- Pelo incentivo à autonomia: tomar banho sozinho, ir deitar-se sozinho, servir-se sozinho, etc...


Aos dezoito meses um bebé pode e deve ajudar a arrumar os brinquedos.
Aos dois anos pode comer sozinho. Sim, suja tudo. E depois?
Aos três pode dobrar o pijama ou ajudar a pôr a mesa (tarefa que passará a demorar o dobro do tempo mas ninguém disse que ter filhos rentabilizava as horas, pois não?)
Aos quatro pode fazer a cama, vestir-se, arrumar a roupa nas gavetas (fica tudo trocado).
Aos cinco toma banho sozinho
Aos seis consegue orientar-se sem ajuda nos balneários da piscina, ajuda a arrumar a cozinha e não passará fome se comer todos os dias na cantina da escola. Pode tomar conta do irmão mais novo, fazer recados, enfim, um novo mundo se abre a partir dos seis. Aprendem a ler, o que facilita muitíssimo – podem contar histórias aos irmãos/amigos/primos, gerir jogos, etc.


Uma outra coisa que faz falta ao equilíbrio emocional dos miúdos é a responsabilização pelo erro (o castigo, a palmada no rabo). Reparem – não estou a falar de violência gratuita ou de humilhação das crianças mas sim de lhes chamar a atenção. Parece-me que um dos grandes males dos miúdos de agora é não saberem exactamente onde é o limite. A culpa não é deles.

*Rita Quintela tem 38 anos, é casada e mãe de três raparigas e um rapaz. Profissões "muitas": Mãe de 4 (com todas as valências que daí resultam), dona de casa, funcionária pública, artesã e blogger (escreve no Mãe Galinha).

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A caixa.. ou a importância do Porque Não?

Corbis/Sandra Seckinger


Falava há alguns dias a Bárbara, prezada contribuidora deste blog, sobre a importância do não. Dizia que nem sempre o não tem que vir acompanhado de uma explicação, que às vezes é não e pronto, acabou.

Eu cresci a perceber que havia "nãos" que até eram negociáveis, enquanto outros eram "nãos" a sério, incontornáveis e finais. "Nãos" que quando eu perguntava "porquê" tinham como complemento "porque eu sou a mãe/pai e digo que não". E eu aceitava. Parecia-me lógico. Parece-me lógico ainda e, embora não tenham sido muitas as vezes, já usei este argumento do "eu sou a mãe e digo que não" numa ou outra situação.

Há uma tendência actual para se falar disto. Reflexo de inversão, suponho eu, face ao surgimento dos tais "pequenos tiranos" com honras mediáticas. Os tais que, dizem, estão a crescer com ausência total de regras. Fala-se muito da importância da autoridade, das regras firmes, das balizas que as crianças devem ter, de forma a não crescerem desaustinados e verdadeiras pestes endemoínhadas que nunca serão felizes na vida, simplesmente porque assumem que tudo lhes é devido.


Certo.


Mas eu deparo-me com uma curiosa dicotomia. Na minha profissão, que atravessa o marketing, comunicação e afins, usa-se muito, cada vez mais de há uns anos para cá, o conceito de "thinking outside the box". Esta expressão, que nem sequer é recente, nem inicialmente aplicada a estas áreas, sintetiza algo que é cada vez mais valorizado: o pensamento criativo na procura de soluções alternativas. Imaginemos uma reunião de briefing criativo, um brainstorming para uma campanha, numa agência de comunicação. Ao fim de duas horas de banalidades, alguém sugere algo inesperado como soltar 70 lémures selvagens no metro em plena hora de ponta, vestidos com t-shirts estampadas com o logotipo do cliente. E pronto. É considerado um génio.

A verdade é que nós, adultos, estamos a valorizar cada vez mais esse bem raro que se tornou a criatividade. Estamos a perceber a sua importância, a sua necessidade imprescindível face a uma vida, que por mais que não aceitemos ou antecipemos, é em si mesma…imprevisível. Já percebemos, por fim, que quando A não leva a B, teremos que inventar um C para lá chegar.

Mas… ao mesmo tempo, esquecemos que os verdadeiros “thinkers outside the box” estão mesmo aqui ao lado. Sim, estão ao nosso lado. Mas temos que olhar para baixo para os ver...As crianças são reservatórios natos de criatividade. De uma imaginação que não conhece limites. A não ser aqueles que nos encarregamos afincadamente de lhes impor.


Mãe, posso ir de pónei para a escola?

Mãe, podemos jantar no chão da sala?

Mãe, porque é que não faltas ao trabalho e ficamos em casa a brincar?

Mãe, o jantar hoje pode ser cocó?


Todas as perguntas são verídicas, a todas elas a resposta foi “não”. Mas dou por mim a pensar: “Porque não?”. (excepto a última, e por motivos óbvios…).Porque é que nos sai tão mais rapidamente o "não"…? Não, quase sempre "não", a tudo o que sai do normal, da rotina, do convencionado. Dizemos muitas vezes “Não” para bem deles, claro, da sua saúde, da sua estabilidade. Para bem até da articulação entre afazeres e responsabilidades, para bem da nossa própria subsistência. É verdade: temos que trabalhar, viver, conviver com a sociedade, as suas regras. As regras são importantes.

Mas também nos sufocam, coarctam… A rotina inexorável mata a criatividade. E o “porque não?” pode ser um grito de liberdade em dias cinzentos.


Assumo como compromisso férreo responder mais vezes “Porque não?” a todas as propostas inocentes e deliciosamente disparatadas que ela me fizer. E aceitar onde quer que isso nos leve. Um dia, gosto de acreditar, o “porque não” pode levá-la longe, mundo fora à descoberta, sem medo de deixar raízes ou de arriscar. Pode fazê-la largar tudo por amor ou viver aventuras imprevistas.


Ou pode, simplesmente, levá-la a soltar lémures selvagens em hora de ponta no metro.


Qualquer uma das opções será com certeza… bastante divertida.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Dez boas notícias... difíceis de encontrar

*Por Maria Moreira

“Ó mãe, mas acha mesmo que não sabemos fazer nada bem?” – desabafava o meu filho de 16 anos há uns dias, no meio de uma negociação sobre horas de chegar a casa depois de uma saída à noite, misturada com conselhos de segurança e alertas sobre consumos de álcool e drogas.

Fiquei a pensar no que ele disse. Quando trabalhamos mais com os números do que com as pessoas, como é o meu caso, tendemos a pintar um quadro negro da realidade. As minorias facilmente se transformam em maiorias e as estatísticas parecem ter uma tendência intrínseca para compensar qualquer notícia positiva com um alerta ainda mais negativo. Preocupamo-nos com os nossos filhos e preocupamo-nos pelos nossos filhos.

Até porque nos lembramos que quando tínhamos a idade deles acreditávamos mesmo que não havia nada de mal que nos pudesse acontecer…

E mesmo que tenhamos a melhor opinião possível acerca dos jovens, a verdade é que quando falamos com eles tantas vezes acentuamos o pior em vez do melhor.

Porque fiquei a pensar no que o meu filho me disse, tentei encontrar 10 notícias positivas e relativamente recentes sobre jovens em Portugal, através de uma pesquisa na Internet.


Pensei que seria fácil. Tenho tido o privilégio de acompanhar nos meus tempos livres, crianças e jovens entre os 6 e os 20 anos e conheço bem a sua dedicação, generosidade, energia e capacidade de mobilização.

Enganei-me. Como li num dos sites que visitei “Os jovens não são invisíveis na comunicação social, mas a maior parte das notícias sobre os mais novos são negativas”. E esta imagem dos jovens que assim nos chega frequentemente com certeza contribui para o pessimismo com que às vezes os olhamos mas também, o que é muito mais importante, para a imagem que eles próprios têm deles.


De qualquer forma, com mais esforço do que imaginara, encontrei as minhas 10 notícias. Não segui nenhum critério de pesquisa especial. São todas notícias de 2009 ou 2010, sobre jovens portugueses entre os 12 e os 20 e poucos anos e sobre temas tão diferentes como desporto, ciência, solidariedade e empreendedorismo.

Aqui ficam, com os respectivos links para onde estão publicadas, e como resposta ao meu filho e a todos os jovens que fazem tantas coisas tão bem:



1. Jovens ajudam países pobres

2. Alunos da Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa apoiam a Associação Nacional de Futebol de Rua

3. Jovens ajudam bombeiros de Mangualde

4. Quatro estudantes portugueses de Medicina ajudam sobreviventes

5. Jovem covilhanense no Campeonato do Mundo de esqui alpino

6. Alunos criam marca de roupa

7. Jovens portugueses entre os mais interessados em notícias de ciência

8. Jovem esquiadora caldense em grande plano

9. Olimpíadas Ibero-Americanas de Matemática - equipa conquista duas medalhas de prata, uma de bronze e uma menção honrosa

10. Jovem Realizador de Carnaxide conquista prémio de animação



*Maria Moreira é mãe, gestora de informação e sonhadora inveterada

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Expectativas e bengalas

Por Cristina Brito*

Há dias ouvi de um pediatra que as crianças se habituaram a ter bengalas para a vida e que vão crescendo demasiado apoiadas, sem se esforçarem por conseguir ultrapassar as dificuldades que vão surgindo. As próprias brincadeiras, que forçavam à descoberta, à imaginação e à criatividade, foram sendo gradualmente substituídas por jogos em que as crianças se limitam a carregar passivamente em botões de consolas de jogos ou em teclas de computadores. As crianças crescem como espectadores, esperando que alguém se substitua ao seu esforço e ao natural desenvolvimento e autonomia que deveriam adquirir para se tornarem adultos responsáveis e cidadãos participativos.


Não deixará de ser verdade que nós, pais, somos co-responsáveis por esta situação. As bengalas que vamos dando aos nossos filhos, ao longo do caminho que percorrem durante o crescimento, revelam-se uma forma de pressão para que consigam ir mais longe, explorando todas as capacidades que têm. Apoiamos aguardando, ainda que inconscientemente, que o nosso apoio se transforme em boas notas, quadros de honra, troféus desportivos, aceitação social e outras vitórias que vão conseguindo somar.

O amor que indiscutivelmente pomos nesse apoio, procurando que vinguem em tudo em que se envolvem, não pode ser dissociado das nossas expectativas de adultos, seres humanos demasiadas vezes limitados nos nossos próprios êxitos. As pequenas vitórias dos filhos acabam também por ser nossas, precisamente porque lhes fomos dando bengalas durante o percurso; somos parte do sucesso. E temos dificuldade em aceitar quando, mesmo com bengalas, os troféus não são os que esperámos. Porque aí, somos parte do insucesso…

Fica, em certos momentos de introspecção, a certeza de que as nossas melhores intenções são, ao mesmo tempo, uma forma de concretizar expectativas que temos, fazendo das crianças um prolongamento da nossa vontade. Exigimos o que não conseguimos, justificando a nossa atitude com o facto do mundo ser competitivo e dos filhos precisarem de ser ajudados e preparados para essa guerra que se avizinha.

Talvez seja tempo de reorientarmos as nossas expectativas de pais e os deixarmos livres para, acompanhados à distância, encontrarem o seu equilíbrio, ainda que por caminhos que não conduzam ao sucesso e à excelência.

Mas depois, poderemos nós viver com isso?

*Cristina Brito é socióloga de formação e mãe

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A importância do "não"

*Por Bárbara Wong

Eles estão na pré-adolescência, os seus rostos estão a mudar, as bochechas-gordas-que-apetece-comer desapareceram e na linha T começam a aparecer as primeiras borbulhas. Mas, de manhã, ainda não acordaram e as suas faces continuam a cheirar a bebé. Espreguiçam-se e esticam o corpo, tal e qual como quando eram recém-nascidos, e nós, os pais, ficávamos a olhar para eles, embevecidos.

Hoje, continuamos a olhar para eles embevecidos não porque se espreguicem, riem ou balbuciem, mas porque estão grandes, porque começam a ser autónomos e responsáveis.

Só que nem todos os dias são de embevecimento! Há dias de arrelias, de confronto porque estão a crescer, porque têm as suas opiniões e fazem questão de as defender. Mas é assim desde pequenos, os motivos de confronto é que vão mudando: primeiro, não querem comer a sopa e determinados fecham a boca; depois, não querem ir para a cama mais cedo...

Para todos estes momentos, a psicóloga espanhola María Jesús Álava Reyes, autora de vários manuais de auto-ajuda, publicados pela Esfera dos Livros, recomenda que os pais sejam coerentes. Nada de dizer primeiro que “não”, mas ao mínimo confronto fazermos a vontade à criança. As regras são fundamentais para que a criança tenha estabilidade e segurança.

"O não também ajuda a crescer", recém-publicado, é um livro muito prático que acompanha o crescimento da criança desde o momento que nasce até à idade adulta e é arrepiante quando se lê, lá mais para o fim, o que é que os filhos crescidos e com problemas dizem aos pais: Porque é que me deixaste fazer tudo o queria? Porque é que nunca me disseste que não?

No final de Janeiro, María Jesús Álava Reyes esteve em Lisboa e conversei com ela. Dizia-me que as crianças são muito diferentes e mudaram muito nos últimos 30 anos. Sabem mais, mais cedo; mas adquirem maturidade mais tarde. A culpa é dos pais, diz claramente. Somos nós que os superprotegemos, que lhes damos tudo, seja a comida favorita, seja o jogo que todos os outros têm.

No livro, María Jesús Álava Reyes explica: “Os pais têm de ser pais, não colegas, têm de assumir o seu papel e as suas funções, embora por vezes lhes custe; têm de ser capazes de orientar os seus filhos, favorecer o seu pensamento, o seu raciocínio, a sua sensibilidade, a sua sociabilidade, o seu auto-controlo, o seu afecto; ainda que por vezes pressuponha um esforço importante da sua parte; ainda que por vezes as crianças pareçam fechar-se nos seus argumentos; ainda que emocionalmente lhes seja muito difícil; mas têm de consegui-lo e para isso comportar-se-ão como adultos, falarão como adultos, estabelecerão as normas como adultos e, se necessário, reforçá-los-ão ou dir-lhes-ão “não” como adultos.”

Com María Jesús Álava Reyes não aprendi a dizer “não” porque essa é a palavra que os miúdos mais ouvem desde que nascem; mas aprendi que o “não” nem sempre precisa de ser explicado, que é o que sempre faço. Por exemplo: Se nos pedem para ir para a cama mais tarde e nós dizemos “não”, nada de ficar meia hora a justificar aquela decisão. Foi meia-hora que as crianças perderam de sono e ganharam com a sua teimosia. Basta dizer-lhe: “Já sabes que tens que ir para a cama cedo” e acabou!

No dia seguinte, lá estarei, embevecida, a vê-los acordar.

*Bárbara Wong é jornalista no "Público" há 13 anos, especializada em temas de Educação, Ensino Superior e Família.
Em 2005 ganhou o prémio de jornalismo "A Família e a Comunicação Social", com um texto sobre os pais que partilham tarefas com as mães, intitulado “Um homem na sala e na cozinha”.
Em 2008 publicou o livro "A Escola Ideal: Como escolher a escola do seu filho dos 0 aos 18 anos". É co-autora, com a professora Ana Soares, do blogue Educar em Portugues.
É casada e mãe de um rapaz e de uma rapariga.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Mais má que todos os maus

imagem: Eva Armisén



Quando a minha filha mais velha nasceu, o que me surpreendeu verdadeiramente foi a sua independência. Constatei-a separada de mim, um ser autónomo, com uma individualidade própria que nunca imaginei que pudesse ser tão clara num bebé recém-nascido. Olhando para ela, senti-a destemida, corajosa, independente.

O prenúncio revelou-se acertado. A falta de medo dela chegava a assustar, não especialmente a mim, mas muitas vezes aos que nos rodeavam. Aos 18 meses, no café, o bêbedo da terra estendeu-lhe a mão e ela, sem hesitar, saiu porta fora com ele. Sem olhar para trás, enquanto eu, de boca aberta, assistia à cena e aos gritos dos presentes: "Vá atrás dela!", "Olhe que ele leva a menina!". Com 2 anos, entrava destemida pelo parque infantil, abraçava na rua pitbulls que passeavam com coleiras de picos, chamava a atenção de qualquer adulto, em qualquer situação ou local, sempre que entendia que uma injustiça social estava a ser praticada.

Inconsciência, dirão uns. Falta de noção do perigo. Têm toda a razão, com certeza. Mas para mim, quando um ser tão pequeno enfrenta assim um mundo bem maior que ela, não é só falta de conhecimento. É também uma coragem do caraças.

Há pouco tempo, já a caminho dos três anos e meio, começou o medo "dos maus". O medo do escuro, os pesadelos. Calculei que fosse normal nesta fase. Ela olhava para mim em busca de tranquilização e eu tive vontade de lhe garantir que não há maus nenhuns, que podia dormir descansada, ir às escuras pelo corredor até ao quarto. Porque os maus não existem. É tudo imaginação.

Mas poderia fazê-lo, em consciência?

A minha filha tem três anos e meio e já percebeu que o mundo está carregado de “maus”.

Ela vai contactar com eles durante a vida, não com os “mais maus” de todos, os verdadeiros “maus”, espero eu, mas provavelmente com uma variedade ampla de “mini-maus” que todos nós enfrentamos no dia a dia.

(os mauzinhos, os egoístas, os mesquinhos, os invejosos, os mentirosos… oh senhores, a lista de maus do quotidiano pode mesmo ser infindável e o grau de danos que nos podem inflingir varia, não só em gravidade, mas também no nível de influência que lhes permitimos.. mas isso será assunto para outro post).

Não. Eu mãe, que preparo a minha filha para a vida, não posso garantir-lhe que os maus não existem. Suponho que esta percepção adquirida seja até uma forma de auto-protecção que lhe vá ser útil. Mas também não quero contagiá-la com medos.

Com os meus medos. Tantos, tantos mais, desde o dia em que ela nasceu e eu me tornei mãe.

Num espaço habitado por psicólogos e pediatras sinto-me uma herege ao terminar o relato. Mas confrontada com as perguntas em catadupa,

“Há maus no meu quarto, mãe? E lá fora na rua? E os maus entram em casa quando estamos a dormir? E se me apanham?”.

Não, não dá para pensar em respostas pedagógicas ou estruturadas.

Sigo o instinto, e a cada pergunta com o coração mais apertado, disparo e resolvo o assunto:

“Não te preocupes porque os maus não entram cá em casa.
Tentaram uma vez e a mãe agarrou num pau e bateu-lhes tanto que eles fugiram a correr.
Deitaram sangue e tudo. Bati-lhes com toda a força.
Tanta, que esses maus avisaram os outros maus que tinham ficado em casa que aqui vivia uma maluca que batia nos maus com toda a força.
Agora todos os maus têm medo de aparecer aqui.”

Ela sorriu, condescendente, mas (mais) tranquila.
Confio que saberá conciliar isto com outros ensinamentos, nomeadamente de que os problemas da vida não se resolvem à cacetada.

Eu preciso de ter presente em mim esta confiança de que, para defender um filho, somos capazes de tudo. Se o devemos fazer e quais são os limites, essa será outra conversa.

Para já, assunto resolvido.
Dorme descansada, minha querida, que o perímetro está seguro.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ter filhos faz bem ao coração

Por Sónia Morais Santos*

Perguntam-me: o quê??! Tens três filhos?! E uns arqueiam o sobrolho, horrorizados, como se tivesse três quistos, coisas feias e dolorosas e importunas. Outros, espantam-se, admiram-me a valentia, ah! Isso é que é coragem! E repetem, num suspiro cansado: três…


Às vezes, quando digo que gostava de ter outro, há quem dê gritos, cruzes, credo, valha-te Deus, então não chega já? então já tens dois rapazes, uma menina, vais agora meter-te noutra, para quê? Para quê?

Para quê. Eu sei lá para que é que temos filhos. Nuns casos pode ser porque sim, porque fomos como que programados para isso, desde tenríssima idade. Noutros casos pode ser porque o desejamos profundamente, porque queremos um bebé, porque chegou a hora, porque queremos prolongar a nossa vida noutras vidas, porque queremos ter um fruto de um grande amor, porque ansiamos por educar, por ver crescer. Temos filhos por uma destas razões, por todas estas razões, por nenhuma delas.

No meu caso, o primeiro filho chegou porque sim. Porque queríamos um bebé nas nossas vidas, porque nos amávamos e tinha chegado a hora.

O segundo veio, naturalmente. Mas aí, receei que o amor pelo segundo não chegasse aos calcanhares do primeiro. Estava tão apalermada com o primeiro que julguei ser impossível a repetição daquele sentimento. Impossível. Temi. Pior: acreditei nisso e culpabilizei-me. Apesar disso, afeiçoei-me à barriga, ao feto, conversei com ele, amei-o. Terei pedido desculpas pelas minhas dúvidas. Mas depois… depois quando nasceu percebi a dimensão do meu equívoco. Chorei tanto quando o segundo nasceu, quando chorou pela primeira vez, acabado de sair para o mundo. Chorei de paixão, porque percebi imediatamente, de modo visceral, brutal, animal, que esta coisa de amar os filhos não é dada a divisões mas antes a multiplicações. Ou seja: não há um coração que tem de se repartir. Há um coração que aumenta, a cada nascimento. E assim, ao segundo filho, o meu coração ficou maior.

E depois veio a necessidade do terceiro. Como se fosse um vício. O vício de gostar arrebatadamente. O vício de sentir o coração crescer. Como se já não soubesse viver de outra maneira, sem ser assim, com o coração dilatado dentro do peito. Quando a Madalena nasceu eu já não chorei porque já sabia o quanto gostava dela, o quanto ia gostar dela, já sabia que o amor pelos filhos não se divide, multiplica-se.

Por isso, quando me perguntam “o quê??! tens três filhos?!”, como se em vez de filhos falassem de quistos, coisas feias e dolorosas e importunas, eu sorrio. Limito-me a sorrir. Eles não sabem nem sonham mas o meu coração é maior que o deles. E a felicidade que carrega é enorme, é imensa, é desmesurada. E é por isso, também, que se calhar um dia destes ainda tenho outro. Só não estou segura de que, então, o coração me caiba todo dentro do peito.

* Sónia Morais Santos é mãe e jornalista. Autora e apresentadora do programa "Portugal dos Pequeninos" na Antena 1, assina ainda o blog "Cocó na Fralda".