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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Aprender a criar (e a programar telemóveis)

Por João Paulo Batalha*



Às vezes sinto-me entalado pela História. Nascido em 1978, fui educado no séc. XX mas vou viver no séc. XXI. Quer dizer, a idade em que me diziam “tu não tens quereres” durou até mil nove e noventa e tal; as contas para pagar começaram a vir pela passagem do milénio. Bill Gates e Steve Jobs lançavam a revolução do computador pessoal mais ou menos pela altura em que eu entrava na escola. Tive de ir aprendendo a lidar com um mundo tecnológico ao mesmo tempo que ele ia sendo inventado. Nenhum primeiro-ministro me deu um magalhães para eu me entreter e, nos intervalos de me entreter, talvez aprender alguma coisa.

De modo que me sinto sempre ridículo a manusear um touch-screen. Hesito. No screen com que eu cresci, não era por pormos os dedos no ecrã que os actores da Globo iam para a direita em vez da esquerda. Só servia para a minha mãe se chatear porque tinha de limpar as dedadas. Acharei sempre natural que um touch-screen não funcione quando eu lhe toco (e não funciona mesmo; eles cheiram o medo) e que alguém que vá a passar perceba que eu sou apenas um idiota a tentar tocar um mundo que não é o meu.

Os miúdos de hoje não. Já nascem neste mundo tecnológico maduro. É por isso que quando um miúdo de dez anos me programa trinta tons de toque diferentes no telemóvel, consoante quem me ligue, o meu instinto é amuar. Raios, parece que já nascem ensinados! A questão é que não nascem. A tecnologia é-lhes intuitiva, sim, e isso abre-lhes imensas oportunidades, claro. Mas entre a oportunidade e a recompensa está a obra. O trabalhinho. E esse é mais importante hoje do que era no tempo dos meus pais, quando o emprego era mais certo e era para a vida.

Por isso não posso amuar. Tenho de me sentar ao lado do miúdo, eu que cresci com dois canais de televisão (mais o Tal Canal), e pedir-lhe que me ensine uma tecnologia que me irrita, que me faz sentir um homem lento num mundo rápido. Preciso das lições de um miúdo de dez anos para me manter um homem inovador (parece que isso hoje é a chave de todas as coisas), mas preciso sobretudo de lá estar para lhe pagar a lição.

Os gadgets têm vida curta e há sempre uma coisa nova para nos entretermos (juro que me parece que, literalmente de uma semana para a outra, toda a gente em Portugal arranjou um iPad). Entregarmos as crianças ao magalhães, à TV Cabo e à Internet e admirarmos a sua habilidade com as tecnologias não chega. No que toca a educação, sou um espartano: sou aquele tio que oferece prendas pedagógicas, mesmo que mais aborrecidas. Abre-se, não é tão divertido como a arma de brincar ou a consola de jogos, fica de lado. Tanto pior. Vai devagarinho. Insiste-se, puxa-se pela cabeça da criança – e na cabeça de uma criança livre cabe muito mais imaginação do que na de mil programadores de vídeojogos.

Porque o ponto é este: um jogo, um filme, um site – mesmo um brinquedo – são a imaginação de outra pessoa. São o ponto de vista de outro. Saber manuseá-los, consumi-los, é óptimo. É literacia tecnológica. Mas literacia não chega. Se formos pais conscientes, queremos que os nossos filhos aprendam a consumir, claro (melhor do que nós, de preferência, com mais inteligência e menos dívida acumulada). Mas, melhor do que consumir, queremos que os nossos filhos aprendam a criar.

É esse o negócio que tento fazer com um miúdo de dez anos que me programa os toques de telemóvel: maçá-lo com perguntas. Porquê assim? Porque não assado? Para que serve isto? E para que poderia servir? É este o negócio: ajuda-me a usar as ferramentas que alguém criou, e eu tento ajudar-te a criar as ferramentas que alguém há-de usar.

*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Amor em tempos de crise

Por João Paulo Batalha*

foto: Edouard Boubat


Desta vez quero falar de economia. Eu sei que é um tema sumamente aborrecido, com pouco lugar num blogue sobre o que é sermos crianças e sermos pais e educadores. Mas quero falar disso porque já me aconteceu várias vezes ouvir os meus pais pedirem-me desculpa pelos falhanços, dizem eles, da sua geração.

Os meus pais eram pouco mais do que adolescentes quando eu e os meus irmãos nascemos. Pensando bem, eram pais ao mesmo tempo que estavam a aprender a ser adultos e, vendo as coisas assim, é um pequeno milagre que se tenham safado tão bem como safaram (e não estou a dizer com isto que criaram filhos espectaculares; estou só a admitir que as minhas falhas, que as tenho e várias, são culpa inteiramente minha; não tenho traumas nem álibis que comodamente desviem as culpas).

Tenho a agradecer-lhes isso. Mas os meus pais olham o estado geral das coisas e acham que devem um pedido de desculpas à minha geração. Eles, que tinham vinte ou vinte e poucos anos quando em Portugal se fez uma revolução que nos livrou de uma ditadura e de três guerras simultâneas, olham para o que fizeram e pedem desculpa.

Os meus pais distribuíam propaganda contra o regime no liceu, antes do 25 de Abril. Escreviam slogans contra a guerra nas paredes, pela calada da noite. Mas não foram eles que fizeram o 25 de Abril, dizem-me. E têm razão. Os chefes militares eram da geração anterior, como os chefes políticos. Os miúdos, como os meus pais, faziam barulho, protestavam (os que protestavam), foram participantes, não protagonistas.

Hoje olham, olhamos todos, para o estado do país e sentimos o desânimo. Habitamos a cidade da poeira cinzenta e fininha da resignação triste de que falava a Constança. Os pais pedem desculpa aos filhos porque temem estar a legar-lhes uma vida pior do que a que eles tiveram. Devia ser ao contrário, sentem os pais. Os filhos merecem melhor do que os pais, porque é isso que é justo. É assim que devia ser.

Eu não sei o que responda. Eu sinto-me mal representado na elite portuguesa, nos políticos, nos empresários, nos líderes em geral. Eu sei que a crise é séria, é grave e que nos vai fazer doer. Sei que vivemos durante anos numa tolice irresponsável em que nos ensinaram que tudo era fácil e imediato, e que a modernidade estava em exibir o grande carro, em vez de o grande carácter. E sim, este clima foi criado pela geração anterior à minha.

Devem-me um pedido de desculpas? E será que os jovens pais de hoje, que lutam para pagar infantários (ou apenas os livros escolares, ou apenas uma refeição quente por dia) devem um pedido de desculpas aos filhos? Nada nos resta então, senão a penitência e melancolia triste do fracasso?

Eu lembro-me de uma dedicatória num livro de poesia. A Sophia de Mello Breyner dedicava poemas ao marido, Francisco Sousa Tavares, “que me ensinou a alegria do combate desigual”. A poesia, tecnicamente, só começava na página seguinte, mas aqui já estava tudo. O combate desigual, naquele tempo, era contra a ditadura. A ditadura contra a qual os meus pais colavam cartazes – acção inconsequente, talvez, mas parte desse combate desigual, e da alegria desse combate desigual.

Hoje, sim, acabaram-se as certezas. O mundo é incerto e dá luta. Temos de inventar o nosso lugar dentro dele, já não há prateleiras onde nos podemos arrumar em bom e surdo sossego. O mundo é incerto e dá luta. Temos de desbravar o caminho nele; e temos de aprender o gozo disso, o prazer do inseguro, tentar, falhar e recomeçar. Reinventar tudo porque podemos. Construir-nos, descobrir-nos – e mudarmos de rumo porque sim, porque nos puxa a curiosidade de saber o que está para lá da outra colina.

Roubaram-nos as certezas? As seguranças? As deduções fiscais? Roubaram, sim senhor, ou deixaram-nas morrer de velhas e de podres. Mas se em troca nos ensinarem esta liberdade livre, esta liberdade clara e real e sem conforto, esta liberdade sem fundo e sem limites, então, digo eu, durmam descansados. Estamos quites.
  
*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Gravidez não é doença (a não ser na Suécia)


Por Patrícia Lamúrias*

Gravidez não é doença. Não há grávida que não oiça a frase. Ao mínimo sinal de desconforto, ao simples desabafo sobre a vontade de nada fazer, à mais pequena hesitação sobre se deveria ou não executar alguma tarefa mais complicada, lá vem a frase batida: gravidez não é doença. Pois não. Gravidez não é doença, quer dizer, até é, mas ao contrário.

Eu explico: estar grávida é uma sensação estranha, ficamos expectantes sobre o que está a acontecer no nosso corpo, só conseguimos pensar naquilo, parece que mais nada no mundo tem importância. Não é assim que muita gente se sente quando está doente? Só que quando estamos grávidas tudo isto é por uma boa causa. Daí que seja doença, mas ao contrário. Em bom.

Porque estar grávida muda tudo. A cabeça depressa se perde em pensamentos sobre bebés minúsculos e indefesos que vão depender de nós e quase só de nós, roupinhas fofinhas, quartos cores de sugus, fraldas e cremes nunca antes vistos, mamas a deitar leite, noites que nunca mais vão ser iguais, o corpo a abrir-se e gritos de dor, a vida toda de pernas para o ar. E será que vai correr tudo bem? Será que eu vou estar à altura? Será que sou capaz? Será que é tão bom como dizem? Será que é tão mau como pintam? São milhões de perguntas (quase todas sem resposta) que vão e vêm todos os dias, a toda a hora, ao mesmo tempo que o corpo muda e dá sinais que nem sempre reconhecemos.

E isto é mau? Não. É óptimo. Maravilhoso. O maior desafio de uma vida. Mas seria melhor se nos pudéssemos concentrar ainda mais neste estado diferente de todos os outros. Não digo deixar tudo para trás e não fazer mais nada durante nove meses (se bem que até era bastante agradável), mas ter oportunidade de reduzir o horário de trabalho ou de ir para casa um mês ou dois antes da data prevista para o parto. É que ter um filho dá mesmo muito trabalho e, afinal, é um bem que estamos a fazer ao mundo. O mundo precisa de crianças!

Ter lugares nos transportes (depois de ter que pedir), deixarem-nos passar à frente na fila (ainda que com má cara) ou ter lugar para estacionar no shopping (quando não estão abusivamente ocupados) é muito útil mas não chega. Trabalhar com um bebé na barriga é complicado. Nem a cabeça nem o corpo ajudam. E ter um bebé nos braços sem ter pensado e amadurecido bem a ideia, sem ter descansado o suficiente, sem ter preparado toda a logística necessária também é complicado. Nada ajuda.

Há mulheres que conseguem fazer tudo. Não me admiro. Somos todas diferentes. E há quem goste e faça questão de dizer a toda a gente que quer trabalhar até ao dia do parto. Eu estive de baixa nos dois últimos meses de gravidez e foi o melhor que me podia ter acontecido. Tirando o susto inicial de que a minha bebé poderia nascer antes do tempo, foi óptimo. Praticamente não me podia mexer e mal saí de casa, mas era exactamente isso que eu estava a precisar. Concentrei-me em mim, nas mudanças. Ouvi o meu corpo. Senti a gravidez. E quando chegou a hora senti que estava mesmo pronta.

Eu sei que isto (para já) parece impossível. Que a discussão ainda está em ter uma licença de maternidade decente, em não se ser despedida por estar grávida. Mas, andei a pesquisar e, felizmente, não estou sozinha na luta. A União Europeia já lançou a discussão em 2009, com os seguintes argumentos: «proteger a mulher de qualquer pressão do empregador» para «evitar o risco de partos prematuros» (que, como se sabe, estão a aumentar), e «proteger a mulher da fadiga do trabalho e dos transportes».

A conversa não terá dado ainda grandes frutos, mas é um começo. Para alguns, que outros já vão bem adiantados, como a Suécia, que prevê uma licença pré-natal de oito semanas e possui um sistema de licença parental flexível que pode ser transferido para o pai da criança e ir até às 75 semanas. Lá chegaremos. Acredito.


*Patrícia Lamúrias é mãe e jornalista na revista Pais e Filhos.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Hiperactividade ou falta de educação?

Por Bárbara Wong *


Acreditem que estou convencida que a “hiperactividade” existe, que é uma doença e que deve ser medicada, tratada, acompanhada, etc. Contudo, conheço casos diagnosticados como “hiperactividade” e a mim não me parece mais do que falta de educação.

Senão, vejamos:

G., seis anos, diagnóstico: hiperactividade. Na escola, a professora queixou-se que o menino era muito agressivo, atirava-se para o chão a gritar e a espernear quando a docente o mandava ficar quieto, sentado, a fazer os trabalhos, como aos outros. Pontapés nas pernas da professora, queixou-se a mesma.

Eu lembro-me do crescimento de G. . Desde bebé em frente ao televisor, as refeições foram (e continuam a ser) feitas com um pequeno ecrã de DVD em cima da mesa, para que a criança coma em sossego e não faça barulho, concentrada que está nos desenhos animados.

As brincadeiras envolvem sempre lutas, guerras, bater e “morrer”. Há lá coisa mais feia que ouvir uma criança de três anos, com ar zangado a dizer: “Vou-te matar!” e sermos surpreendidos com um murro no nariz? Aconteceu-me, não achei graça, peguei-lhe nos pulsos, olhei-o nos olhos e disse-lhe em tom muito sério: “Não. Nunca mais voltes a fazê-lo”. Remédio santo, nunca voltou a acontecer, ganhei o afecto de G., mas não o dos pais. “Somos incapazes de falar-lhe assim, estava a brincar”, censuraram-me.

G. corre atrás do gato da avó, agarra-o, aperta-lhe a cauda e o bicho arranha-o. Culpa do animal que é muito arisco, dizem os pais. G. replica a mesma brincadeira com o cachorro da família, que o mordisca. Castigo para o animal, decidem os pais. G. brinca com os primos e amigos que depressa não querem brincar com ele. O problema é dos outros. Hiperactividade e aquele xarope que o acalma. Má educação, digo eu.

J., quatro anos, o terceiro filho, faz uma diferença de oito anos da irmã mais velha e cinco da do meio. “Quero um chupa”, grita desalmadamente, às sete da manhã, dentro do carro. A mãe corre as pastelarias todas, abertas àquela hora, à procura do chupa que não existe. Ele não desiste e grita durante uma hora, até que o supermercado abre e o chupa aparece na sua mão.

O menino pára de chorar, de rosto fechado diz: “Não quero”. “Vou dar à M.”, responde-lhe a mãe. “Não. É para o lixo. Lixo” e os gritos recomeçam. Estava zangado porque as irmãs foram para fora e ele ficou sozinho, justificam os pais. Para a próxima, as meninas não sairão de casa, decidem.

Castigadas as filhas, mas não o menino a quem são feitas todas as vontades. É preciso termos paciência, desculpam os pais. Não quer comer com a família porque “andou a petiscar antes do almoço”; quer sentar-se no lugar do avô ou do tio, “é só desta vez”, pedem; ou grita “calem-se todos, calem-se todos, calem-se todos” enquanto os adultos tentam conversar, “gosta de chamar a atenção”, riem-se os progenitores. Má educação, digo eu, exasperada e logo recebo um olhar de censura.

Há sempre uma desculpa para não assumirmos as nossas funções. No fundo, no fundo, a esperança dos pais (os de J. não estão sozinhos) é que a escola remedeie a situação. Se a escola não conseguir, haverá sempre um medicamento que adormecerá a falta de educação destes miúdos e a venda desses fármacos continuará a aumentar, como dizem as notícias.


* Bárbara Wong é jornalista do Público, especializada em assuntos de Educação, e autora do livro "A Escola Ideal: como escolher a escola do seu filho dos 0 aos 18 anos" (ed. Sebenta, 2008)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Já imediatamente!

Por João Paulo Batalha*


O meu avô adorava birras. Homem austero e disciplinado, como a época exigia a qualquer bom chefe de família, perdia-se por uma boa birra (por boa birra entenda-se “quanto pior melhor”, sábio critério).


Para nós, miúdos, era desconcertante:

- Mãe, quero água!

- Como é que se diz?

E antes que nós, com a resignação da derrota, lhe recitássemos o “sefáxavor” logo interrompia o meu avô:

- Já, imediatamente!


Nunca soube reagir a isso. Que diabo, eu bem sabia, mesmo que nem sempre me apetecesse, que os meninos bem comportados dizem se faz favor, não dizem já imediatamente! De modo que este incitamento à subsersão, ainda para mais vindo do avô distante que não brincava connosco nem oferecia prendinhas, era bastante assustador.

Este apelo ao descaminho denunciava um mundo em que, afinal, as regras nunca são absolutas. Agora ensinem isto a uma criança habituada a ouvir (e muito bem) “não porque não!” e “porque eu sou a mãe e eu é que mando!” e é todo um horizonte de perversas liberdades que se abre. De hipóteses alternativas, de argumentação (a argumentação possível a uma criança, claro). De livre-pensamento se quisermos ser pretensiosos. De birra, para sermos justos.

Uma vez, não muito antes de morrer (já eu era crescidinho), o meu avô descartou a minha imagem de moço pacato e ordeiro acusando-me uma costela anarquista. Ele lá sabia. E disse-o com certo orgulho. Para um homem que viveu tanto de regras, a possibilidade do desgoverno era atraente. Atraente nas crianças, insuportável nos adultos. Quando crescemos, que remédio, temos obrigação de saber o que é a vida, engolir os sapos e seguir em frente. Quem não o faz não é sério. Mas se somos miúdos, a birra é a autonomia. É a individualidade, é a nossa independência.

De modo que eu partilho com o meu avô este defeito: sou mau pedagogo. Com crianças à volta gosto de provocar e desencaminhar. Quando ensino alguma coisa é meio por acidente. Estou demasiado ocupado a provocar birras, a convocar alternativas. Demasiado ocupado a aprender com essa desordem criativa que tira as coisas dos lugares onde as arrumámos e as reinventa – essa desordem brilhante que nos reensina, se a ouvirmos, o sentido de tudo. Estou demasiado ocupado a divertir-me.

*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A escola ideal




Por Bárbara Wong*

A pedido do Bebé Filósofo escrevi este post. Aqui vai:

Sabendo que escrevo sobre educação, colegas de profissão, leitores do PÚBLICO e amigos perguntam constantemente: “Conheces a escola x? O que te parece a escola y?”. Por isso, em 2008 decidi escrever "A Escola Ideal: como escolher a escola para o seu filho dos 0 aos 18".

Há escolas com equipamentos de topo, com chãos amortecedores de quedas, escorregas e câmaras de filmar (o que para mim é assustador! Há quem pense que a câmara o ajuda a proteger o filho e não pensa que está a invadir privacidade da criança)... MAS, com um corpo docente fraquinho, que muda anualmente, que não desafia as crianças, pouco comprometido.

Há escolas que parece que pararam no tempo, com mesas com ângulos afiados, com demasiados degraus, que quebram algumas regras de segurança... MAS com um corpo docente espectacular, familiar e profissional.

Há escolas novas com bons profissionais e escolas velhas onde tudo é mau... MAS não há escolas ideais porque, por muito boa que a escola seja não é como nós realmente idealizamos, porque as escolas são feitas de/por pessoas.

No livro, além de calendários para planificar todo o processo de procura, visitas e tomadas de decisão, proponho um gráfico para os pais preencherem à medida que vão conhecendo as escolas em que estão interessados, este depois de preenchido pode ajudá-los a escolher. Além de conselhos objectivos, acrescentei informação prática sobre matrículas, calendarização das mesmas e afins. Sem esquecer as crianças com necessidades educativas especiais ou situações como mudar de escola a meio de um ciclo.

Em resumo: O que é que os pais devem ter em conta na hora de escolher a escola? O corpo docente, o projecto educativo, as instalações e nunca, mas nunca escolher sem fazer uma visita. Se a direcção não abrir as portas, esqueçam, não vale a pena. As escolas não devem ter segredos para os pais.

No dia do lançamento de A Escola Ideal, a mãe de uns amigos dos meus filhos veio dizer-me que estava satisfeitíssima porque tínhamos os filhos na mesma escola, logo, aquela só podia ser a melhor do país! Eu não tenho dúvidas, MAS conheço pais que tiraram de lá os filhos para os por noutras ainda melhores! O que é que isto significa? Que nem todos procuramos a mesma coisa!

*Bárbara Wong é jornalista no "Público" há 13 anos, especializada em temas de Educação, Ensino Superior e Família. Em 2005 ganhou o prémio de jornalismo "A Família e a Comunicação Social", com um texto sobre os pais que partilham tarefas com as mães, intitulado “Um homem na sala e na cozinha”.



Em 2008 publicou o livro "A Escola Ideal: Como escolher a escola do seu filho dos 0 aos 18 anos". É co-autora, com a professora Ana Soares, do blogue Educar em Portugues. É casada e mãe de um rapaz e de uma rapariga.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Quero-te mostrar uma coisa!

Por João Paulo Batalha*

- Anda cá!


- Para quê?


- Vá lá!


- Mas para quê?


- Quero-te mostrar uma coisa!


Este diálogo é muito frequente na minha vida, nos dias que correm. Não tenho filhos mas estou naquela posição muito confortável de ter acesso permanente aos filhos dos outros – entre sobrinhos, filhos de amigos, irmãozinhos pequenos e primos (muito) mais novos. É uma posição muito confortável, digo eu e outros na mesma situação, porque podemos brincar com eles à nossa boa vontade, ensinar-lhes coisas que não se fazem – e passá-los para os braços da mãe na hora de mudar a fralda.

Por isso mesmo este diálogo é muito frequente na minha vida. Passá-lo a escrito tem um efeito estranho (já repararam que as crianças falam em exclamações e os adultos em interrogações?). Em primeiro lugar, “quero-te mostrar” não se diz. “Quero mostrar-te”, se faz favor – embora, em boa verdade, acho que nunca corrigi uma criança que me tenha dito isto. E não planeio corrigir. Há coisas mais importante em jogo.

As crianças nunca querem conversar connosco, mesmo quando acabam conversando. Querem sempre mostrar-nos alguma coisa. Ou contar-nos um segredo (o que, reconheça-se, não é propriamente conversar). Cada vez que um diálogo como este me interrompe a leitura do jornal ou a conversa com os crescidos lembro-me de outra coisa boa em ser criança: palavras leva-as o vento e não há como pôr a mão na massa.

Para mim, que trabalho a planear experiências para crianças, é uma lição valiosa. A mentalidade das mentes crescidinhas é demasiado verbal. Assenta demasiado nas palavras que lemos nos livros e nos artigos de jornal, ou nas palavras que ouvimos nas conversas que temos ou nos comentadores da rádio e da televisão. Ao ponto de nos fartar, quase irritar, tanta palavra atirada à rua. “A falar é que a gente se entende”. Sim, claro. Mas é a viver que a gente... vive! (bendito La Palisse!)

Tudo isto para dizer isto: porquê explicar se podemos experimentar? Porquê falar de uma coisa se podemos vivê-la? Palavras leva-os o vento. O desafio por isso, para mim que trabalho em contar às crianças histórias de gente crescida, é sempre o mesmo: sair da segurança escrita dos livros e saber criar, a partir desses indispensáveis livros, histórias que se possam tocar, onde se possa entrar – entrar fisicamente – mexer e descobrir. Contar histórias, sim, mas histórias que nos deixem puxar pelo braço dos miúdos e dizer-lhes: “Quero-te mostrar uma coisa!”.

*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Salve o seu filho. Pergunte-me como.


Por João Paulo Batalha*


Há 15 anos atrás eu era jornalista de rádio. Há dez era copy-desk de um site Internet. Há cinco era colaborador freelancer de projectos de comunicação institucional. Hoje sou consultor de comunicação e produtor de conteúdos museológicos para públicos infantis. Quando era garoto queria ser jornalista, mas não me licenciei em Jornalismo. Estudei Direito sem alguma vez querer ser advogado. Formei-me em História, mas nunca quis ser historiador.


Com o evoluir dos anos habituei-me à ideia de que a minha profissão demorava cada vez mais tempo a enunciar (e ainda mais a explicar) e de que o curso que estava a tirar, fosse qual fosse, não tinha qualquer relação directa com o meu trabalho. Hoje olhamos para trás, para os bons velhos tempos de tanoeiros e azeiteiros e marceneiros e torneiros mecânicos, profissões de homem, coisa rija cujo impacto é óbvio e imediato, e sentimos como o mundo mudou.


Hoje em dia, dizem-nos – e dizem-nos com razão – que grande parte de nós tem profissões que não existiam há 50 anos. E que estamos a educar os nossos filhos para profissões que ainda não existem hoje. Que raio lhes havemos de ensinar? As oitavas decassilábicas dos Lusíadas? A tragédia de Alcácer-Quibir ou o milagre de Ourique? 2 e 2 são 4? O que é que isso interessa, daqui a 20 anos, a um designer de modulação omni-gravitacional? (sim, estou a inventar, eu sei, mas fossem dizer ao meu avô, há 30 anos, que o neto ia ser copy-desk de um site da Internet; que diria ele, “em minha casa nunca!”?)


Nada nos consola, frente à incerteza, como um bom chavão. Aqui vai um: vivemos na sociedade da informação. E mais outro: para sermos competitivos, temos de orientar o nosso sistema educativo para a inovação e o conhecimento. Pronto. Quem não quiser saber do problema pode dormir tranquilo na certeza de que mentes capazes estão em cima do assunto. Quem se interessa percebe facilmente que os chavões, além de darem consolo aos indolentes, não avançam grande coisa.


O que é afinal educar para a inovação e o conhecimento? No tempo da outra senhora, sobre o qual as velhinhas suspiram porque havia trabalho e havia respeito, a escola ensinava um ofício (e ensinava também, para não haver cá ideias, que manda quem pode e obedece quem deve). Depois da Revolução descobriram que a escola devia ser um palco para a felicidade, sem lugar para coisas traumatizantes, de exigência e rigor. Hoje parece que o futuro são quadros electrónicos e computadores portáteis pequeninos com jogos de pinguins.


Tanto faz (não é tanto faz, claro. A diferença entre uma escola boa e uma má é um futuro ganho ou perdido). Mas de uma maneira ou de outra a escola vai sempre servir para definir (bem ou mal) um conjunto de saberes essenciais e tentar metê-los (bem ou mal) na cabeça das nossas crianças. E ainda bem. É para isso que ela lá está. Mas isso, voltando ao chavão, não é capacitar para a inovação e o conhecimento. Não é isso que faz um bom designer de modulação omni-gravitacional. Saber ler, escrever, contar, isso é só uma parte.


O resto é connosco. Connosco pais (e irmãos e tios e primos), connosco jornalistas (ou copy-desks de sites de Internet), connosco programadores culturais, médicos, funcionários públicos, tanoeiros, azeiteiros e torneiros mecânicos, todos nós que andamos na vida uns dos outros. Porque o resto, aquilo que fica a faltar depois de termos aprendido tudo o que a escola tem para nos meter na cabeça, é aprender a pensar. Mais do que isso, é aprender a criar.


E isso faz-se – isso só se faz – exercitando a liberdade, esse músculo caprichoso que atrofia com a rotina e morre com a resignação. Não é ensinar as respostas, como faz a escola, como deve fazer a escola. É ensinar as perguntas. É pôr na educação que damos aos miúdos (e já agora, na educação que nos damos a nós próprios) a vertigem da descoberta, o gozo imenso da incerteza. É pôr arte na nossa vida, não como um luxo mas como um meio, uma fonte de perguntas, um desbloqueador de imaginações. Porque nesse futuro que não existe e que nós não imaginamos, não ganha quem souber as respostas. Ganha quem souber as perguntas.


*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças.

terça-feira, 9 de março de 2010

Põe-te na rua!

Por João Paulo Batalha*





De vez em quando recebo daqueles e-mails em cadeia (que desconfio ser sempre o mesmo e-mail) recordando as doçuras de ser criança nos anos 80: brincávamos na rua e comíamos terra e não morríamos. Andávamos de carro sem cinto de segurança (eu ia com irmãos e primos para a praia do Guincho empoleirados aos sete e oito e nove em pé no banco de trás de um Citröen Diane, as cabeças de fora ao vento para cabermos todos) e não morríamos. Íamos sozinhos a pé para a escola e não morríamos.



O não morrermos parece ser um ponto recorrente destes e-mails em cadeia – e, de facto, é argumento de mérito. Pois eu também não morri. Mas, verdade seja dita, não recordo com grande nostalgia a beleza inocente de tempos mais simples. Não me lembro dos desenhos animados dos anos 80 que tanta saudade causam – eu dormia, durmo e conto continuar a dormir até tarde aos fins-de-semana. Lembro-me só vagamente dos sugos e das bombocas e dos doces que consta que já não se fazem como antigamente.



Acho mal que as crianças já não brinquem na rua. Mas mesmo isso, para dizer a verdade, acho mal em abstrato. Quando era miúdo vivíamos, pai, mãe e três irmãos, numa casinha apertada em S. João do Estoril. Tínhamos a praia quase ao lado, a serra não muito longe e, na altura, descampados a fartar, invulneráveis à urbanização, mesmo ao pé de casa.



Mas a verdade é que sempre fui muito caseiro. Nunca gostei de jogar à bola (o que calhava bem, porque sempre fui muito mau nisso). Ficava em casa a ver televsão. Uma vez um relâmpago acertou-nos na antena e queimou-nos o televisor. A minha mãe recusou-se a consertá-lo. Descobri a leitura. Depois veio o computador (parece hoje ridículo aplicar o termo “computador” àquilo). ZX Spectrum, nome feliz porque, ao arrancar, o ruído que fazia parecia de facto convocar os espectros. Os jogos eram de uma simplicidade ridícula, com umas cassetes que se inseriam não me lembro bem onde e chiavam desgraçadamente durante dois ou três minutos antes de nos fornecerem um passatempo estúpido e pouco desafiante. Ah, o PacMan, que saudade!, dirá o e-mail.



Para brincar na rua, as mais das vezes, só por expulsão. Os meus pais fartavam-se de nos ver em casa e punham-nos na rua. Vão brincar lá para fora! Nunca os denunciámos à linha de apoio à criança. Que não havia, na altura. E nunca morremos (o que é argumento de mérito). De resto, pôr as crianças na rua era boa ideia, mas não era por sermos crianças. É porque, de vez em quando, é bom pormo-nos na rua, ponto. Mesmo que tenhamos 80 anos. Mudar de hábitos, experimentar novidades, sacudir a complacência. Tudo isso é sempre bom e não tem idade. E afinal, também se fazem muitas coisas boas e úteis dentro de portas. Garotos caseiros também são boa gente.



Hoje as crianças já não brincam na rua. Não é seguro. Os pais vivem aterrorizados com histórias de ladrões e assassinos, de condutores bêbedos que as atropelam e passagens de nível sem guarda – ou faz chuva e cai granizo e caem-nos as crianças com pneumonias. Claro que a maioria destes receios são irracionais e a nossa percepção do risco é espectacularmente exagerada. Claro. Mas está disposto a apostar nisso a vida do seu filho? Pois. De modo que hoje as crianças já não brincam na rua – como nós brincávamos e não morríamos. É uma pena. Uma autêntica tragédia. Um mal irreparável.


Bom. Mudam-se os tempos mudam-se as vontades, muda-se o ser muda-se a confiança e por aí fora. Eu também nunca brinquei muito na rua e sou normal.


Mais ou menos.




*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Controlar o ímpeto de elogiar!

Por Bárbara Wong*





Não é por serem nossos filhos, mas eles são mesmo lindos, inteligentes, divertidos, boas pessoas, etc, etc... Enfim, tudo de bom! E nós não nos cansamos de o dizer! Lá em casa, acreditamos que a promoção da auto-estima torna-os mais seguros de si mesmos, que os ajuda a gostar deles e a serem melhores. Mas, por vezes, caímos no ridículo.

Ele faz um traço, olhamos maravilhados e dizemos: “Tens mesmo jeito, talvez possas pensar numa carreira na arquitectura”. Ela dança e canta: “Podias actuar na Broadway!”. Ele tem um paladar apurado: “Quem sabe não serás um afamado cozinheiro ou crítico gastronómico?”. O sentido de humor deles é imparável: “Gato Fedorento, cuidem-se!”

Às tantas, eles gozam connosco: “Ai, vejam bem, vejam bem, como ele é tão bom a abrir a mãozinha, olhem! Ai, a mãozinha aberta e agora... Fechada! Ai que inteligente!”, diz ele, com mais cinco centímetros do que eu, a imitar-me a voz e os movimentos. “Olhem como ele sabe tão bem despejar o lixo, talvez vá para almeida!”

Contudo, desde que li Choque na Educação – Como os nossos erros estão a afectar os nossos filhos e o que podemos fazer para educá-los melhor, do jornalista Po Bronson e da educadora Ashley Merryman, publicado pela Lua de Papel, e citei algumas partes ao pai, que controlamos o nosso ímpeto de elogiar.

Bronson e Merryman lembram que A Psicologia da Auto-Estima, de Nathaniel Branden publicada em 1969, defende que a auto-estima é a qualidade mais importante de uma pessoa. E que, desde então, esta ideia teve uma enorme repercussão na sociedade americana com consequências. De repente o culto da auto-estima servia para combater todos os males da sociedade. Por exemplo, em 1984, a Califórnia introduziu legislação que promovia que nas competições os treinadores de futebol deixassem de contar os golos e passassem a dar troféus a todos; os professores deixaram de corrigir a vermelho, tudo para não prejudicar a auto-estima dos mais pequenos.

Segundo uma meta-análise feita a 200 estudos sobre o tema, concluiu-se que “uma elevada auto-estima não melhorava as notas nem o sucesso profissional. Nem sequer reduzia o consumo de álcool. E muito menos contribuía para a diminuição de qualquer tipo de violência”.

Na verdade, os elogios às crianças podem ter um efeito contrário: “os alunos elogiados passam a evitar correr riscos e a sentir-se menos autónomos (...); [têm] uma menor persistência na execução de tarefas (...). Quando chegam à universidade, os alunos muito elogiados desistem frequentemente de disciplinas quando estão em risco de receber notas medíocres e têm dificuldades em escolher uma major – têm medo de se comprometer com algo porque têm medo de falhar.” Mais. Quando crescem, estas crianças tornam-se adultos competitivos e interessados em destruir os outros porque têm que preservar a sua imagem.

Depois de lermos e comentarmos estas páginas constatamos que algumas destas coisas já aconteciam: “X” não se esforça porque tem medo de errar; “Y” é pouco persistente. Mudamos o registo de comunicação. Agora dizemos: “Nada se consegue sem esforço. É preciso trabalhar. Tens que pensar. O cérebro é um músculo que tal como os abdominais tem que ser trabalhado.” Deixámos de elogiar o global – “és tão bom!” - e passamos ao particular, a elogiar a persistência, o trabalho concreto, o esforço que fazem para conseguir uma coisa.

Mas, entre nós, mãe e pai, continuamos a comentar como eles são fantásticos, maravilhosos e nos enchem de orgulho a cada dia que passa, ou seja, auto-elogiamo-nos-a-nós-mesmos (perdoem a redundância)!

*Bárbara Wong é jornalista no "Público" há 13 anos, especializada em temas de Educação, Ensino Superior e Família. Em 2005 ganhou o prémio de jornalismo "A Família e a Comunicação Social", com um texto sobre os pais que partilham tarefas com as mães, intitulado “Um homem na sala e na cozinha”.
Em 2008 publicou o livro "A Escola Ideal: Como escolher a escola do seu filho dos 0 aos 18 anos". É co-autora, com a professora Ana Soares, do blogue Educar em Portugues. É casada e mãe de um rapaz e de uma rapariga.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A importância do "não"

*Por Bárbara Wong

Eles estão na pré-adolescência, os seus rostos estão a mudar, as bochechas-gordas-que-apetece-comer desapareceram e na linha T começam a aparecer as primeiras borbulhas. Mas, de manhã, ainda não acordaram e as suas faces continuam a cheirar a bebé. Espreguiçam-se e esticam o corpo, tal e qual como quando eram recém-nascidos, e nós, os pais, ficávamos a olhar para eles, embevecidos.

Hoje, continuamos a olhar para eles embevecidos não porque se espreguicem, riem ou balbuciem, mas porque estão grandes, porque começam a ser autónomos e responsáveis.

Só que nem todos os dias são de embevecimento! Há dias de arrelias, de confronto porque estão a crescer, porque têm as suas opiniões e fazem questão de as defender. Mas é assim desde pequenos, os motivos de confronto é que vão mudando: primeiro, não querem comer a sopa e determinados fecham a boca; depois, não querem ir para a cama mais cedo...

Para todos estes momentos, a psicóloga espanhola María Jesús Álava Reyes, autora de vários manuais de auto-ajuda, publicados pela Esfera dos Livros, recomenda que os pais sejam coerentes. Nada de dizer primeiro que “não”, mas ao mínimo confronto fazermos a vontade à criança. As regras são fundamentais para que a criança tenha estabilidade e segurança.

"O não também ajuda a crescer", recém-publicado, é um livro muito prático que acompanha o crescimento da criança desde o momento que nasce até à idade adulta e é arrepiante quando se lê, lá mais para o fim, o que é que os filhos crescidos e com problemas dizem aos pais: Porque é que me deixaste fazer tudo o queria? Porque é que nunca me disseste que não?

No final de Janeiro, María Jesús Álava Reyes esteve em Lisboa e conversei com ela. Dizia-me que as crianças são muito diferentes e mudaram muito nos últimos 30 anos. Sabem mais, mais cedo; mas adquirem maturidade mais tarde. A culpa é dos pais, diz claramente. Somos nós que os superprotegemos, que lhes damos tudo, seja a comida favorita, seja o jogo que todos os outros têm.

No livro, María Jesús Álava Reyes explica: “Os pais têm de ser pais, não colegas, têm de assumir o seu papel e as suas funções, embora por vezes lhes custe; têm de ser capazes de orientar os seus filhos, favorecer o seu pensamento, o seu raciocínio, a sua sensibilidade, a sua sociabilidade, o seu auto-controlo, o seu afecto; ainda que por vezes pressuponha um esforço importante da sua parte; ainda que por vezes as crianças pareçam fechar-se nos seus argumentos; ainda que emocionalmente lhes seja muito difícil; mas têm de consegui-lo e para isso comportar-se-ão como adultos, falarão como adultos, estabelecerão as normas como adultos e, se necessário, reforçá-los-ão ou dir-lhes-ão “não” como adultos.”

Com María Jesús Álava Reyes não aprendi a dizer “não” porque essa é a palavra que os miúdos mais ouvem desde que nascem; mas aprendi que o “não” nem sempre precisa de ser explicado, que é o que sempre faço. Por exemplo: Se nos pedem para ir para a cama mais tarde e nós dizemos “não”, nada de ficar meia hora a justificar aquela decisão. Foi meia-hora que as crianças perderam de sono e ganharam com a sua teimosia. Basta dizer-lhe: “Já sabes que tens que ir para a cama cedo” e acabou!

No dia seguinte, lá estarei, embevecida, a vê-los acordar.

*Bárbara Wong é jornalista no "Público" há 13 anos, especializada em temas de Educação, Ensino Superior e Família.
Em 2005 ganhou o prémio de jornalismo "A Família e a Comunicação Social", com um texto sobre os pais que partilham tarefas com as mães, intitulado “Um homem na sala e na cozinha”.
Em 2008 publicou o livro "A Escola Ideal: Como escolher a escola do seu filho dos 0 aos 18 anos". É co-autora, com a professora Ana Soares, do blogue Educar em Portugues.
É casada e mãe de um rapaz e de uma rapariga.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O novo Ronaldo

Por Luís Milhano*

Quando era miúdo, lembro-me – claro que me lembro, pois essa criança ainda vive em mim – que o meu pai, como tantos outros, proibia-me de jogar à bola.
Fazer umas futeboladas na rua sim, mas nada de mais sério.

E o mais sério começava por ser a participação num qualquer treino de captação que os clubes organizavam para os jovens aspirantes a futebolistas.

Nessa altura, ser futebolista não era profissão, era uma brincadeira e só servia para distrair das verdadeiras prioridades da vida: estudar, tirar um curso e arranjar emprego para a vida.

Mas os tempos mudam e as vontades também. Os cursos deixaram de garantir empregos, os empregos já não eram eternos e, acima de tudo, o futebol começou a gerar milhões.
Foi então que os pais passaram a incentivar os filhos, ofereceram-lhes equipamentos completos e até os começaram a levar, com as devidas comodidades, aos treinos do clube mais próximo (muitos por troca com a escola).
Todos queriam ter em casa o novo Eusébio ou o novo Maradona e, com isso salvaguardar o futuro. Deles e dos filhos.

Mas no futebol, como em tudo na vida, só vingam os melhores e, no processo, perdeu-se muita gente que abdicou de estudar, desperdiçou oportunidades e falhou no sonho de ser um jogador mundialmente reconhecido. Ou melhor, um jogador principescamente remunerado.

Mas o processo – devidamente alicerçado numa comunicação social sedenta de novos ídolos – não parou e, hoje, os clubes já contratam pequenas vedetas de 12/13 anos e falam mesmo em descobrir o novo Cristiano Ronaldo. “O novo Cristiano Ronaldo” imagine-se! Já se fala em descobrir a nova versão de um jogador que tem apenas... 24 anos! Sinceramente não sei quem estava certo, se o meu pai super-protector, se os outros super-liberais.

Mas a virtude talvez esteja no meio. Como quase sempre.

* Luís Milhano, tem 42 anos, é formado em Antropologia e ocupa o cargo de editor-executivo do diário desportivo “Record”. Foi professor do ensino secundário antes de iniciar a carreira de jornalista no Diário de Notícias.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ter filhos faz bem ao coração

Por Sónia Morais Santos*

Perguntam-me: o quê??! Tens três filhos?! E uns arqueiam o sobrolho, horrorizados, como se tivesse três quistos, coisas feias e dolorosas e importunas. Outros, espantam-se, admiram-me a valentia, ah! Isso é que é coragem! E repetem, num suspiro cansado: três…


Às vezes, quando digo que gostava de ter outro, há quem dê gritos, cruzes, credo, valha-te Deus, então não chega já? então já tens dois rapazes, uma menina, vais agora meter-te noutra, para quê? Para quê?

Para quê. Eu sei lá para que é que temos filhos. Nuns casos pode ser porque sim, porque fomos como que programados para isso, desde tenríssima idade. Noutros casos pode ser porque o desejamos profundamente, porque queremos um bebé, porque chegou a hora, porque queremos prolongar a nossa vida noutras vidas, porque queremos ter um fruto de um grande amor, porque ansiamos por educar, por ver crescer. Temos filhos por uma destas razões, por todas estas razões, por nenhuma delas.

No meu caso, o primeiro filho chegou porque sim. Porque queríamos um bebé nas nossas vidas, porque nos amávamos e tinha chegado a hora.

O segundo veio, naturalmente. Mas aí, receei que o amor pelo segundo não chegasse aos calcanhares do primeiro. Estava tão apalermada com o primeiro que julguei ser impossível a repetição daquele sentimento. Impossível. Temi. Pior: acreditei nisso e culpabilizei-me. Apesar disso, afeiçoei-me à barriga, ao feto, conversei com ele, amei-o. Terei pedido desculpas pelas minhas dúvidas. Mas depois… depois quando nasceu percebi a dimensão do meu equívoco. Chorei tanto quando o segundo nasceu, quando chorou pela primeira vez, acabado de sair para o mundo. Chorei de paixão, porque percebi imediatamente, de modo visceral, brutal, animal, que esta coisa de amar os filhos não é dada a divisões mas antes a multiplicações. Ou seja: não há um coração que tem de se repartir. Há um coração que aumenta, a cada nascimento. E assim, ao segundo filho, o meu coração ficou maior.

E depois veio a necessidade do terceiro. Como se fosse um vício. O vício de gostar arrebatadamente. O vício de sentir o coração crescer. Como se já não soubesse viver de outra maneira, sem ser assim, com o coração dilatado dentro do peito. Quando a Madalena nasceu eu já não chorei porque já sabia o quanto gostava dela, o quanto ia gostar dela, já sabia que o amor pelos filhos não se divide, multiplica-se.

Por isso, quando me perguntam “o quê??! tens três filhos?!”, como se em vez de filhos falassem de quistos, coisas feias e dolorosas e importunas, eu sorrio. Limito-me a sorrir. Eles não sabem nem sonham mas o meu coração é maior que o deles. E a felicidade que carrega é enorme, é imensa, é desmesurada. E é por isso, também, que se calhar um dia destes ainda tenho outro. Só não estou segura de que, então, o coração me caiba todo dentro do peito.

* Sónia Morais Santos é mãe e jornalista. Autora e apresentadora do programa "Portugal dos Pequeninos" na Antena 1, assina ainda o blog "Cocó na Fralda".