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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Contracepção, consulta de ginecologia e adolescentes...Qual é a altura certa?

Por Filomena Sousa*

Ser médica-ginecologista e lidar com as filhas dos outros é quase sempre fácil, basta aplicar os conhecimentos teóricos e algum jeito para falar com adolescentes. Mas ser mãe e lidar com a própria filha adolescente é completamente diferente…

É como ginecologista-mãe de uma adolescente que vou tentar expor o meu ponto de vista:

Os adolescentes em geral gostam de ser ouvidos com atenção e detestam o chamado “sermão”. Claro que às vezes faz falta um sermão, mas também temos que lhes dar ouvidos e tentar ver as coisas pelos olhos deles, para melhor os compreendermos.

Cada família tem valores que deve transmitir aos filhos, para que eles os utilizem como entenderem. Não podemos mandar na cabeça deles mas podemos dar-lhes uma orientação.

Depois é necessário ficar atento para ir percebendo o que pode estar a acontecer, sem invadir a privacidade dos filhos.

O “boletim de saúde infantil e juvenil” (aquele livrinho cor-de-rosa que nos deram na maternidade há 14 ou 15 anos), tem algumas orientações que considero úteis.

Cada adolescente amadurece ao seu ritmo e não se pode dizer qual é a altura certa para falar de contracepção ou para levar a filha a uma consulta de ginecologia.

A maioria das adolescentes sabe perfeitamente como é que se engravida (daahh!)… e que ao ter relações sexuais pode ficar grávida ou apanhar uma doença… e que existem métodos para evitar estas consequências… E portanto não me parece que seja preciso “ensinar a missa ao padre”…

O que acho importante é partir do princípio que já sabem estas coisas e orientá-las pela positiva, para que utilizem os conhecimentos quando chegar a altura. Podemos pegar no exemplo de uma adolescente da telenovela ou de uma colega da escola que tenha ficado grávida e transmitir a convicção (mesmo que tenhamos sérias dúvidas…) de que acreditamos que a adolescente que temos à frente vai ser capaz de só ter relações sexuais se estiver preparada para o fazer e de se proteger, se for caso disso. É mais provável que se proteja se souber que estamos à espera que o faça do que se constantemente ouvir dizer: “Agora vê lá o que é que vais fazer, irresponsável como és, é bem possível que não tomes a pílula correctamente, nem uses preservativo…”.

O ser humano tem tendência a tentar corresponder às expectativas dos outros, por isso é bom que as filhas percebam que esperamos que sejam responsáveis e tomem a atitude certa.

Se os pais não se sentirem à vontade para falar sobre este tema, podem sempre comprar lá para casa uns livros sobre Educação Sexual para adolescentes. “Como quem não quer a coisa”, se a adolescente tiver curiosidade, vai acabar por folhear o livro ou até ler as partes que lhe interessam.

Se a adolescente referir queixas do foro ginecológico, ou os pais se aperceberem de que algo não está bem, então talvez seja prudente marcar uma consulta no Centro de Saúde ou mesmo no ginecologista.

É frequente as menstruações serem irregulares ou acompanhadas de dores abdominais, e na maior parte dos casos, isso não significa que se passa algo de grave. No entanto, algumas adolescentes já sabem que a pílula, além de ser contraceptiva, também alivia a dor menstrual e regulariza os ciclos, e alegam um motivo mais aceitável pelos pais para pedir uma consulta e eventualmente começar a tomar a pílula. Neste caso, os pais devem providenciar uma consulta para a filha e admitir que já não devem assistir a essa consulta, pelo menos na totalidade. Se a filha sair da consulta com uma receita de pílula isso também não significa que já tenha iniciado a vida sexual, nem que a vá iniciar em breve, e devemos respeitar a sua intimidade.

No caso de a adolescente ter necessidades especiais, por ter problemas de saúde, físicos ou psicológicos, então talvez devam ser os pais, ou os educadores, a tomar a iniciativa de ouvir a opinião de um especialista.

Se a adolescente não referir queixas e existir uma boa comunicação com os pais, não me parece obrigatório a jovem ser observada do ponto de vista ginecológico a partir de determinada idade, mas sim aquando do início da vida sexual.

Claro que não é fácil perceber se está na altura de levar a filha adolescente ao médico de família ou ao ginecologista, mas uma boa dose de afecto e compreensão podem ajudar a manter a comunicação e assim talvez consigamos espreitar pela janela do mundo da nossa filha, mesmo não podendo ficar à espera que ela nos abra a porta e nos convide a entrar… (com muita pena nossa, não é?).

*Filomena Sousa é médica, especialista em ginecologia/obstetrícia, trabalha em exclusividade no Hospital D.Estefânia onde se dedica à área da ginecologia da adolescência e do planeamento familiar.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A prevenção da gravidez na adolescência

Por Filomena Sousa*

Muito se fala da prevenção da gravidez na adolescência e muito se tem feito, mas por vezes parece que os esforços vão todos no sentido de uma maior divulgação e acessibilidade aos métodos contraceptivos.


Na minha opinião, estas iniciativas são úteis mas são a última etapa na prevenção da gravidez na adolescência, porque antes de iniciarem a vida sexual precocemente, muitas adolescentes já tiveram falta de afecto em famílias desmembradas, ocupação pouco saudável dos tempos livres, insucesso escolar e baixa auto-estima.

Uma adolescente que se sente acarinhada no seio de uma família, tradicional ou não,

uma adolescente a quem são incutidos hábitos de vida saudáveis, incluindo a prática de actividades extra-curriculares como o desporto ou a música,

uma adolescente de quem é esperado sucesso escolar e estimulada a construção de um projecto de vida,

dificilmente sente necessidade de se envolver em comportamentos de risco ou de iniciar a vida sexual.

Claro que, ao entrar na adolescência, a sexualidade desponta e leva a procurar contactos íntimos e novas sensações, que os adolescentes podem e até devem experimentar, mas sempre com responsabilidade e noção dos limites que querem, ou não, ultrapassar.

Tenho vigiado muitas grávidas adolescentes e não encontro mais riscos para a saúde física da mãe e/ou do feto, desde que a gravidez seja assumida, vigiada e apoiada pela família. Parece que a natureza nos preparou para ter filhos novas, mas a sociedade nos exige que os tenhamos mais “velhas”.

Partindo do princípio que vivemos numa sociedade que pede cada vez maior diferenciação profissional para se poder ter alguma estabilidade económica, de modo a criar os filhos sem ter que pedir ajuda, não há dúvida que na adolescência não estão reunidas todas as condições para ter um filho. Então há que prevenir, mas não basta investir na educação sexual nas escolas e na distribuição gratuita dos métodos contraceptivos. A prevenção da gravidez na adolescência tem que começar muito antes… ainda na infância.

*Filomena Sousa é médica, especialista em ginecologia/obstetrícia, trabalha em exclusividade no Hospital D.Estefânia onde se dedica à área da ginecologia da adolescência e do planeamento familiar.