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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Trabalham as crianças tanto como os adultos?

Por Maria José Araújo*

Em Portugal, as crianças que frequentam o 1.º Ciclo do Ensino Básico trabalham 5 horas na sala de aula (25 horas por semana). Depois têm actividades extra-curriculares ou de enriquecimento curricular e, ainda, os trabalhos de casa.

Tudo somado as crianças trabalham cerca de 7/8 horas diárias em função da socialização escolar. Um adulto trabalha cerca de 7 horas e meia por dia (37,5 a 40 horas semanais). Olhando para o tempo médio de um adulto e de uma criança, percebemos que as crianças trabalham no seu ofício de alunas tanto quanto um trabalhador adulto.

Para uma criança, o trabalho escolar, com tudo o que ele comporta de actividade, representa o exacto equivalente ao trabalho profissional de vida de um adulto. Mas enquanto a duração do trabalho profissional exige um grande descanso para a maioria dos adultos, o trabalho escolar é cada vez mais desenvolvido dentro e fora da sala de aula. Há mais de 20 anos que se fala de excesso e de malefícios físicos, psicológicos e morais para as crianças. A cultura escolar sobrepõe-se à cultura lúdica e é “imposta” na maior parte das actividades que são propostas às crianças e aos jovens no seu tempo livre, um tempo que não tem sido considerado como um tempo de descanso ou como um tempo em que eles possam escolher o que fazer. As actividades de lazer no tempo livre têm sido banidas, salvo se houver um feriado ou férias. A psicologia da infância e da adolescência, assim como as ciências da educação e a sociologia da infância, têm denunciado e reagido a este regime de trabalho escolar, que continua não só a ser praticado como até a ser desenvolvido, vulgarizado e disseminado.

As crianças vão reagindo inventando formas múltiplas de resistência a um trabalho cujo sentido não é explícito e muitas vezes é excessivo e cansativo. Não é tanto só a quantidade que é problemática (pois as crianças gostam de ter que fazer), mas por ser uma tarefa repetitiva, uma actividade constante que não vai ao encontro das realidades culturais e cognitiva e às motivações das próprias crianças, entre outras razões.

Na verdade, a escola é muitíssimo importante, mas depois das aulas as crianças têm de fazer outras coisas.

Têm de brincar e descansar.



Maria José Araújo é investigadora da Universidade do Porto

terça-feira, 25 de maio de 2010

Brincar é um assunto sério



Por Inês Torrado*


Vou focar apenas alguns apontamentos sobre a importância de brincar, como jogo livre, espontâneo, que se vai inventando, só ou acompanhado, ao longo do tempo.

O saber brincar é uma das actividades mais sérias desempenhadas pelas crianças. Na Carta dos Direitos da Criança, o direito a brincar é o VII Príncipio, tão essencial como o direito à saúde, à educação e à segurança.

E brincar ensina-se... brincando.

Os prazeres partilhados com os pais na brincadeira, são momentos únicos, por si e pelo valor que os pais dão ao jogo dos filhos. Não é um passatempo e muito menos uma perda de tempo.Ao partilhar um jogo com a criança, possibilitamos-lhe poder reproduzir essa brincadeira e depois reinventá-la a partir daí, sózinha ou com outros companheiros.

O jogo é o motor de todo o desenvolvimento psico-motor da criança.

A sua primeira parceira de jogo será a mãe (ou o pai...), depois as suas mãos, os seus pés... A criança descobre o mundo progressivamente, interagindo com ele.

Com o jogo do "cu-cu" (esconder a cara e voltar a aparecer), o bebé cria a noção de permanência do objecto. Diverte-se e ultrapassa a angústia da separação. Pouco a pouco, através do prazer que lhe proporciona o brincar, vai progredindo nas suas aquisições, ganhando cada vez mais segurança e autonomia.

Adora explorar os objectos da casa, que "pertencem aos pais". Mais tarde imita os pais e depois já só precisa de fazer de conta que é grande.

Este período riquíssimo do jogo simbólico irá permitir à criança resolver a nível inconsciente os seus problemas, adquirindo um sentimento de controlo dele próprio, que está longe de possuir na realidade. Nessa altura, já é capaz brincar com os outros, interiorizando as regras sociais, o ganhar e o perder, o esperar e o partilhar... Também nesta fase, o jogo ajuda a desenvolver a perseverança e o esforço perante a dificuldade, que tanta falta faz na escola e pela vida fora.

O brinquedo deve estimular a fantasia. Não pode ser demasiado perfeito para deixar lugar à criatividade. Também o excesso de prendas dispersa a atenção, leva à desvalorização e ao desinteresse. É necessário ter tempo para desejar, para explorar e inventar.

Hoje o tempo acelerou, entra-se para a escola mais cedo e por demasiado tempo em cada dia. Algumas crianças têm agendas preenchidas de actividades, onde se tentam desenvolver tarefas e talentos. Será que sobra tempo para se aborrecer e para se perder?

O espaço para se mexer é cada vez mais diminuto e controlado, sobretudo nas cidades. As ruas são perigosas, as escolas sem recreio, os apartamentos pequenos, a natureza longe, e é mais difícil expandir energias, explorar o potencial físico e psíquico das crianças.O isolamento também é maior.

Os ecrãs (televisão, computador, consolas...) mantêm as crianças sossegadas, mas tempo demais... distraem-nos deles próprios, tornando-os passivos, dependentes de fantasias pré-fabricadas, ficando cada vez mais dependentes dos adultos ou das máquinas para organizar os seus tempos.

O prazer que se tira da brincadeira prolonga-se no prazer de viver ao longo da vida. Fortalece a nossa capacidade de adaptação às dificuldades e dá entusiasmo.

Um autor alemão lembra- nos que "o homem não é verdadeiramente homem, senão quando brinca".


*Inês Torrado é pediatra.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Nutrir o futuro

A importância do desenvolvimento cerebral nos primeiros anos de vida

Por Ana Rita Monteiro*
O desenvolvimento cerebral observado nos primeiros anos de vida da criança é preponderante para o seu futuro a nível físico, cognitivo, emocional e social.

No passado, alguns cientistas pensavam que o desenvolvimento do cérebro seguia um padrão biologicamente predeterminado. Hoje sabe-se que as experiências têm uma vasta influência na forma como os circuitos cerebrais são activados. Elas permitem que as cerca de 100 biliões de células nervosas, denominadas neurónios, realizem as conexões dotando a criança de mais e melhores meios para comunicar e interagir com a realidade que a rodeia. O cérebro desenvolve-se numa base genética enriquecida pela experiência, pelas relações interpessoais e pela saúde e nutrição adequadas. Assim, a qualidade das relações nos primeiros 3 anos de vida tem um impacto profundo e duradouro na evolução do cérebro e consequentemente na forma como a criança aprende, lida com o stress e regula as emoções. Após os 3 anos, período crítico que coincide com a vulnerabilidade cerebral à ausência de estimulação, a janela de oportunidade começa a decrescer. Assim, é desejável oferecer um ambiente seguro, uma comunicação eficaz que se inicia ao nascimento e se prolonga por toda a vida, relações consistentes e seguras e uma interacção pautada pelo toque, troca verbal e musical. Ao demonstrarem sensibilidade às pistas dos bebés, ao responderem às suas dificuldades e ao aproveitarem as actividades simples e corriqueiras no intuito de estimular a aprendizagem os pais tornam-se os melhores aliados dos filhos.

Sabemos a importância dos cinco sentidos, através deles a criança descortina os encantos da realidade. A experiência multissensorial é a chave para um desenvolvimento cerebral pleno: falar como o bebé, ler todos os dias, cantarolar e repetir lenga-lengas são óptimas estratégias que intuitivamente muitos pais colocam em prática.

A melhor aprendizagem é aquela que se desenvolve pela sintonia com os estímulos humanos, pela troca de olhares, sons e toques. Os bebés são extremamente responsivos ao movimento – o embalar, o balancear e o ser apenas pegado são actividades muito enriquecedoras e prazerosas por muito simples que possam parecer.

Nunca é demais lembrar: falar, cantar, brincar e ler são as actividades chave para edificar um cérebro infantil!

O desenvolvimento cerebral é de extrema importância. Poderá pensar que o cérebro adulto é bastante mais activo do que o de uma criança, mas este é apenas um de muitos mitos nesta área. O cérebro de uma criança de 3 anos é duas vezes mais activo e forma triliões de conexões. Aos 2 já atingiu cerca de 80% do tamanho adulto… Como muitos autores referem: “The first years last forever”.

*Ana Rita Monteiro é psicóloga clínica.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

As curvas de crescimento da criança

Por António José Guerra*

Os boletins individuais de saúde incluem tabelas de percentis referentes ao peso, comprimento/estatura (0 aos 20 anos), perímetro cefálico (0 a 36 meses) e índice de massa corporal (2 a 20 anos). A evolução da curva de crescimento estaturo-ponderal é um bom indicador do estado de nutrição e saúde da criança. No entanto, o modo como a curva progride ao longo da idade é por vezes gerador de ansiedade nos pais que gostariam de ver as curvas dos seus filhos evoluírem de preferência em percentis mais elevados do que aqueles em que ocorrem. Há alguns aspectos que vale a pena conhecer e que poderão tranquilizar os pais na maioria das situações.

Em primeiro lugar as curvas de percentis não são mais do que o modo como uma determinada população de crianças cresceu (no caso dos nossos boletins individuais de saúde as curvas foram construídas com base na avaliação de crianças norte-americanas avaliadas em vários inquéritos nacionais realizados entre as décadas de 70 e 90). As curvas representam assim, a distribuição percentual de valores referentes a parâmetros corporais (peso e estatura) de uma determinada população de crianças. Dizer que uma criança tem um comprimento no percentil 25, significa que na população usada como referência, 75 em cada 100 são mais altas que a criança em causa.

O segundo aspecto que importa conhecer é que o crescimento é um processo dinâmico e é portanto imprescindível ter uma ideia da evolução da curva, ou seja do modo como ela progride ao longo do tempo. Uma progressão estável (sensivelmente paralela às curvas de percentis) traduz um crescimento normal. Isso significa que uma criança no percentil 25 ou mesmo inferior pode não levantar qualquer problema, ao contrário de outra criança num percentil superior, por exemplo 75, mas que está a evoluir num sentido de cruzamento superior ou inferior das curvas de percentis.

O terceiro ponto é que as curvas tem o aspecto liso e quase que traçado a compasso porque tal resulta de manipulação matemática. Em boa verdade cada criança evolui geralmente ao longo do crescimento com uma curva em forma de linha quebrada, o que é normal, desde que a tendência seja no sentido grosseiramente paralelo às curvas de percentis como referi (isto é, desde que a tendência não seja no sentido do cruzamento de percentis).

Em quarto lugar, deve haver uma harmonia entre o crescimento do peso e da estatura. Como é de todos conhecido, a obesidade (com uma prevalência crescente também em Portugal) não é mais do que uma situação resultante da existência de um peso excessivo para a estatura. A sua prevenção é a melhor atitude, daí a grande relevância de os boletins de saúde infantil incluírem agora as curvas de percentis referentes ao índice de massa coropral, que não é mais do que uma relação peso para a estatura, (neste caso peso em Kg sobre estatura em metros2). O que importa é que a criança cresça proporcionalmente relativamente ao peso e estatura em percentis próximos, sendo sempre desejável que quando uma dos parâmetros tem ascendente sobre o outro, seja a estatura a situar-se num percentil superior relativamente ao peso.

O quinto aspecto que importa alertar relaciona-se com uma variação de amplitude das curvas de crescimento, superior à distância entre dois canais de percentis contíguos (ex, 25 e 50). Se essa oscilação é negativa (desaceleração de crescimento) poderá haver uma situação de ingestão alimentar insuficiente ou, o que será mais frequente, alguma situação de patologia (mesmo na ausência de sintomas). Se pelo contrário a variação é positiva, o que ocorre entre nós frequentemente com o peso, o que estará em causa será um suprimento alimentar que ultrapassa as necessidades energéticas da criança. É apenas nessas situações que será necessário identificar a causa da alteração do crescimento e intervir de modo a corrigir o mais precocemente possível o desvio encontado.

Sexto e último, as necessidades alimentares são uma característica específica e exclusiva de cada criança, ou seja para duas crianças da mesma idade crescerem de modo idêntico (mesmo peso, mesma estatura e mesma composição corporal), as suas necessidades alimentares são diferentes. Quer isto dizer que mesmo que os pais entendam que a criança come muito pouco, mas se as curvas de crescimento evoluirem a uma velocidade normal, não haverá seguramente nenhum problema. Mas se a criança comer muito e as curvas evoluirem inadequadamente, por defeito ou por excesso, então é aí que se tornará necessário intervir.

Em resumo as curvas de crescimento são uma ferramenta muito importante que nos permite apreciar o estado de nutrição e crescimento das crianças e que devem ser sempre avaliadas e interpretadas ao longo de todo o ciclo de vida pediátrico.

* António José Guerra é pediatra, especialista em nutrição infantil, e Professor da Faculdade de Medicina do Porto.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Amigo Imaginário




*Por Ana Rita Monteiro

O amigo imaginário (AI) é “uma personagem invisível, apontada ou referida pela criança em conversa com os outros ou com quem brinca directamente, por um período mínimo de vários meses, tendo para ela um ar autêntico mas sem uma base real aparente” Svendsen (1934).

Surge habitualmente na idade pré-escolar, tem o pico de frequência por volta dos 4 anos mas pode surgir posteriormente, por volta dos 6-7 anos.

Por vezes, o Amigo Imaginário está associado a um brinquedo significativo para a criança, por exemplo um animal de peluche, quando lhe é atribuída uma personalidade estável. O Hobbes do Calvin é um excelente exemplo. Os amigos imaginários desempenham um papel diário na vida fantasiada da criança e rapidamente são incluídos na dinâmica familiar, é-lhes reservado um lugar na mesa na hora das refeições, um espaço na cama, etc. São produtos espontâneos da imaginação tendo maioritariamente uma valência emocional positiva.

Ao contrário do que se pensa, os Amigos Imaginários não são raros, cerca de 65% das crianças em idade pré-escolar têm-nos. Não são indicativos de problemas emocionais nem surgem apenas nas crianças introvertidas. Da investigação realizada até à data conclui-se que estes surgem associados a características positivas como a capacidade de socialização, extroversão e criatividade. São retratados na banda desenhada e nos filmes de forma negativa e como sinal de patologia mental o que promove alguma preocupação nos cuidadores de forma desnecessária e não fundamentada.

A principal característica destes personagens invisíveis é mesmo a variedade. Podem ser crianças, adultos, animais, fantasmas, seres peculiares, etc…

Por que motivo surgem os Amigos Imaginários?

O mais frequente é a diversão e a companhia que proporcionam; aceitam todas as brincadeiras, regras e o mais aliciante é permitirem que a criança ganhe sempre o jogo. A solidão é outro motivo pelo qual os AI são criados, surgindo principalmente nos filhos únicos ou na altura do nascimento do primeiro irmão. A criança sente-se acompanhada e tem um óptimo parceiro de brincadeira, aquele que ouve, aceita e não critica.

O Amigo Imaginário permite ainda sentir-se competente e ensaiar a interacção. Os meninos criam-nos competentes, com aquelas características que culturalmente foram ensinados a valorizar; fortes, poderosos, semelhantes a super-homens. Segundo vários autores, o sexo masculino projecta no AI as particularidades que gostariam de ter: força, resistência e poder. As meninas criam-nos incompetentes para que com eles possam praticar aquilo que socialmente se espera do sexo feminino, a ajuda, compreensão e protecção, desempenhando assim o papel de cuidador na relação. Por estes motivos é mais frequente serem os meninos a encarnar as personagens que fantasiam, considerando-se o Super-homem, o Zorro, etc.

Estes produtos da imaginação são muito úteis no evitamento da culpa, da crítica e na possibilidade de manutenção da auto-estima. Culpar o amigo invisível permite identificar e internalizar as expectativas parentais possibilitando uma maior consciencialização daquilo que é correcto ou não.

A comunicação é, sem dúvida, facilitada pelos AI. Até os adultos frequentemente expõem uma dúvida ou situação que lhes é difícil e dolorosa começando por referir que o problema é de um amigo. Da mesma forma a criança pode verbalizar, através do AI, questões que a afligem utilizando-o como veículo de expressão de medos e receios.

O trauma pode ser um motivo para a sua criação dado que permite um auxílio activo desempenhando uma compensação emocional. Esta não deve ser considerada uma situação alarmante desde que a criança não perca a capacidade de brincar espontaneamente e se isole.

Quando questionada, a criança descreve todas as características físicas do seu amigo invisível de forma pormenorizada. Quando lhe é associado um brinquedo, a descrição é habitualmente diferente das características reais, o que evidencia o grau de fantasia envolvido.


O Hobbes é, para o Calvin, alto, expressivo, extremamente forte e selvagem… para a Susie é simplesmente um peluche fofinho e felpudo.
Os AI têm um papel positivo e construtivo no desenvolvimento da personalidade.

Podem manter-se por cerca de 3 anos; quando desaparecem a criança justifica com uma viagem longa, uma morte repentina ou simplesmente caem no esquecimento.

*Ana Rita Monteiro, psicóloga clínica.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Conversar desde o berço

Por Fátima Pinto*

Ser capaz de falar e comunicar, ou usar qualquer outro tipo de linguagem (gestual, corporal ou escrita), é uma necessidade básica para se ser feliz, auto confiante e ter sucesso na vida.


Aprender a falar tem grande influência na comunicação, na aprendizagem e no sucesso escolar. Falar bem melhora a literacia, a auto confiança e a saúde em geral.

Logo após o nascimento, os recém-nascidos estão aptos para a comunicação e, através de estímulos exteriores vão formando o seu universo afectivo, psíquico e cultural. O bebé compreende antes de falar e é capaz, com poucos dias de vida, de distinguir e imitar expressões faciais, possuindo um potencial de linguagem que pode e deve ser estimulado.

Actividade lúdicas de interacção ajudam o desenvolvimento das competências linguísticas e comunicativas e melhoram todo o processo de do desenvolvimento global, quer a nível das actividades do quotidiano e da relação com os pares, descritas como sociais e pessoais, quer a nível da realização e do raciocínio prático, tornando ainda a criança mais saudável, serena e auto confiante.

Falar-lhe sobre tudo, disto e daquilo, falar-lhe do tempo, do que se está a fazer, do que se gosta e pensa, no banho, na refeição, na rua e no supermercado, é potenciar a linguagem dando a possibilidade da imitação nas trocas interpessoais no jogo do agora eu e agora tu.

Os conceitos e códigos sociais podem e devem ser transmitidos muito cedo, bater palmas, dizer adeus, atirar beijinho, Brincar às escondidas, aparecer e desaparecer … o bebé vai associar o gesto à função.

Os pais actuais têm o tempo contado, trabalham todo o dia, moram longe e por isso passam horas nos transportes, a semana é longa mas o dia é curto. Passam pouco tempo com os filhos e sentem culpa e remorso… importa lembrar que pouca quantidade não implica pouca qualidade e por isso o mais importante é aproveitar esse pouco tempo enriquecendo-o com actividades de relacionamento, falando do que se passa nas coisas do dia a dia.

Sobre a criança e a sua actividade criativa Vygotsky diz: “… quanto mais veja, ouça e experimente, quanto mais aprenda e assimile, quanto mais elementos da realidade disponha em sua experiência, tanto mais considerável e produtiva será, como as outras actividades, a actividade da sua imaginação”.

Conversar, ler em conjunto, brincar, são actividades promotoras de um melhor desenvolvimento infantil, proporcionando ainda prazer na família e laços afectivos mais fortes.



Fátima Pinto é pediatra, especialista em Desenvolvimento Infantil.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Compreender o desenvolvimento

Por Mónica Pinto *

O desenvolvimento infantil, as suas etapas, as idades em que determinadas aprendizagens se realizam e como ajudar a criança a optimizar o seu potencial são preocupações crescentes dos pais. No entanto há muitas questões que ficam por esclarecer e alguma informação pode estar errada. É importante compreender porque acontecem estas etapas…


Para perceber o desenvolvimento temos de nos situar em termos evolutivos e ter em conta as particularidades na nossa espécie que é diferente dos restantes primatas.

Os primatas têm uma selecção K reprodutora, ou seja produzem uma cria, geralmente única, fruto de uma gestação prolongada, muito bem adaptada e que nasce com capacidade de sobrevivência. Outros mamíferos menos evoluídos como por exemplo os coelhos ou os ratos, têm gestações curtas, com ninhadas de crias, mal adaptadas em que umas sobrevivem e outras são eliminadas por selecção natural

A espécie humana, devido à evolução do sistema nervoso central e aumento de dimensões do cérebro, teve de encontrar estratégias para garantir a sua sobrevivência já que seria impossível a criança completar a maturação dentro da barriga da mãe.

A solução foi antecipar o trabalho de parto, gerando uma cria ainda incompleta, dependente e mal adaptada, continuando a sua maturidade fora do ventre materno. Assim, a gravidez humana tem 9 meses dentro da barriga e completa os restantes 12 meses “extra-uterino”. Este período em que a criança ainda não deveria ter nascido é um período de enorme vulnerabilidade e dependência. Enquanto o veado ao nascer sabe comer, deslocar-se e comunicar, o nosso bebé é muito mais frágil e imaturo e só completa o mesmo nível de autonomia a partir dos 12 meses, quando o bebé começa a andar, a falar e a ser capaz de se auto-alimentar.

Isto tem implicações físicas mas também emocionais e percebe-se assim que seja fundamental a proximidade da mãe (e daqui se percebe que nos países desenvolvidos a licença de maternidade não seja inferior aos 12 meses…) e que a pressão das sociedades ocidentais de estimular precocemente a separação das crias e das mães e a “independência” do bebé (como ter o seu quarto, querer que se entretenha sozinho, iniciar creche,…) pode ser contraproducente e levar a maior insegurança e dificuldades emocionais e mesmo físicas (cólicas, problemas de sono, birras, ansiedade,…).

Se o bebé não pode estar esses 12 meses na barriga da mãe deverá pelo menos estar o mais próximo dela possível! A proximidade física e emocional da mãe ajuda a promover melhores cuidados alimentares, confere protecção física, regulação térmica, regulação emocional, e a interacção continuada promove um desenvolvimento completo e harmonioso.

* Mónica Pinto é pediatra do Desenvolvimento, presentemente no Centro de Desenvolvimento do Hospital D Estefânia, na Clínica Gerações e Centro Diferenças. Tem 40 anos e é mãe de dois filhos, com 7 e 5 anos.