Há dias ouvi de um pediatra que as crianças se habituaram a ter bengalas para a vida e que vão crescendo demasiado apoiadas, sem se esforçarem por conseguir ultrapassar as dificuldades que vão surgindo. As próprias brincadeiras, que forçavam à descoberta, à imaginação e à criatividade, foram sendo gradualmente substituídas por jogos em que as crianças se limitam a carregar passivamente em botões de consolas de jogos ou em teclas de computadores. As crianças crescem como espectadores, esperando que alguém se substitua ao seu esforço e ao natural desenvolvimento e autonomia que deveriam adquirir para se tornarem adultos responsáveis e cidadãos participativos.
Não deixará de ser verdade que nós, pais, somos co-responsáveis por esta situação. As bengalas que vamos dando aos nossos filhos, ao longo do caminho que percorrem durante o crescimento, revelam-se uma forma de pressão para que consigam ir mais longe, explorando todas as capacidades que têm. Apoiamos aguardando, ainda que inconscientemente, que o nosso apoio se transforme em boas notas, quadros de honra, troféus desportivos, aceitação social e outras vitórias que vão conseguindo somar.
O amor que indiscutivelmente pomos nesse apoio, procurando que vinguem em tudo em que se envolvem, não pode ser dissociado das nossas expectativas de adultos, seres humanos demasiadas vezes limitados nos nossos próprios êxitos. As pequenas vitórias dos filhos acabam também por ser nossas, precisamente porque lhes fomos dando bengalas durante o percurso; somos parte do sucesso. E temos dificuldade em aceitar quando, mesmo com bengalas, os troféus não são os que esperámos. Porque aí, somos parte do insucesso…
Fica, em certos momentos de introspecção, a certeza de que as nossas melhores intenções são, ao mesmo tempo, uma forma de concretizar expectativas que temos, fazendo das crianças um prolongamento da nossa vontade. Exigimos o que não conseguimos, justificando a nossa atitude com o facto do mundo ser competitivo e dos filhos precisarem de ser ajudados e preparados para essa guerra que se avizinha.
Talvez seja tempo de reorientarmos as nossas expectativas de pais e os deixarmos livres para, acompanhados à distância, encontrarem o seu equilíbrio, ainda que por caminhos que não conduzam ao sucesso e à excelência.
Mas depois, poderemos nós viver com isso?
*Cristina Brito é socióloga de formação e mãe
