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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ter filhos faz bem ao coração

Por Sónia Morais Santos*

Perguntam-me: o quê??! Tens três filhos?! E uns arqueiam o sobrolho, horrorizados, como se tivesse três quistos, coisas feias e dolorosas e importunas. Outros, espantam-se, admiram-me a valentia, ah! Isso é que é coragem! E repetem, num suspiro cansado: três…


Às vezes, quando digo que gostava de ter outro, há quem dê gritos, cruzes, credo, valha-te Deus, então não chega já? então já tens dois rapazes, uma menina, vais agora meter-te noutra, para quê? Para quê?

Para quê. Eu sei lá para que é que temos filhos. Nuns casos pode ser porque sim, porque fomos como que programados para isso, desde tenríssima idade. Noutros casos pode ser porque o desejamos profundamente, porque queremos um bebé, porque chegou a hora, porque queremos prolongar a nossa vida noutras vidas, porque queremos ter um fruto de um grande amor, porque ansiamos por educar, por ver crescer. Temos filhos por uma destas razões, por todas estas razões, por nenhuma delas.

No meu caso, o primeiro filho chegou porque sim. Porque queríamos um bebé nas nossas vidas, porque nos amávamos e tinha chegado a hora.

O segundo veio, naturalmente. Mas aí, receei que o amor pelo segundo não chegasse aos calcanhares do primeiro. Estava tão apalermada com o primeiro que julguei ser impossível a repetição daquele sentimento. Impossível. Temi. Pior: acreditei nisso e culpabilizei-me. Apesar disso, afeiçoei-me à barriga, ao feto, conversei com ele, amei-o. Terei pedido desculpas pelas minhas dúvidas. Mas depois… depois quando nasceu percebi a dimensão do meu equívoco. Chorei tanto quando o segundo nasceu, quando chorou pela primeira vez, acabado de sair para o mundo. Chorei de paixão, porque percebi imediatamente, de modo visceral, brutal, animal, que esta coisa de amar os filhos não é dada a divisões mas antes a multiplicações. Ou seja: não há um coração que tem de se repartir. Há um coração que aumenta, a cada nascimento. E assim, ao segundo filho, o meu coração ficou maior.

E depois veio a necessidade do terceiro. Como se fosse um vício. O vício de gostar arrebatadamente. O vício de sentir o coração crescer. Como se já não soubesse viver de outra maneira, sem ser assim, com o coração dilatado dentro do peito. Quando a Madalena nasceu eu já não chorei porque já sabia o quanto gostava dela, o quanto ia gostar dela, já sabia que o amor pelos filhos não se divide, multiplica-se.

Por isso, quando me perguntam “o quê??! tens três filhos?!”, como se em vez de filhos falassem de quistos, coisas feias e dolorosas e importunas, eu sorrio. Limito-me a sorrir. Eles não sabem nem sonham mas o meu coração é maior que o deles. E a felicidade que carrega é enorme, é imensa, é desmesurada. E é por isso, também, que se calhar um dia destes ainda tenho outro. Só não estou segura de que, então, o coração me caiba todo dentro do peito.

* Sónia Morais Santos é mãe e jornalista. Autora e apresentadora do programa "Portugal dos Pequeninos" na Antena 1, assina ainda o blog "Cocó na Fralda".