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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O melhor presente do mundo

Por João Paulo Batalha*

É uma questão de marketing, suponho. Mudar a embalagem, dar-lhe um tom design. Pôr-lhe um daqueles selos tridimensionais com uma figurinha que muda de posição. Talvez ajudasse. É caso, seguramente, para contratar uma consultora estrangeira em marketing criativo que venha definir, a preço de ouro, a melhor maneira de vender a coisa. Porque é mesmo o melhor presente do mundo. A sério.

Várias vezes estive tentado a oferecê-lo aos meus irmãozinhos mais novos (e a cada oportunidade, sei que já viria mais tarde do que devia). Mas depois imagino o ar de desilusão que fatalmente lhes trespassaria a face e desisto – e eles já estão naquela idade em que sabem que é de bom tom fingirem que gostaram da prenda, mas ainda não estão naquela idade (e espero que nunca estejam) em que são bons no fingimento. Seria embaraçoso para todos. De modo que fica por oferecer, o melhor presente do mundo.

Senhores, o melhor presente do mundo: um cartão de biblioteca. Ridículo, não é? Um cartão de biblioteca, o melhor presente do mundo? Para crianças? Em que mundo?

Pois.

E no entanto, digo eu, oxalá fosse o mundo assim tão simples. Assim tão belo. Um cartão de biblioteca em vez de uma boneca esgotadíssima com uma câmara no pescoço (que mente doente se lembrou dessa?) ou um robot-transformer-destroyer para guerras a brincar que, se bem usado, leva o pequenito utilizador a um frenesim capaz de provocar guerras a sério – e ele que vá treinando, isto o mundo é uma selva.

Eis o problema: os tipos do marketing trabalham para o inimigo. Tal como um bom brinquedo – ensinam-nos eles – o amor é grande e brilhante e tem luzinhas e várias peças que se movem e dispara raios mortais pelos olhos e é capaz de destruir uma cidade e tirar vidas carregando no botãozinho (pilhas vendidas separadamente).

Além de que, na era do Google e da Wikipedia, ir à biblioteca para quê? Pior: ler para quê? É uma pergunta assassina nos tempos que correm, porque exige uma resposta longa e aborrecida – e isso já não se usa. Exige explicar que ao contrário de um filme ou um vídeo, que acontecem nos nossos olhos, a leitura acontece na nossa cabeça, na nossa imaginação. Ao ler um livro estamos a criá-lo, estamos a escrevê-lo na nossa mente, na nossa fantasia, com as palavras que tomamos emprestadas ao autor. Estamos a desenhar as feições das personagens, a arquitectar as cidades e os espaços na nossa imaginação.

Um filme é um filme, um jogo é um jogo. Estão ali à nossa frente e, bons ou maus, são o que são: os seus criadores construiram um universo visual, uma narrativa, e mostram-na tal como a imaginaram. Eles criaram, nós consumimos. Um livro não, porque um livro passa-se na nossa cabeça, porque não sendo visual obriga-nos a visualizá-lo na nossa imaginação. Um livro, o autor limita-se a escrevê-lo. É o leitor que o cria.

Ler por isto, digo eu. Ler porque não há substituto. Ler porque procurar uma coisa no Google não é aprender, é consultar. Ler porque das duas umas: ou alimentamos a nossa cabeça com produtos acabados – e aí somos consumidores – ou alimentamo-la com matéria-prima – e aí somos criadores.

As bibliotecas hoje, garanto-vos, existem em todos os cantinhos deste país e existem felizes e de portas abertas. E adoram crianças, e as crianças retribuem. Com espaços e programas especiais para o público infantil, com leituras de contos, com actividades, com descobertas. Porque também se aprende a leitura, e a relação com o livro, e a responsabilidade de levar um livro para casa e ter de devolvê-lo a tempo e em condições, porque ele pertence aos outros, aos nossos vizinhos, à comunidade, ao mundo. E aprende-se a solenidade saborosa de estar em silêncio numa sala de leitura – que é um ambiente que pode intimidar uma criança, “pouco barulho que há pessoas a ler”, mas que se aprende e que se adora (ou não me digam que o que se ama, o que verdadeiramente se ama nesta vida, não teve de ser aprendido?)

E é grátis. Digam-me lá, gurus do marketing, não se faz daqui uma campanha?

*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças. 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Aprender a criar (e a programar telemóveis)

Por João Paulo Batalha*



Às vezes sinto-me entalado pela História. Nascido em 1978, fui educado no séc. XX mas vou viver no séc. XXI. Quer dizer, a idade em que me diziam “tu não tens quereres” durou até mil nove e noventa e tal; as contas para pagar começaram a vir pela passagem do milénio. Bill Gates e Steve Jobs lançavam a revolução do computador pessoal mais ou menos pela altura em que eu entrava na escola. Tive de ir aprendendo a lidar com um mundo tecnológico ao mesmo tempo que ele ia sendo inventado. Nenhum primeiro-ministro me deu um magalhães para eu me entreter e, nos intervalos de me entreter, talvez aprender alguma coisa.

De modo que me sinto sempre ridículo a manusear um touch-screen. Hesito. No screen com que eu cresci, não era por pormos os dedos no ecrã que os actores da Globo iam para a direita em vez da esquerda. Só servia para a minha mãe se chatear porque tinha de limpar as dedadas. Acharei sempre natural que um touch-screen não funcione quando eu lhe toco (e não funciona mesmo; eles cheiram o medo) e que alguém que vá a passar perceba que eu sou apenas um idiota a tentar tocar um mundo que não é o meu.

Os miúdos de hoje não. Já nascem neste mundo tecnológico maduro. É por isso que quando um miúdo de dez anos me programa trinta tons de toque diferentes no telemóvel, consoante quem me ligue, o meu instinto é amuar. Raios, parece que já nascem ensinados! A questão é que não nascem. A tecnologia é-lhes intuitiva, sim, e isso abre-lhes imensas oportunidades, claro. Mas entre a oportunidade e a recompensa está a obra. O trabalhinho. E esse é mais importante hoje do que era no tempo dos meus pais, quando o emprego era mais certo e era para a vida.

Por isso não posso amuar. Tenho de me sentar ao lado do miúdo, eu que cresci com dois canais de televisão (mais o Tal Canal), e pedir-lhe que me ensine uma tecnologia que me irrita, que me faz sentir um homem lento num mundo rápido. Preciso das lições de um miúdo de dez anos para me manter um homem inovador (parece que isso hoje é a chave de todas as coisas), mas preciso sobretudo de lá estar para lhe pagar a lição.

Os gadgets têm vida curta e há sempre uma coisa nova para nos entretermos (juro que me parece que, literalmente de uma semana para a outra, toda a gente em Portugal arranjou um iPad). Entregarmos as crianças ao magalhães, à TV Cabo e à Internet e admirarmos a sua habilidade com as tecnologias não chega. No que toca a educação, sou um espartano: sou aquele tio que oferece prendas pedagógicas, mesmo que mais aborrecidas. Abre-se, não é tão divertido como a arma de brincar ou a consola de jogos, fica de lado. Tanto pior. Vai devagarinho. Insiste-se, puxa-se pela cabeça da criança – e na cabeça de uma criança livre cabe muito mais imaginação do que na de mil programadores de vídeojogos.

Porque o ponto é este: um jogo, um filme, um site – mesmo um brinquedo – são a imaginação de outra pessoa. São o ponto de vista de outro. Saber manuseá-los, consumi-los, é óptimo. É literacia tecnológica. Mas literacia não chega. Se formos pais conscientes, queremos que os nossos filhos aprendam a consumir, claro (melhor do que nós, de preferência, com mais inteligência e menos dívida acumulada). Mas, melhor do que consumir, queremos que os nossos filhos aprendam a criar.

É esse o negócio que tento fazer com um miúdo de dez anos que me programa os toques de telemóvel: maçá-lo com perguntas. Porquê assim? Porque não assado? Para que serve isto? E para que poderia servir? É este o negócio: ajuda-me a usar as ferramentas que alguém criou, e eu tento ajudar-te a criar as ferramentas que alguém há-de usar.

*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Amor em tempos de crise

Por João Paulo Batalha*

foto: Edouard Boubat


Desta vez quero falar de economia. Eu sei que é um tema sumamente aborrecido, com pouco lugar num blogue sobre o que é sermos crianças e sermos pais e educadores. Mas quero falar disso porque já me aconteceu várias vezes ouvir os meus pais pedirem-me desculpa pelos falhanços, dizem eles, da sua geração.

Os meus pais eram pouco mais do que adolescentes quando eu e os meus irmãos nascemos. Pensando bem, eram pais ao mesmo tempo que estavam a aprender a ser adultos e, vendo as coisas assim, é um pequeno milagre que se tenham safado tão bem como safaram (e não estou a dizer com isto que criaram filhos espectaculares; estou só a admitir que as minhas falhas, que as tenho e várias, são culpa inteiramente minha; não tenho traumas nem álibis que comodamente desviem as culpas).

Tenho a agradecer-lhes isso. Mas os meus pais olham o estado geral das coisas e acham que devem um pedido de desculpas à minha geração. Eles, que tinham vinte ou vinte e poucos anos quando em Portugal se fez uma revolução que nos livrou de uma ditadura e de três guerras simultâneas, olham para o que fizeram e pedem desculpa.

Os meus pais distribuíam propaganda contra o regime no liceu, antes do 25 de Abril. Escreviam slogans contra a guerra nas paredes, pela calada da noite. Mas não foram eles que fizeram o 25 de Abril, dizem-me. E têm razão. Os chefes militares eram da geração anterior, como os chefes políticos. Os miúdos, como os meus pais, faziam barulho, protestavam (os que protestavam), foram participantes, não protagonistas.

Hoje olham, olhamos todos, para o estado do país e sentimos o desânimo. Habitamos a cidade da poeira cinzenta e fininha da resignação triste de que falava a Constança. Os pais pedem desculpa aos filhos porque temem estar a legar-lhes uma vida pior do que a que eles tiveram. Devia ser ao contrário, sentem os pais. Os filhos merecem melhor do que os pais, porque é isso que é justo. É assim que devia ser.

Eu não sei o que responda. Eu sinto-me mal representado na elite portuguesa, nos políticos, nos empresários, nos líderes em geral. Eu sei que a crise é séria, é grave e que nos vai fazer doer. Sei que vivemos durante anos numa tolice irresponsável em que nos ensinaram que tudo era fácil e imediato, e que a modernidade estava em exibir o grande carro, em vez de o grande carácter. E sim, este clima foi criado pela geração anterior à minha.

Devem-me um pedido de desculpas? E será que os jovens pais de hoje, que lutam para pagar infantários (ou apenas os livros escolares, ou apenas uma refeição quente por dia) devem um pedido de desculpas aos filhos? Nada nos resta então, senão a penitência e melancolia triste do fracasso?

Eu lembro-me de uma dedicatória num livro de poesia. A Sophia de Mello Breyner dedicava poemas ao marido, Francisco Sousa Tavares, “que me ensinou a alegria do combate desigual”. A poesia, tecnicamente, só começava na página seguinte, mas aqui já estava tudo. O combate desigual, naquele tempo, era contra a ditadura. A ditadura contra a qual os meus pais colavam cartazes – acção inconsequente, talvez, mas parte desse combate desigual, e da alegria desse combate desigual.

Hoje, sim, acabaram-se as certezas. O mundo é incerto e dá luta. Temos de inventar o nosso lugar dentro dele, já não há prateleiras onde nos podemos arrumar em bom e surdo sossego. O mundo é incerto e dá luta. Temos de desbravar o caminho nele; e temos de aprender o gozo disso, o prazer do inseguro, tentar, falhar e recomeçar. Reinventar tudo porque podemos. Construir-nos, descobrir-nos – e mudarmos de rumo porque sim, porque nos puxa a curiosidade de saber o que está para lá da outra colina.

Roubaram-nos as certezas? As seguranças? As deduções fiscais? Roubaram, sim senhor, ou deixaram-nas morrer de velhas e de podres. Mas se em troca nos ensinarem esta liberdade livre, esta liberdade clara e real e sem conforto, esta liberdade sem fundo e sem limites, então, digo eu, durmam descansados. Estamos quites.
  
*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A alegria da quadra, que remédio

*Por João Paulo Batalha

Faz parte de crescermos a constatação de que o Natal é quando o homem quiser, sim senhor, mas o homem acaba por só o querer uma vez por ano e por alguma razão será.

Na minha família alargada, entre irmãos e primos em vários graus, éramos uma ninhada numerosa. O Natal era uma ocasião (mais uma) em que se reunia a criançada toda, em que os embrulhos e os brinquedos se multiplicavam pela casa dos meus avós, em sacrifício do orçamento familiar e para júbilo sazonal da confederação do comércio.

Com a maioridade, pais e tios suspiram de alívio: passam a dar presentes mais comedidos – ou libertam-se com toda a justiça do encargo – e resignamos-nos todos à constatação de que o Natal com crianças é que vale a pena.

Pois vale. O Natal com crianças é a concretização do impossível. Num mundo em que nada é de graça (e num país ao qual “os mercados” ralham por gastar o que não tem), o Natal com crianças à volta é aquilo, exactamente, que lhes luz nos olhos frente a um embrulho invicto: é a magia de ter à frente algo estranho e desconhecido, ali posto para nosso usufruto sem custo nem esforço, pela única razão de que o mundo é um sítio bonito onde coisas mágicas geralmente acontecem. É um logro, sim, mas é como a paixão desenfreada ou o amor cego: um logro indispensável.

O meu primo mais velho percebeu que eu acreditava no Pai Natal numa idade em que, achava ele, já não devia acreditar. Matou-me o mito com uma troça impiedosa (expulsando aí, sabe-se lá, o amargo da sua própria descoberta). Eu, não querendo dar parte de fraco, fingi que era natural que afinal não houvesse um homenzinho modesto que passasse o ano todo no Pólo Norte a fabricar brinquedos para os distribuir numa única noite pelas chaminés do mundo inteiro. Fingi que era natural mas a lógica da coisa demorou a vencer-me.

Venceu-me. Chateia-me fazer compras de Natal. Embirro ver as lojas decoradas no início de Novembro. Preciso de ganhar balanço para a coisa – e ganhando, quando não vou demasiado em cima da hora, até acabo por gostar de escolher as coisas certas para as pessoas certas. É um carinho elementar que me agrada. E gosto de abrir as prendas lentamente, apreciar bem uma antes de abrir a outra. E dar, mais até do que receber.

Mas já não é a mesma coisa. Aliás, é exactamente o contrário do que fazia em miúdo, quando as prendas eram fáceis, grátis e corriqueiras, porque a própria magia era fácil, grátis e corriqueira. Aí rasgavam-se os embrulhos a correr e galopávamos de um para o outro. Três dias depois estava tudo destruído e tudo bem. Não custava a ganhar – que é uma expressão que a vida nos ensina a atirar aos outros com amargura e desprezo, depois de nos ter ensinado, às nossas custas, o que as coisas custam.

Afinal, raio de coisa, nada nos cai pela chaminé, temos de nos esforçar. E a magia não é automática e tudo exige trabalho e tudo se complica. A dificuldade dá outro sabor às coisas, claro. Um sabor maduro, que me faz abrir as prendas devagar e com cuidado, e estudá-las demoradamente, apreciar o carinho elementar de quem mas deu. 

Mas custa-me concentrar-me, porque o meu sobrinho de três anos está a resgatar com alarido um carrinho de brincar do embrulho que o oprime. O Natal com crianças é que vale a pena.

*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças. 


segunda-feira, 7 de junho de 2010

Segredos

Por João Paulo Batalha*


O meu pai conta-me, eu não me lembro, da primeira vez que eu e os meus irmãos fomos a pé sozinhos para a escola. Não era fácil. Vivíamos junto à estrada marginal, em S. João do Estoril. Era à época uma das mais movimentadas do país, com todo o trânsito pendular da Linha, muitos anos antes das auto-estradas. O primeiro obstáculo, logo à nossa porta, era atravessar a estrada em segurança. Mais à frente era a linha do comboio. Coisas de responsabilidade para três miúdos da escola primária.


A minha mãe, sendo mãe, levava-nos e ia buscar-nos todos os dias, a pé mas com acompanhamento parental. E não concebia que isso mudasse. Um dia pediu ao meu pai que assegurasse o serviço. Conta-nos ele, com o justificado orgulho de quem viu confirmados os seus bons instintos, que logo à saída de casa nos perguntou se sabíamos o caminho. Dissemos que sim, claro, como crianças desejosas de conquistar o seu espaço no mundo. Lá nos largou, embora – ressalva dele – com o cuidado de nos seguir discretamente à distância, a garantir que não fazíamos asneiras. Não fizemos.


Esta precoce carta de alforria foi outorgada com uma condição: Não digam nada à mãe. Está claro que, mal voltámos da escola, a minha mãe foi cercada por três pintos orgulhosos a anunciar que tinham ido para a escola sozinhos. Houve discussão, mas a verdade é que desde essa altura (desde que me lembro, praticamente), passámos a ir sempre sozinhos para todo o lado.


Os miúdos têm uma incapacidade irremediável de guardar segredos. Não conseguem, pura e simplesmente. É uma incapacidade só comparável à sua disponibilidade para fazer promessas. Incluindo prometer guardar segredo. É sem dúvida das melhores coisas de se ser miúdo. Quero dizer-te uma coisa, prometes que guardas segredo? Juro! Logo a seguir, segredo? Nem vê-lo!

Isto não é desonesto. Pelo contrário, é a coisa mais honesta que existe. Uma criança promete o que lhe pedirmos. Não porque seja dúplice (isso vem depois, como vem para toda a gente), mas porque lhe pedimos – e porque lhe parece perfeitamente possível cumprir tudo o que promete, e por isso promete tudo o que lhe proponham. É aliás uma óptima maneira de se saber o que é ou não realizável neste mundo: basta pedi-lo a uma criança. Se ela não conseguir fazê-lo, é porque não pode ser feito.


Quando uma criança promete uma coisa e não a cumpre, a culpa é um pouco nossa. Claro que lhe ensinamos que não pode fazer promessas e não as cumprir. É a nossa obrigação. Com isso, inevitavelmente, ensinamos-lhe a ponderar, a hesitar (e até no limite, a mentir). Mas é mesmo assim que tem de ser, a transparência absoluta com que uma criança vive e pensa não é pura e simplesmente viável. A vida é feita de compromissos, constrói-se tanto de palavras como de silêncios, o que é muito pouco romântico, eu sei, mas é assim.

Dizem que se as crianças mandassem não havia guerras. Havia havia, acreditem. Os miúdos sabem ser cruéis. O que não havia era tretas. O que se calhar também não era mau.

*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Já imediatamente!

Por João Paulo Batalha*


O meu avô adorava birras. Homem austero e disciplinado, como a época exigia a qualquer bom chefe de família, perdia-se por uma boa birra (por boa birra entenda-se “quanto pior melhor”, sábio critério).


Para nós, miúdos, era desconcertante:

- Mãe, quero água!

- Como é que se diz?

E antes que nós, com a resignação da derrota, lhe recitássemos o “sefáxavor” logo interrompia o meu avô:

- Já, imediatamente!


Nunca soube reagir a isso. Que diabo, eu bem sabia, mesmo que nem sempre me apetecesse, que os meninos bem comportados dizem se faz favor, não dizem já imediatamente! De modo que este incitamento à subsersão, ainda para mais vindo do avô distante que não brincava connosco nem oferecia prendinhas, era bastante assustador.

Este apelo ao descaminho denunciava um mundo em que, afinal, as regras nunca são absolutas. Agora ensinem isto a uma criança habituada a ouvir (e muito bem) “não porque não!” e “porque eu sou a mãe e eu é que mando!” e é todo um horizonte de perversas liberdades que se abre. De hipóteses alternativas, de argumentação (a argumentação possível a uma criança, claro). De livre-pensamento se quisermos ser pretensiosos. De birra, para sermos justos.

Uma vez, não muito antes de morrer (já eu era crescidinho), o meu avô descartou a minha imagem de moço pacato e ordeiro acusando-me uma costela anarquista. Ele lá sabia. E disse-o com certo orgulho. Para um homem que viveu tanto de regras, a possibilidade do desgoverno era atraente. Atraente nas crianças, insuportável nos adultos. Quando crescemos, que remédio, temos obrigação de saber o que é a vida, engolir os sapos e seguir em frente. Quem não o faz não é sério. Mas se somos miúdos, a birra é a autonomia. É a individualidade, é a nossa independência.

De modo que eu partilho com o meu avô este defeito: sou mau pedagogo. Com crianças à volta gosto de provocar e desencaminhar. Quando ensino alguma coisa é meio por acidente. Estou demasiado ocupado a provocar birras, a convocar alternativas. Demasiado ocupado a aprender com essa desordem criativa que tira as coisas dos lugares onde as arrumámos e as reinventa – essa desordem brilhante que nos reensina, se a ouvirmos, o sentido de tudo. Estou demasiado ocupado a divertir-me.

*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Quero-te mostrar uma coisa!

Por João Paulo Batalha*

- Anda cá!


- Para quê?


- Vá lá!


- Mas para quê?


- Quero-te mostrar uma coisa!


Este diálogo é muito frequente na minha vida, nos dias que correm. Não tenho filhos mas estou naquela posição muito confortável de ter acesso permanente aos filhos dos outros – entre sobrinhos, filhos de amigos, irmãozinhos pequenos e primos (muito) mais novos. É uma posição muito confortável, digo eu e outros na mesma situação, porque podemos brincar com eles à nossa boa vontade, ensinar-lhes coisas que não se fazem – e passá-los para os braços da mãe na hora de mudar a fralda.

Por isso mesmo este diálogo é muito frequente na minha vida. Passá-lo a escrito tem um efeito estranho (já repararam que as crianças falam em exclamações e os adultos em interrogações?). Em primeiro lugar, “quero-te mostrar” não se diz. “Quero mostrar-te”, se faz favor – embora, em boa verdade, acho que nunca corrigi uma criança que me tenha dito isto. E não planeio corrigir. Há coisas mais importante em jogo.

As crianças nunca querem conversar connosco, mesmo quando acabam conversando. Querem sempre mostrar-nos alguma coisa. Ou contar-nos um segredo (o que, reconheça-se, não é propriamente conversar). Cada vez que um diálogo como este me interrompe a leitura do jornal ou a conversa com os crescidos lembro-me de outra coisa boa em ser criança: palavras leva-as o vento e não há como pôr a mão na massa.

Para mim, que trabalho a planear experiências para crianças, é uma lição valiosa. A mentalidade das mentes crescidinhas é demasiado verbal. Assenta demasiado nas palavras que lemos nos livros e nos artigos de jornal, ou nas palavras que ouvimos nas conversas que temos ou nos comentadores da rádio e da televisão. Ao ponto de nos fartar, quase irritar, tanta palavra atirada à rua. “A falar é que a gente se entende”. Sim, claro. Mas é a viver que a gente... vive! (bendito La Palisse!)

Tudo isto para dizer isto: porquê explicar se podemos experimentar? Porquê falar de uma coisa se podemos vivê-la? Palavras leva-os o vento. O desafio por isso, para mim que trabalho em contar às crianças histórias de gente crescida, é sempre o mesmo: sair da segurança escrita dos livros e saber criar, a partir desses indispensáveis livros, histórias que se possam tocar, onde se possa entrar – entrar fisicamente – mexer e descobrir. Contar histórias, sim, mas histórias que nos deixem puxar pelo braço dos miúdos e dizer-lhes: “Quero-te mostrar uma coisa!”.

*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Salve o seu filho. Pergunte-me como.


Por João Paulo Batalha*


Há 15 anos atrás eu era jornalista de rádio. Há dez era copy-desk de um site Internet. Há cinco era colaborador freelancer de projectos de comunicação institucional. Hoje sou consultor de comunicação e produtor de conteúdos museológicos para públicos infantis. Quando era garoto queria ser jornalista, mas não me licenciei em Jornalismo. Estudei Direito sem alguma vez querer ser advogado. Formei-me em História, mas nunca quis ser historiador.


Com o evoluir dos anos habituei-me à ideia de que a minha profissão demorava cada vez mais tempo a enunciar (e ainda mais a explicar) e de que o curso que estava a tirar, fosse qual fosse, não tinha qualquer relação directa com o meu trabalho. Hoje olhamos para trás, para os bons velhos tempos de tanoeiros e azeiteiros e marceneiros e torneiros mecânicos, profissões de homem, coisa rija cujo impacto é óbvio e imediato, e sentimos como o mundo mudou.


Hoje em dia, dizem-nos – e dizem-nos com razão – que grande parte de nós tem profissões que não existiam há 50 anos. E que estamos a educar os nossos filhos para profissões que ainda não existem hoje. Que raio lhes havemos de ensinar? As oitavas decassilábicas dos Lusíadas? A tragédia de Alcácer-Quibir ou o milagre de Ourique? 2 e 2 são 4? O que é que isso interessa, daqui a 20 anos, a um designer de modulação omni-gravitacional? (sim, estou a inventar, eu sei, mas fossem dizer ao meu avô, há 30 anos, que o neto ia ser copy-desk de um site da Internet; que diria ele, “em minha casa nunca!”?)


Nada nos consola, frente à incerteza, como um bom chavão. Aqui vai um: vivemos na sociedade da informação. E mais outro: para sermos competitivos, temos de orientar o nosso sistema educativo para a inovação e o conhecimento. Pronto. Quem não quiser saber do problema pode dormir tranquilo na certeza de que mentes capazes estão em cima do assunto. Quem se interessa percebe facilmente que os chavões, além de darem consolo aos indolentes, não avançam grande coisa.


O que é afinal educar para a inovação e o conhecimento? No tempo da outra senhora, sobre o qual as velhinhas suspiram porque havia trabalho e havia respeito, a escola ensinava um ofício (e ensinava também, para não haver cá ideias, que manda quem pode e obedece quem deve). Depois da Revolução descobriram que a escola devia ser um palco para a felicidade, sem lugar para coisas traumatizantes, de exigência e rigor. Hoje parece que o futuro são quadros electrónicos e computadores portáteis pequeninos com jogos de pinguins.


Tanto faz (não é tanto faz, claro. A diferença entre uma escola boa e uma má é um futuro ganho ou perdido). Mas de uma maneira ou de outra a escola vai sempre servir para definir (bem ou mal) um conjunto de saberes essenciais e tentar metê-los (bem ou mal) na cabeça das nossas crianças. E ainda bem. É para isso que ela lá está. Mas isso, voltando ao chavão, não é capacitar para a inovação e o conhecimento. Não é isso que faz um bom designer de modulação omni-gravitacional. Saber ler, escrever, contar, isso é só uma parte.


O resto é connosco. Connosco pais (e irmãos e tios e primos), connosco jornalistas (ou copy-desks de sites de Internet), connosco programadores culturais, médicos, funcionários públicos, tanoeiros, azeiteiros e torneiros mecânicos, todos nós que andamos na vida uns dos outros. Porque o resto, aquilo que fica a faltar depois de termos aprendido tudo o que a escola tem para nos meter na cabeça, é aprender a pensar. Mais do que isso, é aprender a criar.


E isso faz-se – isso só se faz – exercitando a liberdade, esse músculo caprichoso que atrofia com a rotina e morre com a resignação. Não é ensinar as respostas, como faz a escola, como deve fazer a escola. É ensinar as perguntas. É pôr na educação que damos aos miúdos (e já agora, na educação que nos damos a nós próprios) a vertigem da descoberta, o gozo imenso da incerteza. É pôr arte na nossa vida, não como um luxo mas como um meio, uma fonte de perguntas, um desbloqueador de imaginações. Porque nesse futuro que não existe e que nós não imaginamos, não ganha quem souber as respostas. Ganha quem souber as perguntas.


*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças.

quarta-feira, 24 de março de 2010

E agora, senhores?

Por João Paulo Batalha*


Estive recentemente em Lagos, onde a Associação de Gestores Culturais do Algarve organizou um seminário sobre Serviços Educativos em Espaços Culturais. Foi uma oportunidade para programadores, técnicos e especialistas em serviços educativos de todo o país pensarem o futuro dos nossos espaços culturais – e, entre outros temas, discutir qual é o lugar das crianças nestes espaços.


As boas notícias: há uma nova geração de gente da cultura farta de museus feitos de vitrinas fechadas. Os nossos espaços culturais têm de ser casas abertas à comunidade, onde as pessoas vêm para ver mas também para participar, para discutir, para construir.


Como muito bem nos mostrou David Anderson, director do centro de aprendizagens do Victoria & Albert Museum de Londres, as pessoas vão aos museus à procura de experiências educativas, sim, mas que sejam acima de tudo divertidas para toda a família. “A qualidade da experiência conta!”, foi o que ele nos disse.


Ficámos a conhecer imensos bons exemplos nacionais (na Gulbenkian, em Serralves, no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, e em sítios tão improváveis como o Mosteiro de Tibães, em Braga). Pouco a pouco, com enorme dedicação e criatividade, há gente dinâmica a soprar nova vida nos nossos espaços culturais. A criar experiências que merecem ser vividas.

E cada vez mais as crianças deixam de ser aquele público que vem por acréscimo e para quem lá se organizam uns ateliers para as manter entretidas. Cada vez mais fazem parte da visita, fazem parte do museu, cada vez mais arregaçam as mangas e participam, aprendem. E ensinam-nos a fazer melhores museus, a criar melhores experiências.

Agora as más notícias: quando existem, os serviços educativos são quase sempre departamentos menores dentro dos centros culturais, onde se vão fazendo alguns ateliers colados à programação do dia. Falta-lhes autonomia, faltam-lhes recursos e, muitas vezes, apesar de toda a boa-vontade (e há muita!), falta-lhes gente com formação à altura. Precisam da imaginação e da exigência dos pais, das famílias e das crianças. Estão à espera de ser desafiados!

Deste seminário saiu a vontade de transformar os serviços educativos em espaços permanentes de contacto com o público – e em particular com as crianças. Não só para lhes falar, mas para as ouvir. Para deixar que elas criem connosco os museus e as salas de espectáculos que queremos ter. As coisas estão a mudar e é tão bom constatar isso! Mas cabe-nos a nós, público, a obrigação de sermos sedentos, de procurarmos mais e de exigirmos melhor. De bebermos o que aí há e não demorarmos a perguntar a programadores, gestores culturais e patrocinadores: E agora, senhores?


*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças.

terça-feira, 9 de março de 2010

Põe-te na rua!

Por João Paulo Batalha*





De vez em quando recebo daqueles e-mails em cadeia (que desconfio ser sempre o mesmo e-mail) recordando as doçuras de ser criança nos anos 80: brincávamos na rua e comíamos terra e não morríamos. Andávamos de carro sem cinto de segurança (eu ia com irmãos e primos para a praia do Guincho empoleirados aos sete e oito e nove em pé no banco de trás de um Citröen Diane, as cabeças de fora ao vento para cabermos todos) e não morríamos. Íamos sozinhos a pé para a escola e não morríamos.



O não morrermos parece ser um ponto recorrente destes e-mails em cadeia – e, de facto, é argumento de mérito. Pois eu também não morri. Mas, verdade seja dita, não recordo com grande nostalgia a beleza inocente de tempos mais simples. Não me lembro dos desenhos animados dos anos 80 que tanta saudade causam – eu dormia, durmo e conto continuar a dormir até tarde aos fins-de-semana. Lembro-me só vagamente dos sugos e das bombocas e dos doces que consta que já não se fazem como antigamente.



Acho mal que as crianças já não brinquem na rua. Mas mesmo isso, para dizer a verdade, acho mal em abstrato. Quando era miúdo vivíamos, pai, mãe e três irmãos, numa casinha apertada em S. João do Estoril. Tínhamos a praia quase ao lado, a serra não muito longe e, na altura, descampados a fartar, invulneráveis à urbanização, mesmo ao pé de casa.



Mas a verdade é que sempre fui muito caseiro. Nunca gostei de jogar à bola (o que calhava bem, porque sempre fui muito mau nisso). Ficava em casa a ver televsão. Uma vez um relâmpago acertou-nos na antena e queimou-nos o televisor. A minha mãe recusou-se a consertá-lo. Descobri a leitura. Depois veio o computador (parece hoje ridículo aplicar o termo “computador” àquilo). ZX Spectrum, nome feliz porque, ao arrancar, o ruído que fazia parecia de facto convocar os espectros. Os jogos eram de uma simplicidade ridícula, com umas cassetes que se inseriam não me lembro bem onde e chiavam desgraçadamente durante dois ou três minutos antes de nos fornecerem um passatempo estúpido e pouco desafiante. Ah, o PacMan, que saudade!, dirá o e-mail.



Para brincar na rua, as mais das vezes, só por expulsão. Os meus pais fartavam-se de nos ver em casa e punham-nos na rua. Vão brincar lá para fora! Nunca os denunciámos à linha de apoio à criança. Que não havia, na altura. E nunca morremos (o que é argumento de mérito). De resto, pôr as crianças na rua era boa ideia, mas não era por sermos crianças. É porque, de vez em quando, é bom pormo-nos na rua, ponto. Mesmo que tenhamos 80 anos. Mudar de hábitos, experimentar novidades, sacudir a complacência. Tudo isso é sempre bom e não tem idade. E afinal, também se fazem muitas coisas boas e úteis dentro de portas. Garotos caseiros também são boa gente.



Hoje as crianças já não brincam na rua. Não é seguro. Os pais vivem aterrorizados com histórias de ladrões e assassinos, de condutores bêbedos que as atropelam e passagens de nível sem guarda – ou faz chuva e cai granizo e caem-nos as crianças com pneumonias. Claro que a maioria destes receios são irracionais e a nossa percepção do risco é espectacularmente exagerada. Claro. Mas está disposto a apostar nisso a vida do seu filho? Pois. De modo que hoje as crianças já não brincam na rua – como nós brincávamos e não morríamos. É uma pena. Uma autêntica tragédia. Um mal irreparável.


Bom. Mudam-se os tempos mudam-se as vontades, muda-se o ser muda-se a confiança e por aí fora. Eu também nunca brinquei muito na rua e sou normal.


Mais ou menos.




*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças.