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segunda-feira, 19 de março de 2012

A primavera não se discute


Antes não havia internet, então eu passei a minha infância a tentar explicar aos adultos que não, ao contrário das outras estações do ano, a primavera não começava num dia 21 mas sim no dia 20 de março.


Já não me lembro como sabia eu tudo isto desde tão pequenina. Provavelmente terão sido os meus pais a explicar-me. Tenho também a sensação de ter uma vez visto um programa de televisão em que alguém explicava detalhadamente o tema e de eu ter decidido que era muito importante guardar aquela informação.


Enfim.


A verdade é que era difícil encontrar um adulto que soubesse disto e o assunto foi motivo de grandes discussões desde aí os meus 5 ou 6 anos de idade. A primavera começa com o equinócio de março, dizia eu, que ocorre quase sempre no dia 20. Excepcionalmente calha a 21.


Não é uma efeméride inventada pelo homem, explicava a quem insistia.
E diziam-me “não, não a primavera começa a 21, então não sabes que é o dia da árvore?”.
E a discussão acabava porque eu não encontrava resposta para observações tão estupidas como esta.


Decidi que nunca mais ia discutir com ninguém o início da primavera.


Acho que foi acertado.


Hoje constato que é difícil encontrar pessoas que não funcionem por dias marcados, que entendam que há coisas que têm mais a ver com o centro do mundo, a rotação terrestre, as leis do universo do que com dias inventados para ordenar o caos com que não conseguimos viver. Não importa. A primavera deste ano começa no dia 20 de março às 5h14 da manhã e eu recebo com esperança o equinócio, em que as 24horas se dividem em duas metades e a noite e o dia são exactamente iguais.


Quase 30 anos depois, fico surpreendida ao constatar o quão importante continua a ser para mim assinalar correctamente o início da primavera. 


Talvez por ser o dia em que a minha mãe me puxou para fora, enquanto eu entrava no mundo sem chorar e a olhá-la fixamente nos olhos.


É. Pode muito bem ser por isso.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Parabéns, Mariana.


Eu lembro-me do dia em que ela nasceu, há 31 anos atrás. Lembro-me de estar em casa da minha avó e de me terem dito que a minha mana ia nascer. 

Não me lembro bem da sucessão de acontecimentos. 

Mas lembro-me que nesse dia estavam duas brasileiras em casa da minha avó, de visita. De dizerem que me tinham trazido uma camisola linda do Brasil. E de a camisola ser afinal uma camisa de dormir e de eu ficar a achar que me tinham enganado ou talvez que se tinham enganado elas porque aquilo não era camisola nenhuma. Lembro-me de não dizer nada na altura mas de tomar uma nota mental para debater isso mais tarde com a minha mãe. 

(se eu já a conhecesse nesse dia, a nota mental teria sido para comentar com ela).

Eu tinha 22 meses na noite que a minha irmã nasceu. Dizem que é impossível eu lembrar-me disto tudo, mas é verdade: eu lembro-me.

Como me lembro da avó a dizer que tu tinhas nascido, Mariana, e as brasileiras, tudo aos beijos, tão contentes.

Isto eu já não me lembro, mas a mãe faz questão de contar em todos os jantares de família, sempre que quer demonstrar o quão malévola eu sou. Não me lembro, juro, mas deve ser verdade que te dei um pontapé com as botas ortopédicas quando tu ainda nem andavas e que quando a mãe me foi castigar, tu te penduraste nas pernas para a impedir, enquanto gritavas que a mãe era má por me estar a bater. Ainda tinhas a cara inchada do pontapé, diz a mãe, quando vieste defender-me. 

Mais tarde, lembro-me só muito vagamente que estávamos a brincar às vizinhas, e eu te fechei a porta da casa de banho na cara e o teu dedo ficou metade dentro, metade fora e tu aos gritos e a Isabel aos gritos e sangue.

(E o teu dedo, para sempre cortado, o dedo da “batata”, como naquela foto na praia que estás tão bonita e depois vamos ver e na contraluz, um dos teus dedos mais pequeno que os outros. Desculpa, desculpa e estou a ser sincera, embora saibas que estou também a rir, mana, como é possível rir-me eu sei, mas estou arrependida, embora vistas bem as coisas até tenha piada. Agora. Na altura, não.)

Lembro-me vagamente, muito vagamente, de todas as asneiras e maldades que te fiz ao longo dos anos, mana. Mas há recordações mais claras para mim. Como quando dormíamos fora de casa e não havia a luz no corredor ou os barulhos na sala que nos embalavam habitualmente e tu tinhas medo do escuro. Então perguntavas-me “esperas por mim?” e eu dizia que sim e tentava manter-me acordada enquanto adormecias. Adormecíamos de mãos dadas, as duas.

Também me lembro dos nossos livros preferidos. Nunca deixámos de ler os nossos livros preferidos. Agora lemo-los às crianças que chegaram entretanto, mas nós… Mariana. Nunca deixámos de ser crianças as duas. 

Porque nos temos uma à outra. 

Tenho a certeza que é por isso. E é por isso também que ainda nos mandam calar às duas nos jantares de família em que nós estamos aos risinhos quando alguém discursa. E é por isso que os nossos irmãos, mais novos que nós, reviram os olhos e nos chamam infantis e parvas. E é por isso que gritamos tanto, choramos tanto, rimos tanto e nos abraçamos tanto. Somos infantis juntas, mas somos também corajosas. Damos coragem uma à outra, acho que é isso. 

Ainda há pouco tempo disseste-me: Tu nunca, mas nunca vais estar sozinha. 
E isso, garantido por ti, foi provavelmente a frase em que mais acreditei na vida inteira.
Desde que nasceste nunca mais fui sozinha.

É também porque me garantiste que, se me acontecesse alguma coisa tu nunca deixavas os meus filhos, que eu continuo a entrar em aviões, apesar de achar sempre que me vou estatelar a milhões de metros de altitude. Se os meus filhos não me tivessem a mim queriam ter-te a ti e isso tranquiliza-me. Haver para os meus filhos outra pessoa no mundo como eu. 

Com o mesmo património, as recordações, os cheiros da infância, as mãos dadas no medo do escuro.
A minha irmã. 
Adoro-te. Com todo o meu coração.
Parabéns, mana.


(Perdoa-me as botas ortopédicas que eu perdoo-te quando me puseste comprimidos para dormir na sopa para ires sair à noite. E eu tinha frequência no dia a seguir.
Pronto, não se fala mais nisso.)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A esperança não vem em latas



Não há luzes na rua, respondi-lhe, 
Mas temos luzinhas lá em casa. E teremos sempre luzinhas no nosso coração. E isso é o mais importante.

(Que treta, Constança. Que treta, grito silenciosamente a mim própria. 
Isto que estás a dizer à tua filha de cinco anos são tretas e tu sabes.)

Ela antecipou-se, e quase em eco com a minha voz interior, disse: 
Isso não faz sentido nenhum, mãe.

.............


Bom. A verdade é esta.

Em Dezembro de 2011 não houve luzes de Natal na nossa rua. Até podiam ser fiadas simples, aproveitadas das festas da terra, uns meses antes. Mas não houve. Nem uma. Como também não houve nas varandas das casas das pessoas que todos os anos ajudam a enfeitar a rua.
Nada.

Em Dezembro de 2011 por falta de dinheiro, ou de espírito, ou de ânimo ou, se calhar, por nada disto, mas apenas por vergonha de estar associado a qualquer coisa vagamente semelhante a uma comemoração ou festa, não houve uma única luzinha de Natal na minha rua.

Não entendam mal. Este texto não é um manifesto a favor das iluminações ou o que quer que seja. É só uma reflexão. Pensar ainda é gratuito, então eu acho que em alturas como esta, pensar é uma coisa que toda a gente devia fazer mais.

(como dar abraços e beijinhos e escrever bilhetinhos e dizer coisas parvas e rir à gargalhada. Isso também é tudo gratuito, mas compreendo que ninguém tenha grande vontade de o fazer. Só se fossemos tontinhos, dir-me-iam, se calhar, se eu o sugerisse neste texto.Não sabes a situação em que estamos?)

Como estamos em crise, as reacções que temos têm que ser mais pensadas, mais de acordo com “o manual de normas do comportamento aceitável em momentos de crise”.

Por exemplo. Não temos luzes de Natal nas ruas, mas depois, no dia de Natal, aparece um vídeo da Coca Cola a dizer que vai tudo correr bem. De repente temos vontade de abraçar toda a gente e distribuir beijos a eito. Vai correr tudo bem, mundo! 
Mas espera. 
Agora há um novo vídeo e este diz que temos é razões para odiar a Coca-Cola e os governos e que afinal há muito mais pessoas corruptas no mundo do que ursinhos de peluche e pronto, está tudo estragado outra vez. Que desânimo, para quê levantar da cama, estamos condenados, afinal. É aquela questão que sempre detestei: o copo está meio cheio ou meio vazio? E quem decide a perspectiva: somos nós ou quem segura o copo?

São assim os sentimentos enlatados. Trazem interesses escondidos, são de rápido consumo e pior, sejam bons ou maus, positivos ou negativos, não são nossos. Nós só somos ecos, arrastados na maré. 

Colaborantes, quase sempre. Algumas vezes mais inflamados. A encolher os ombros, na maior parte dos casos. Foi assim no final deste ano. Adivinha-se assim o próximo. A indiferença é mais gerível, afinal. Não cansa tanto.

No ano passado escrevi aqui uma história em que as crianças salvavam o mundo da indiferença.

Este ano não chamo os pássaros, e poupo nas metáforas. Vou dizê-lo claramente: são as crianças que vão salvar o mundo.

Porque não é preciso ensinar-lhes a esperança. Porque riem se estão felizes e choram se estão tristes. E o mundo pode mudar a cada dia, mas elas continuam a acreditar no Pai Natal e em fadas, e na magia em geral. E mais do que nunca, hoje, acreditar no Pai Natal e em fadas é absolutamente essencial.

Porque fazem perguntas, porque questionam, porque não desistem até terem resposta. E se a resposta não é satisfatória, elas perguntam outra e outra vez. Porque fazem birras, e porque o fazem em muitos casos, porque acham mesmo que têm toda a razão e que não é justo. E se não é justo, qual é o sentido de se calarem?

As crianças podiam salvar o mundo porque são corajosas. Porque enfrentam os adultos, quando estes têm duas vezes o seu tamanho. 

Mas acima de tudo, porque é na adversidade que pedem mais beijos, mais colo, mais amor. Porque quando estão tristes ou sozinhas, ou com medo do escuro no meio da noite, chamam por alguém.

E isto é o que todos devíamos fazer.


A tua pulseirinha está quase a romper-se, digo-lhe, para desviar o assunto das luzes,
Ainda te lembras do que desejaste?

Claro que sim, mãe.
Desejei um lindo arco-íris e duas borboletas.

….

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Das cidades e dos pássaros



Esta história não começa com “era uma vez”. E a razão porque esta história não começa assim é porque essa é a forma como se começa uma história que já aconteceu há muito tempo – há tanto tempo, que já nem nos lembramos de quando foi – e então dizemos “era uma vez”.

Não é esse o caso. Esta história aconteceu há pouco tempo, há bocadinho, ou está a acontecer agora, pode até estar ainda a começar ou não ter virado sequer a esquina. Mas nós já a sabemos. E então podemos contá-la.

Era então uma cidade igual a todas as outras. Como todas as cidades, tinha cores esta cidade. Era amarela e cor de rosa nas casas, vermelha nos telhados, tinha verdes inesperados, às vezes raros, e ruas escuras, que ficavam ainda mais escuras quando chovia. Mudavam as cores da cidade, consoante os dias, consoante o tempo. Mas ninguém se importava porque a seguir à chuva vinha o sol, depois da noite chegava o dia e as pessoas sabiam disso. Como sabiam disso, sabiam também que não havia nada de errado em rir e que também estava certo chorar. Porque as coisas só existem com os seus opostos e não há umas coisas mais certas que as outras.

E vivia assim esta cidade. Tinha dias bons e dias maus, pessoas boas e pessoas assim-assim, algumas pessoas más, outras simplesmente de mal com a vida. Mas vivia, a cidade, ia vivendo.

Nessa cidade, governada pelos adultos, havia também crianças.
Foram elas as primeiras a aperceber-se da mudança.

Ela veio devagarinho, talvez de noite, enquanto a cidade dormia. Chegou sem fazer barulho e começou a pintar as ruas, os prédios, os sorrisos, pintou tudo de cinzento. Era uma poeira fininha, quase imperceptível no início, mas que foi ganhando balanço, e assim, sem quase se aperceberem os habitantes da cidade, cobriu os dias, os gestos e as vozes.

Passou despercebida aos adultos, no início, mas não às crianças. Elas repararam logo no primeiro dia que as cores estavam mais baças e que os adultos tinham amanhecido com menos paciência, menos vontade de rir. Os gestos menos soltos, o coração menos livre.

Não tinham um nome para dar ao que se passava, as crianças. Mas os adultos, que precisam de nomes para todas as coisas, começaram a chamar-lhe muitas coisas. Crise, diziam alguns. Tempos difíceis, chamavam-lhe outros. Recessão, instabilidade, medo, insegurança. Havia sempre nomes para dar à onda de cinzento que atingiu a cidade. E quando os nomes não chegavam, arranjavam-se outros. Mais complicados, mas que diziam as mesmas coisas.

Só as crianças não entendiam porque se perdia tanto tempo a discutir a mesma coisa. Afinal, a vida tinha que seguir, bem ou mal. A roupa na corda tinha que ser apanhada senão vinha a chuva e havia outras coisas inadiáveis como o Natal ou os aniversários ou a vida.

E tentavam explicar isto, as crianças. Tentavam, mas às vezes saía-lhes mal. Saía em forma de birra. Ou então abriam a boca para pedir aos adultos que sorrissem mais, que tudo ia resolver-se e, enquanto resolve e não resolve, passam os dias e são dias perdidos, e era isto que queriam dizer as crianças, mas saíam-lhes trocadas as palavras.

Entre o que as crianças diziam e o que ouviam os adultos havia um desfasamento. Elas queriam dizer isto, falar da música e da alegria, pedir sorrisos e tempo. Eles ouviam pedidos de brinquedos caros e roupas de marca e DVDs e telemóveis. Não se entendiam, adultos e crianças.

E a culpa era daquela poeira cinzenta, com muitos nomes, todos feios.

Lembraram-se então as crianças de pedir ajuda aos pássaros. É uma coisa que se esquece quando se cresce, mas um talento que têm os meninos pequenos. Uma telepatia especial entre as crianças e os pássaros. Não comunicam por palavras, é tudo através do coração. Porque o coração dos meninos e dos pássaros é parecido: É pequenino, bate acelerado e sonha em voar.

Em segredo, as crianças pediram aos pássaros que furassem a poeira cinzenta e voltassem à cidade. Era Inverno e os pássaros não gostam de viajar com o frio. Mas não conseguiram ignorar o pedido das crianças. Chegaram já de noite e esperaram pela alvorada. E quando o sol raiou, cantaram. Cantaram à chuva, com as penas molhadas, enquanto a cidade acordava.

E os adultos apressados, como de costume, pararam e sorriram por uns instantes. Pelo inesperado dos pássaros pendurados nas árvores, a cantar fora de tempo, meses antes da Primavera. Sorriram um sorriso pequenino e surpreendido. Depois voltaram às preocupações habituais, porque às vezes é difícil deixar de vestir o casaco velho que pomos todas as manhãs e sair à rua com roupa nova. Mas sorriram.

Foram só uns instantes.

Mas o suficiente para as crianças ficarem mais descansadas por perceberem que os adultos não tinham esquecido como se fazia isso, de sorrir e ser feliz. Mesmo que só por um dia, ou até só por um instante.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Este post é longo (mas fala de sexo)

O teu corpo O meu corpo E em vez dos corpos
que somados seriam nossos corpos
implantam-se no espaço novos corpos
ora mais ora menos que dois corpos


Que escorpião de súbito estes corpos
quando um espelho reflecte os nossos corpos
e num só corpo feitos os dois corpos
ao mesmo tempo somos quatro corpos


Não indagues agora se o meu corpo
se contenta só corpo no teu corpo
ou se busca atingir todos os corpos
 que no fundo residem num só corpo
Mas indaga sem pausa além do corpo
o finito infinito destes corpos


David Mourão-Ferreira

Eram seis da tarde e eu tinha oito anos quando dei o meu primeiro beijo na boca. No campo de futebol da quarta classe, à porta das casas de banho, jogava-se ao bate-pé. Eu e uma amiguinha da mesma idade emparelhávamos com dois rapazes mais velhos (nós éramos da segunda, eles eram da quarta). Aquilo não estava fácil para o meu lado.


A minha amiga já tinha entrado na casa de banho duas ou três vezes, sem bater o pé aos números que correspondiam ao beijo na boca com e sem língua e a variações mais elaboradas que incluíam apalpões fortuitos e consentidos. Eu dizia que sim ao abraço, beijinho na cara e pouco mais. O resto, tudo o que passava do número 3, obtinha, lá está, um bate-pé determinado da minha parte.


Ora, diziam as regras que só se podia bater o pé três vezes até se ser expulso do jogo e a minha amiga começava a fulminar-me com os olhos. Afinal, ela queria continuar a jogar e eu não podia sair de jogo assim, já que o meu par era irmão dela e, haja limites, ela não ia jogar com o próprio irmão e o coleguinha. Não, eu tinha que continuar. Portanto, assim estávamos nós, às seis da tarde. Mais uma nega minha e o jogo estaria arruinado (bem como a minha vida social no recreio da primária, concluí eu, prudentemente). Foi assim que ao novo pedido de beijo na boca (sem língua, não te preocupes) enchi o peito de ar e entrei na casa de banho com o meu experiente companheiro. Fechei os olhos com força, cerrei os lábios e preparei-me. Pronto, foi rápido, está despachado. Dificilmente se poderá chamar beijo ao que se passou, mas por qualquer razão, o rapaz gostou e destemido volta a agarrar-me para pedir “mais um, só mais um”. Para mim foi o limite.


Um pontapé certeiro, a porta aberta em par e eu atravesso a correr o campo da quarta para entrar esbaforida na sala de estudo onde se faziam os trabalhos de casa e de onde eu me baldava diligentemente todos os finais de tarde.


No dia seguinte, e contrariamente ao que eu pensava, o grupinho do bate-pé não tinha desistido de mim. Não houve grandes jogos, mas por alguma razão, acharam que eu merecia o investimento e então dedicaram-se a explicar-me os factos da vida. Não fizeram um grande trabalho, diga-se de passagem. Mas eu estava abismada. Tanto que resolvi dizer à minha mãe que ela que não se preocupasse, pois eu já sabia o que era “f….”. E para confirmar: “Já sei que o homem e a mulher ficam todos nus à frente um do outro e depois a mulher engravida”. A minha mãe estava virada de costas a fazer o jantar. Lembro-me que ficou suspensa por um instante e se virou lentamente enquanto dizia: “Não se usa essa palavra porque é muito feia. E falta aí uma parte…”. Minutos depois, como qualquer criança de oito anos, eu estava completamente horrorizada e enojada.


(eu nunca, nunca, vou fazer isso, jurei a mim própria).


Avancemos vinte anos. Eu estou grávida. É domingo e estou na ronha no sofá com a minha filha de dois anos. Tenho uma barriga de cinco meses e contei-lhe há pouco tempo que vai ter um mano ou uma mana. Estamos a ver televisão e oportunamente vejo que vai dar o documentário da National Geographic, “A Vida no Ventre”. Parece-me uma boa ideia, vê-lo com ela, assim pode perceber melhor o que se passa dentro da barriga da mãe.


Começam as imagens e dou conta da esparrela onde caí - raio, mas como é que me fui esquecer da concepção?- o ecrã mostra a explosão de espermatozóides em correria desenfreada por ali acima e a menina delira: Que é aquilo, mãe? Que é aquilo?!Hesito. E decido despejar tudo de uma vez. “Olha que boa ideia, assim ficamos despachadas”, ela fica a saber como se fazem as coisas e se crescer a saber isto nem lhe vai fazer confusão nenhuma.

Comecei a explicar, mas ela bloqueou na palavra espermatozóide “Diz outra vez o nome daquelas minhocas, mãe!”, e ria, ria, ria…


Eu continuava estoicamente, tentando ser científica, mas pedagógica, num mix infrutífero. Tão infrutífero que se passaram dois anos deste episódio e ainda há poucos dias ela me pediu “Ó mãe, não fiques outra vez grávida sem falarmos com a senhora das sementes... É que eu desta vez quero mesmo uma mana”. Eu engoli em seco e balbuciei qualquer coisa como “não peças à senhora das sementes (?!), tens que pedir ao teu pai”. E fugi a sete pés.


Haverá uma razão para eu estar aqui a partilhar estes episódios bastante humilhantes. Na época da pedagogia e da ciência, fala-se da importância da informação para uma sexualidade consciente. Certo. Isto não é assim tão novo. Eu estudei 15 anos num colégio católico e em meados do 8ºano nós já sabíamos que havia sessão pedagógica sobre sexo. Meninas para um lado com a directora de turma “É normal que os rapazes tenham curiosidade sobre as vossas maminhas”, e nós aos risinhos (stôra, têm mais curiosidade pelas suas) e depois a garantia de que estávamos elucidadas para podermos sair mais cedo e ouvir à porta da sala onde estavam os rapazes com um padre velhote: “Agora que começais a sentir o sabor dos primeiros beijos na boca..”. E nós a correr pelo corredor fora, aos gritos e a rir.


Eram tentativas honestas dos adultos. Bem intencionadas. De cuja eficácia eu duvido, tal como duvido dos conteúdos assépticos e politicamente correctos, leccionados na sala de aula.

Dizemos que as crianças de hoje são mais avançadas, mais precoces. Não são. Elas têm é mais acesso a conteúdos que os adultos lhes fornecem.


Em muitos casos, o objectivo desses conteúdos é vender qualquer coisa. Noutros casos, mais raros, o objectivo é informar ou formar. Em ambos os casos, são coloridos, apetecíveis e têm uma boa dose de marketing. E usam orgulhosamente expressões como “sem papas na língua” ou “sem tabus” para justificarem o seu vanguardismo e ausência de preconceitos. Que interessa se os miúdos querem ou estão preparados para tanta informação. Se a sabem digerir. Como esta exposição que eu não vou comentar porque não vi. A Bárbara foi e diz que está bem feita. Eu confio. Mas comento esta reportagem, após a qual fiquei em choque.


Ele é bonecos com línguas articuladas, preservativos insufláveis, perguntas insistentes aos meninos que não sabem o que dizer. Que modernos e desempoeirados. (e desculpem-me, é de mim ou esta luta do sexo “sem preconceitos”, não é tão anos 90?). Horroriza-me o ar dos miúdos nesta reportagem. Tão incomodados, e a jornalista a perguntar “mas achas que dói?” e eles lívidos sem saber bem o que dizer. E mais de uma vez ouve-se “não sei nem me interessa”.


Parece-me uma súplica: mas porque me trouxeram aqui se eu só queria jogar à bola?

E fico a pensar. Nada contra explicarem às crianças de onde vêm os bebés. De forma informada e correcta. Está tudo muito bem. Mas arrepiam-me estes títulos “Sexo?.. e então?”.

Porque então… tudo.

Fica a faltar tudo.

Eu guardo para os meus filhos aquilo que acho que as crianças deviam saber. Quando perguntarem. Não antes disso. Que pressa temos nós de os encharcar em informação! Não sei se eles quererão ouvi-lo da minha boca, mas deixo na net. Pode ser que daqui a uns anos quando procurarem “sexo” no Google aqui venham dar e corem de vergonha com as palavras da mãe, mas qualquer coisa fique lá dentro.

É que eu não sei se confio nesta Educação Sexual politicamente correcta, com cheiro a desinfectante e látex.


E então falo para eles:



Eu tenho a certeza de que não é preciso veres exposições com bonecos articulados para saberes dar um bom beijo de língua. E não, não é nojento. Pode ser mesmo bom. Às vezes não é bom, mas isso é sinal que estás com a pessoa errada. Ou que és tu a pessoa errada para aquela pessoa. Às vezes só percebemos isso no dia seguinte. É confuso, mas assim são as coisas boas da vida… confusas, difusas. E sim, é bom teres toda a informação. Protege e respeita o teu corpo e o da outra pessoa. No momento decisivo o critério será o teu. Não te ponhas em situações de risco. Não vale mesmo a pena. E também não dói, necessariamente, lá está, se estiveres com a pessoa certa e estiveres preparada. Mas vai haver momentos em que não tens a certeza se é a pessoa certa. A verdade é que ninguém sabe bem, mas a maneira como o corpo se comporta é um bom indício. Vale a pena esperar porque há coisas que se calhar não vais compreender aos 14, mesmo que os Morangos com Açucar te pareçam tão adultos e conhecedores (são actores mais velhos a fingir ter a tua idade, sabias? e as palavras que dizem foram escritas por adultos).


Acima de tudo espero que descubras a poesia. Porque nas palavras inspiradas vemos como pode vir da carne o desejo, a paixão, o amor. É assim que deve ser. A vontade de agarrar e ser agarrado. Os dedos que queimam quando tocamos em quem amamos. As noites passadas acordado a pensar na outra pessoa, a música deprimente. O não querer adormecer só para ficar a olhá-lo mais um bocadinho. E um dia, anos depois da avalanche de hormonas, dás por ti a trocar fraldas, mas já não tens tempo de trocar poesia. És adulto, de repente. E fazes um ar entendido e falas sobre a importância da sexualidade consciente e alertas os adolescentes e as crianças de forma pedagógica. E crias exposições interactivas onde se leva os meninos ao fim de semana. E decides tu o timing em que se deve falar de sexo e como. E falas muito mas não fazes assim tanto. Porque em casa, já te esqueceste do fogo e agarras-te à ciência porque já não sabes dissertar sobre os mistérios do amor e da paixão. E usas a desculpa de que as emoções são subjectivas e é muito complicado e os meninos precisam de mensagens simples.


Mas isso é porque os adultos não sabem tudo. Porque se soubessem, arranjavam tempo e espaço. E se calhar descobriam que eles próprios também precisavam de alguma Educação Sexual ao longo da vida. Ou de ler um poema do David Mourão Ferreira de vez em quando, e de ter vontade de namorar mais.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Bairro do Amor


“Para criar uma criança é preciso uma aldeia inteira”

provérbio africano


Há coisas que só percebemos quando, de repente, sem estarmos à espera, olhamos em volta e tudo faz sentido. Eu não gosto de fazer planos, antes imaginar que ando ao sabor do vento e do destino. Esta filosofia, se assim se pode chamar, tem, obviamente, muitas falhas. Porque a verdade é que, mesmo inconscientemente, acabamos por procurar aquilo que queremos. Podemos é fazê-lo de forma tão despistada que nem damos por isso. E ser surpreendida com os resultados.

Foi o meu caso. Um dia, por uma sucessão de acontecimentos que simplesmente encaixaram uns nos outros, dei por mim a mudar de casa. Uma casa sobre a qual tínhamos feito uma reportagem uns anos antes e que não me saia da cabeça. Ao telefone eu comentava com uma amiga que um dia gostava de viver ali. Ela disse: “olha, ouvi dizer que está disponível”. Menos de um mês depois eu e o meu marido estávamos a mudar as tralhas.
Dois dias antes de começarmos a carregar caixotes, descobri que estava grávida. A minha barriga e o meu bebé já iam crescer ali.

É uma terra pequenina. Todos os dias quando saio de casa e cheira a mar, tenho a sensação que estou de férias, sem estar. Ao início estranhei a senhora da farmácia a perguntar se eu andava a tomar as vitaminas pré-natais ou os “bom dia” e “boa tarde” repetidos a cada 5 metros quando passeava na rua. Cresci e vivi no centro de Lisboa até me casar e o anonimato da cidade sempre foi das coisas de que mais gostava. Nunca me imaginei a viver de outra forma.

Até virem os bebés. Ela primeiro. E eu que não queria mandá-la para a escola antes dos três anos, constatei, ainda não tinha passado um ano, que não ia ter alternativa. Corri uma série de infantários. Uns tinham chão aquecido nas salas, outros, hortas biológicas ou piscinas de bolas. Todos cobravam mensalidades de (muito) mais de metade do meu ordenado. Em todos, durante os vinte minutos da visita, ouvi bebés a chorar, sempre os mesmos bebés, à espera de colo de alguma educadora ou auxiliar atarefada.
Mais uma sucessão de acontecimentos felizes e acabei por entregar a minha bebé ao único infantário onde não havia vagas, nem chão aquecido, nem luxos tecnológicos. Havia boa vontade, colos disponíveis e, mais importante, havia amor.
Tive muita sorte.

Como devia acontecer em todas as escolas, aqui as mensalidades são calculadas em função do rendimento dos pais. Como devia acontecer em todas as escolas, aqui todas as funcionárias desde a limpeza, às cozinheiras, passando pela directora, sabem o nome de todas as crianças. Como devia acontecer em todas as escolas, aqui há comida saudável e boa, feita, não por uma empresa, mas por cozinheiras a sério que mandam vir do talho carninha boa para os meninos e misturam maçã cozida na papa dos bebés. Como devia acontecer em todas as escolas, há regras e rotinas diárias, mas há também excepções, e meninos, que em vez de estarem na sala, andam a passear ao colo da directora pela escola fora, porque nesse dia estão mais tristes e há que lhes dar atenção especial.

E há música desde o berçário e, à medida que crescem, ginástica e ballet e natação. Tudo dentro do horário escolar, que a partir das cinco da tarde o trabalho das crianças é brincar. Não há muitos luxos, não é preciso. Há tudo o que as crianças realmente querem nestas idades: atenção, carinho, segurança. E há uma família na escola, de braços abertos para a família de casa.

Sei hoje que tive muita sorte. Ainda não tinha a ecografia do primeiro trimestre e o bebé número dois já estava matriculado. Lá anda ele, de colo em colo. A mais crescida chegou a chorar nas férias com saudades da escola. Até eu já tinha saudades do cheiro a sopa às 9 da manhã e o carrinho com maçãs cortadas para a merenda a passear pelas salas.

Levo os dois de manhã, um ao colo, a outra pela mão, o cão pela trela. É só subir a rua e estamos lá. À tarde, descemos a rua. Às vezes vamos até ao jardim, outras eles ficam a andar de triciclo e bicicleta na rua, com outras crianças do prédio e da escola. Ou apanham a senhora do quiosque que lhes dá beijinhos e bolos. No café ao fundo da rua, há outra senhora, com o mesmo nome da mãe, que põe a menina atrás da caixa registadora ou a leva para a cozinha para ajudar a fazer bolos.

Dizemos “bom dia” e “boa tarde” a cada cinco metros enquanto andamos na rua. E eu penso que, mesmo sem planear nada disto, não podia ter resultado de forma mais perfeita.
E tremo ao pensar que um dia eles vão sair e descobrir que o resto do mundo não é todo assim.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Só de fraldinha para ficarem mais fresquinhos

Quando tu nasceste, choraste e o mundo alegrou-se.
Vive a tua vida de forma a que, quando morreres, o mundo chore e tu te alegres.
(ditado nativo-americano)

Na semana passada comemorou-se o aniversário de dois dos meus avós. Da minha avó materna, que já morreu há muitos anos e de quem me lembro todos os dias como se a tivesse visto ontem, e do meu avô paterno, que está de excelente saúde e nos convidou para irmos lá a casa ver o futebol e jantar todos juntos.



Eu não tenho grande queda para o que normalmente se chama “os velhinhos”. Confesso que nunca senti muita apetência (nem paciência) para ouvir a mesma história vinte vezes, contada com voz trémula, e pontuada mil vezes com a expressão “no meu tempo” ou “isto agora”…


Na minha família nunca tive muito contacto com esta realidade. Os meus avós são, ou foram, pessoas activas, lúcidas, actualizadas e em contacto com a realidade do mundo. Os avós dos meus filhos trabalham tanto ou mais do que eu, ou, no caso dos meus sogros que já estão reformados, alinham em correrias no parque infantil e sabem de cor o último modelo do carro da Barbie ou a consola mais tecnológica lançada no mercado.


Mas recentemente, suponho que não alheio ao facto de ter passado a barreira dos 30, dou por mim a pensar na vida. Na velhice. Na passagem dos anos. Pela primeira vez, surpreendo-me a constatar que gostava de chegar aos 100 anos. Rodeada de netos e bisnetos. Do meu marido também, já agora. Gostava de ter alguém a quem contar o que aprendi na vida, como uma velha anciã, de roda de quem os jovens se juntam para ouvir frases cheias de sabedoria e conselhos avisados.

Descubro que talvez valha mesmo a pena fazer um pé de meia, começar já, e cuidar da minha saúde para um dia chegar aos 80 e ouvir coisas como “Ai, eu não lhe dava mais de 70!”.



Isto é o que eu gostava. Depois há a realidade. Há anúncios como o que eu vi há uns dias: “Vá de férias descansado e deixe o seu idoso connosco!”. Sim, é real, e a publicidade a um ATL para idosos.

E há a história que me contaram de uma reunião num serviço de saúde, em que se discutia a onda de calor e de como os idosos internados estavam a sofrer com ela, e onde alguém dá a genuinamente bem-intencionada sugestão: “Deixem-nos andar só de fraldinha para ficarem mais fresquinhos”.

E há as residências VIP para a terceira idade, na Marginal de Cascais, com uma vista espectacular para o mar e onde eu nunca vi ninguém na varanda. Ninguém. Não é tão triste?


(imagino-me a viver ali e digo sempre que por lá passamos, “quando a mãe e o pai forem velhinhos tu pões-nos aqui a viver e depois vens-nos visitar ao fim de semana, está bem?”. Ela abana a cabeça e tenta sempre fazer-me prometer-lhe que nunca vamos ficar velhinhos).


Oiço histórias como a da “fraldinha” ou o ATL para idosos e o meu primeiro instinto é rir. De tamanho disparate. Mas depois fica este nó na garganta.

Saberemos nós alguma vez arranjar forma de conviver com a velhice de uma maneira normal?

Penso nisto e lembro-me do que temos falado neste blog a propósito das crianças. De ter paciência, respeitar os ritmos, ouvir, aprender. De como o ritmo desenfreado nos impede de gozar as coisas simples, com eles.


Da importância de todas as idades da vida.

A imagem que ilustra o início deste texto é de Gustav Klimt e chama-se “As três idades da Mulher”. É muito conhecida. No entanto, talvez sejam mais os que conhecem o pormenor da obra em que a mãe, jovem, abraça o seu bebé. Mãe e filha. Belas. Perfeitas. A imagem da mulher idosa, à esquerda, raramente é utilizada para posters ou cartões de felicitações. E, no entanto, está lá.

Ela está lá, essa é a verdade. E está lá porque é real. A imagem que nos habituámos a ver não é a mãe e o seu bebé. É a mesma mulher. Só ocultámos a sua imagem já velha.

Estaremos a ensinar as crianças para conviver com a velhice? Com a nossa velhice? Com a sua própria velhice? Saberão elas que não há fases da vida mais ou menos importantes? Saberemos nós?

Como é que se faz isto...? Esta aproximação... sem ser levar as criancinhas a lares de idosos onde se batem palminhas e se dança descoordenado ao som de músicas ridículas?

Esta sociedade que sabe tudo comete os mesmos erros com as crianças e com os idosos. Cria ATLs para os entreter e libertar os adultos activos da sua guarda. Entretém-nos com digitintas e DVDs.

Qual é a maneira certa de recuperar o respeito pelo ancião?

Dúvidas, dúvidas… tantas dúvidas.

E só uma certeza. Eu não quero ser um fardo para os meus filhos quando for velha. Mas agradecia que houvesse alternativas a ficar, só de fraldinha, num hospital.
Horrorizada por ser eu, igualinha talvez ao que sou hoje, presa num corpo para o qual ninguém consegue olhar.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Panda, odeio-te. Tu sabes porquê.







Eu não acredito em fundamentalismos. Mesmo. Activismos a torto e a direito, movimentos anti-isto, contra-aquilo, não contam geralmente com a minha assinatura.



Por essa razão, lá em casa não há regras muito rígidas e convive-se facilmente com as coisas que impingem à criançada sem grandes proibições. Deixo a televisão ligada e deixo-os ver coisas aberrantes e/ou sem graça nenhuma como os Mecanimais ou o Ruca. Não percebo a piada mas eles parecem gostar e é esse o objectivo. Eu, pessoalmente, gosto mais de ver os filmes da Barbie, o Pequeno Ponei ou a Docinho de Morango.



Sem stress. Eu papei tudo isso em miúda e não me fez mal nenhum. Ainda hoje, quando preciso de uma caneta a meio de uma reunião de trabalho, o mais provável é que ela saia das profundezas de um estojo da Hello Kitty e que escreva em azul bebé com brilhantes e cheiro a amora.



Deixem-me explicar. Perceber (e trabalhar com) as armadilhas do marketing é saber que podemos isolar as nossas crianças de todas estas tralhas coloridas e comerciais mas vai haver um dia, há sempre esse dia, em que vão chegar da escola e perguntar porque é que todos os meninos têm uma mochila-com-DVD-incorporado-e-GPS-e telemóvel-que-brilha-no-escuro e eles não. Mais valia estarmos à espera e ter a estratégia preparada com tempo.




Enfim. Isto para dizer que eu acredito mesmo é no livre acesso e estimulação do sentido crítico. De tudo um pouco e de algumas coisas em menor quantidade. Até ver, tem resultado. É mais divertido fazer recortes na mesa da cozinha ao fim da tarde do que estar especada em frente ao Canal Panda. É mais giro sair ao sábado do que papar os DVDs das Winx. Pois ela sabe que eles estão lá. Mas também sabe que o mundo está cheio de coisas mais interessantes para fazer.



O que me leva ao verdadeiro tema deste texto. No sábado estivemos no Festival Panda, esse grande evento para a criançada que vai já na terceira edição e cujos anúncios têm dado em repeat nos últimos 2 meses. Mais omnipresente que o Festival Panda, talvez só mesmo as vuvuzelas… e mesmo essas, acreditem, baixaram o seu lugar no pódio dos ódios de estimação para um honroso segundo lugar depois deste fim de semana.



Pois que seria de pensar que foi a menina que pediu para ir ao Festidal Panda. Mas não. Foi a mãe que achou que este ano podíamos levar os meninos. Fazíamos a surpresa. Levávamos o bebé também que acha graça às músicas e bate palminhas. Fazemos umas sandocas e comemos na relva. Vamos de manhã pela fresquinha. Gastamos para cima de 50 euros, mas o que é isso comparado com o brilho nos olhos dela quando de repente der por ela e estiver no Festidal Panda.



Burra. Mil vezes burra.
Seria de pensar que, no mínimo, e já que os bilhetes não eram propriamente dados, se conseguisse pelo menos estar no recinto. Que houvesse umas sombritas, umas coisas para as crianças fazerem. Que houvesse birras na hora de ir embora e pedidos lacrimejantes para ficarmos só mais cinco minutos.



Pois que doce ilusão a minha. Que crassa falta de experiencia em eventos para massas infantis e respectivos agregados familiares.



Houve o mega-concerto da Banda do Panda e seus amigos. Um palco de fazer inveja a muitas bandas de carne e osso, ao melhor estilo Rock in Rio, onde mascotes de peluche, envergadas por pessoas que devem ter feito muito mal a alguém numa vida passada, tiveram honras de estrelas e gritos apoteóticos. Milhares de criancinhas à torreira do sol saltaram e aplaudiram as músicas debitadas por um CD fanhoso. Das 10h30 às 12h30. Duas horinhas. Pleno horário vermelho. Sem um toldo, uma arvorezinha, uma sombrita. Nada. A alternativa era o espectáculo da tarde entre as talvez mais recomendáveis 16h30 às 18h30. Mas nós achámos que de manhã estava menos gente e era mais fresquinho.



Estivemos uns minutos, o suportável. Fugimos para as pretensas diversões do recinto. Meia dúzia de espaços com as habituais pinturas faciais, jogos diversos, insufláveis. Tudo patrocinado por marcas que distribuíam leites, papas, sumos, farturas (!)e merchandising diverso, a quem conseguisse resistir às longas filas e tivesse uma vocação especial para estar de mãozinha esticada à espera da generosa oferta.



Nova fuga.
Um sítio à sombra. Um sítio à sombra. Um sítio à sombra.
Lá arranjámos uma árvore piedosa e um bom m2 de relva para sentar. Ao longe víamos as criancinhas nos insufláveis de borracha sob o sol do meio dia.


Saltavam, coitadinhas, acredito que mais pelo medo de fazer uma queimadura de terceiro grau nas pernas e no rabo do que pela diversão da coisa.



Os miúdos estavam cansados, birrentos. Olhei em volta. Parecia o estado geral de todos. Birras, irritação, calor, desidratação, filas de gente a acotovelar-se. Parece o metro em hora de ponta a uma terça-feira. Parece mesmo. Mas junte-se um carteirista hábil a sacar-nos uma nota de 50 euros do bolso para a analogia ficar perfeita.



Odeio-te, Panda”, disse entredentes. Os altifalantes do recinto replicaram “O Panda é Fixe!”.




Reformulei: “Odeio-te, organização deste evento”.
E fui de enfiada: “Por pensares que as crianças não são mais que meros sorvedouros pedinchões dos euros dos pais, por fazeres os pais acharem que os vão fazer felizes ao trazerem-nos a um evento onde a organização não quis desperdiçar uns trocos numa porcaria de uns toldos para que (não é esse o objectivo?!) eles pudessem de facto brincar, por teres escolhido um local sem condições nenhumas, por não teres gasto um tostão nas áreas de diversão e tudo passar por marcas e mais marcas e mais marcas. Por achares que as crianças não são mais que meros macaquinhos que basta pôr a saltar e a gritar refrões idiotas e os pais meros gananciosos à cata do suminho grátis para darem o dia por bem passado.”



Acima de tudo, concluí, “Odeio-me”. Por ter caído na esparrela. Não é o tempo perdido nem os euros gastos. É o ter tido, eu que até trabalho na área, a ilusão de que quando se organiza um evento para crianças um dos critérios devia ser…o bem-estar das crianças.



Depois do Festival Panda, haverá em breve e no mesmo local um evento para mamãs. Uns dizem que é porque o Parque dos Poetas tem bons acessos, etc, etc. Outros dizem que é porque leva gente a granel e dá para lá pôr bancas a rodos. Que se lixe se tem condições.


Pois quanto a mim, estou decidida.


Faz parte de uma conspiração.


Depois de tentarem fritar as criancinhas, agora estão de olho nas grávidas.


Depois não digam que eu não avisei.

terça-feira, 1 de junho de 2010

És melhor que eu e não tenho medo de o dizer

Nan Lawson. Aqui.

Eu não gostava muito de efemérides. Mas com o passar do tempo aprendi a encontrar-lhes utilidade. É que, o que parece tão óbvio, afinal não o é assim tanto e os “dias mundiais” de qualquer coisa sempre vão servindo, se não para outra coisa, para relembrar e reflectir.


Pense-se no dia de hoje, aplique-se nos outros dias todos.

É um bom lema que tenho procurado seguir.


No Dia Mundial da Criança, é urgente recordar a Convenção dos Direitos das Crianças.


Ninguém pode exercer ou reivindicar o exercício de direitos que desconhece ter.


É importante que as crianças saibam que um dia, há mais de 50 anos atrás, pessoas de vários países perceberam que as crianças são tão importantes para o futuro do mundo, que são tão valiosas e especiais, que se reuniram para deixar escrito a maneira como todos os meninos deviam ser tratados, num documento que todos os adultos deviam seguir.

É importante que as crianças saibam que sempre que, de forma mais ou menos subtil, atropelamos os seus Direitos básicos, somos nós que estamos errados e não eles. Que nós é que não estamos a ser bons o suficiente, ou inteligentes, ou pacientes, ou respeitadores. Que nós é que estamos a falhar. Não eles. Temos as nossas razões, muitas vezes, quase sempre, mas não deixamos de falhar. Mas não é justo, só porque o mundo é grande e eles são pequenos, que as nossas razões prevaleçam sempre.

Hoje vou substituir a história da hora de deitar por isto. E vou explicar-lhe que ela tem direito a todas estas coisas básicas e ainda outras. Que todas as crianças em todo o mundo têm estes direitos, mesmo nos países em que eles não são mais que uma miragem longínqua. Porque os adultos falham. Falham demasiado e são tão estupidos, tantas vezes, que preferem proteger os seus interesses imediatos do que o futuro, como se não fosse haver um amanhã e não fossem precisos novos homens e mulheres para o mundo continuar a avançar.

E, sabendo conscientemente que isto se vai virar contra mim um dia, possivelmente já amanhã ou mesmo 5 minutos depois, vou dizer-lhe com todas as letras:

As crianças são melhores que os adultos e quase sempre têm mais razão que eles.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Post útil #2

Dica para fazer menina de 4 anos beber a sopa toda sem pestanejar:




Ameaçá-la com um vegetal que ela ache ainda mais horroroso.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Quatro




Há quatro anos, faz hoje quatro anos, eu estava a arrumar roupinhas de bebé e a dar risinhos com a minha irmã. Estávamos contentes e nervosas, expectantes com este bebé que era só nosso e com quem íamos “poder brincar à vontade”.

Eu e a minha irmã tínhamos esta sensação estranha de que o bebé que eu ia ter pertencia na realidade à nossa mãe. Comentávamos isto e riamos: “Achas que a mãe nos vai deixar andar com ela ao colo o dia todo?”. Na altura, sabíamos da estranheza desta impressão, mas não compreendíamos bem o porquê. Achámos que se devia ao facto de os últimos bebés a que tínhamos tido acesso terem sido os nossos dois irmãos mais novos, esses sim, de facto, os bebés da minha mãe.

Hoje, quatro anos depois, compreendo que não era só isso. A verdade é que eu não sabia ser mãe. A minha mãe sabia. A minha mãe é uma mãe de mão cheia. E eu, inconscientemente, achava que por isso, ela seria a melhor pessoa para ser a mãe do meu bebé.

Eu dizia “a minha filha” e olhava em volta, a tentar perceber se mais alguém achava aquela frase tão estranha como eu. Em segredo dizia-te "és o meu brinquedo". E mais baixinho, "desculpa, eu não sei bem o que estou a fazer".

Não foi automático, nem fácil, nem rápido. Foi trabalhoso e desafiante, como costumam ser as grandes aprendizagens da vida. Foi o que tinha que ser. Tu aprendias a viver neste mundo, eu aprendia a ser a tua mãe. Todos os dias coleccionámos uma nova lição. Até não haver dúvidas e estarmos as duas adaptadas. Mãe e filha.

Gosto de ir avaliando a minha prestação. Faço-o de uma maneira científica e rigorosa.
E então às vezes pergunto-te:

“Gostas da mãe ou queres ir buscar outra ao supermercado?”

(Umas vezes dizes logo Gosto desta, outras gozas-me descaradamente. “Gostava mais de ter outra” e acrescentas alguém que sabes que me vai fazer ciúmes, muitas vezes a avó, mãe do pai. Também já disseste que gostavas de ter dois pais. Eu rio-me e tu também. Sabemos que não tens alternativas. Mãe é mãe. Que se há-de fazer?)


Amanhã fazes quatro anos e eu tento lembrar-me como é o mundo quando temos quatro anos. E ocorre-me que crescer não é mais do que o esticar dos ossos aliado a algum cansaço trazido pelos anos. Não é muito mais do que isso, sabes. Para mim não tem sido.

Eu estou na mesma para aí desde os meus 18 anos. Não mudei muito, sou talvez mais paciente, mais tolerante. Sei mais coisas, descobri mais caminhos. Mas na essência, estou igual. E por isso, te digo: não esperes que os anos te tragam respostas. Confia que aquilo que hoje te parece evidente provavelmente é porque é mesmo.

Um dia vou mostrar-te este texto. Mas só quando fores crescida, se calhar mesmo à beira de teres os teus próprios bebés. E nesse dia vais perceber que ninguém sabe realmente o que fazer. Fingimos, isso sim. E ao fazê-lo aprendemos.

Há coisas que eu faço porque tem que ser, porque é o que é suposto uma mãe fazer. Às vezes consigo aparentar convicção, outras nem por isso.

E aqui te conto alguns segredos.

Eu e o pai, quando vamos às reuniões na tua escola, sentimos sempre que os pais dos outros meninos são amigos dos nossos próprios pais e não pessoas da nossa idade.
E eu, quando falo com a tua educadora, acho sempre que ela me vai mandar vestir o bibe e sentar-me ao pé de ti e dos teus amigos no tapete.

Lembras-te quando pintaste as paredes do corredor a caneta? Fiz uma cara zangada, mas deram-me vontade de rir aqueles rabiscos a menos de um metro do chão pela parede fora.

Outra: Quando eu insisto para comeres a sopa, é mais por uma questão de princípio. Não quero que sejas uma miúda “esquisitinha”. Mas sabes, na maioria das vezes, até nem havia problema se não comesses. Há coisas que eu também não gosto, ou que só aprendi a gostar mais tarde.

Ah. E eu não me importo se não tiveres sempre boas notas.

E acho que quando entrares na escola não devias ter trabalhos de casa.

Eu prefiro que tu tenhas vontade de brincar do que sejas a melhor da turma. Aliás, não precisas de ser a melhor em nada.Se um dia fores a melhor (seja no jogo do elástico ou se ganhares o Nobel da Química) que seja porque o percurso para lá chegar te deu gozo e felicidade e não porque meteste na cabeça simplesmente que tinhas que ser a melhor.

Também não precisas de um dia ter um cargo muito importante. Basta teres um trabalho que te faça feliz e te permita obteres as coisas que são verdadeiramente importantes para ti. Preocupa-te com essas, deixa as outras.
O tempo é mais importante que o dinheiro. A liberdade é carregarmos pouca bagagem. Não stresses, ignora o ritmo do mundo e vive segundo o teu próprio ritmo.
Vais estar muitas vezes rodeada de pessoas chatas. Uma dica: Mantém a tua imaginação fértil e a tua criatividade apurada. São o botão turbo para accionar em caso de emergência: O teu corpo fica, mas a tua cabeça já está a passear. Abana a cabeça com ar afirmativo e diz “Pois” ou “ahã” de vez em quando. Ninguém vai reparar que não estás a prestar atenção nenhuma.

Eu gostava que me respeitasses sempre mas que não tivesses medo de mim. Eu sei que quando fores adolescente vai haver alturas em que terei que te ameaçar com mil castigos e tu me vais desafiar constantemente. Às vezes já o fazes. Mas olha, se um dia estiveres mesmo enrascada, vem pedir-me ajuda. Que eu seja o teu primeiro telefonema. Sempre.
Aconteça o que acontecer, eu estou aqui para te ajudar.
E mantém-te fiel aos teus princípios. Em tudo o que fizeres deves ser honesta, trabalhadora e justa. Educada. Ciente da liberdade dos outros. Tolerante. Boa. Generosa. Feliz.
Tudo o resto são pormenores.

E, olha, dou-te estes conselhos, porque sim.
Porque as coisas que a minha mãe me ensinou ficaram para sempre na minha cabeça.

Mas eu sei que a decisão será sempre tua. Não posso viver por ti.

Eu sou tua, mas tu não és minha. Tu és do mundo.

E, aos quatro anos, o mundo é teu.

Parabéns, meu coração.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Teremos sempre o beijo



Podemos não ter sol este fim de semana. Nem mergulhos na praia, nem uma toalha de quadrados vermelhos numa mesa comprida sob o sol italiano. Mas beijos, esses teremos com fartura. Sempre que quisermos, que nos apetecer. Sem ter que pagar, ou poupar, ou planear. É democrático e universal. Beijar a mãe, o pai, o marido, os filhos, o bebé. Dá vontade de dançar e cantar. Espalhar o amor.

Un respiro profondo per non impazzire; una semplice storia d'amore
(...)
La tua vera natura, la giustizia del mondo
che punisce chi ha le ali e non vola.
Baciami ancora…Baciami ancora…
Tutto il resto è un rumore lontano una stella che esplode ai confini del cielo.

(É um respirar fundo para não enlouquecer, uma simples história de amor. A tua verdadeira natureza. A justiça do mundo, que castiga quem tem asas e não voa.Beija-me mais, beija-me ainda. Tudo o resto é um ruído longínquo, uma estrela que explode nos confins do céu.)

Bom fim de semana!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Obrigada Medicina. Obrigada Destino.

Ninguém gosta de ver um filho doente. E falo das doenças triviais, banais, nada de especial, que sabemos que fazem parte da infância e que são um mal necessário, mas que não deixam de ser uma chatice. A verdade é essa.
A mim bastam-me as viroses, bronquiolites, febres repentinas e afins para andar durante esses dias de respiração sustida, quase em piloto automático, à espera que passe e se vão cumprindo as etapas previstas rumo à recuperação total. “Ao terceiro dia a febre começa a espaçar, ao quarto dia já deve estar mais bem-disposto, a tosse demora um bocadinho mais, mas se está a comer é bom sinal…”.
Dou por mim a repetir estes timings como se fossem infalíveis, garantia de qualquer coisa, como se fossem um mantra que pela repetição se torna realidade. E torna. A verdade é que, na maior parte das vezes, as coisas se resolvem rapidamente e sem problemas. Passam-se umas noites em claro, limpam-se vomitados a meio da noite, dá-se uso à maquina dos aerossóis e está feito. Pelo menos até à próxima.

Já me conformei com este culto da paciência que implica a época das viroses. Não há muito a fazer senão esperar que passe. A alguma prescrição médica, junta-se uma dose extra de mimo que ajuda sempre. Também sou um bocadinho avessa a encharcar as crianças em medicamentos. Vale-me um pediatra pouco interventivo e confiante nas leis da Natureza. Tranquilizador. As corridas para a urgência são quase inexistentes. Tal como um oráculo sapiente, os seus prognósticos cumprem-se rigorosamente. Eu fico sempre surpreendida, como se assistisse a um milagre da previsão do futuro. Como se tivesse consultado o curandeiro da aldeia e ele acertasse em tudo só por interpretar as nuvens, ou sinais de fumo, ou o que quer que seja que os curandeiros usam para os seus diagnósticos.

Mas quando há percalços, quando no dia em que o bebé devia melhorar e piora, quando a febre, em vez de ceder, dispara, eu, que gosto de pensar em mim como uma mãe semi-new-age regresso ao natural-crianças-descalças-e-a-comer-terra, sinto-me repentinamente grata por ter uma urgência onde recorrer, com aerossóis e raio x e receitas para aviar na farmácia.

E só ter que esperar 24 horas para que o antibiótico comece a fazer efeito e o bebé volte a querer brincar e gatinhar e comer. Que deixe de gemer e tenha os olhos colados com ramelas infectadas e secreções amarelas a entupir-lhe o nariz e a afogar-lhe a garganta, o peito a chiar como uma locomotiva. Que haja uma ajuda farmacológica para que ele não tenha que passar mais um dia disto do que o necessário. Que a sociedade civilizada que eu tantas vezes critico, possibilite estes recursos que noutros lados do planeta são inexistentes.
E penso nas mães e pais que não podem fazer mais nada senão velar os bebés a noite e pôr-lhes panos húmidos na testa para baixar a febre. E esperar. Esperar que as crianças superem, o que sabemos que nem sempre acontece. Nos sítios onde não há médicos ao virar da esquina, nem hospitais, nem farmácias de serviço. Muitas vezes nem água potável.

E sinto-me grata por viver num país onde há tudo isto. Obrigada Medicina, obrigada investigação científica, obrigada sociedade civilizada, com todos os teus defeitos.
E obrigada Destino, por teres feito os meus filhos nascer do lado certo do mundo.

terça-feira, 16 de março de 2010

Vínculo

Ele nasceu. E quando o encostaram a mim, ele abriu a mãozinha e encostou-a em cima do meu olho, como quem diz “Cheguei. Podes descansar”.

Nos dias seguintes, as enfermeiras da maternidade entravam no quarto para o encontrarem quase sempre ao colo. “Ai que esse bebé vai ficar tão estragadinho”, vaticinavam. Eu respondia “Não se preocupe que ele vai comigo, não o deixo cá”. Elas sorriam, a pensar “coitadinha nem sabe no que se está a meter…”.

Mas eu sabia. Sabia sim.

Na minha segunda gravidez tudo se passou a correr. Não tive muito tempo para grandes contemplações ou festinhas na barriga. Passei o tempo a correr, a trabalhar, a cuidar da mais velha. Orgulhosa por estar a dar conta de tudo. Sem mãos e pés inchados. Sem o “andar à pinguim” das grávidas de fim de tempo. A dar colo à minha filha até ao final. A ter reuniões e a mandar mails urgentes. Gravidez não é doença e lá andava eu com uma barriga gigante, orgulhosamente (hiper)activa.

Quando dei por mim na recta final, enviada à pressa para casa porque o líquido amniótico tinha desaparecido e o bebé não estaria a crescer como se esperava, senti-me uma bomba relógio. Pedia ao bebé que nascesse se não estivesse bem. Bebi litros de chá de canela e folha de framboesa, experimentei pontos de acupunctura e posições de yoga para o convencer a sair para o mundo, já que o mundo que ele conhecia até então poderia não estar a dar-lhe o que ele precisava.

Ele, horrorizado, trepava por mim acima e encaixava-se-me debaixo das costelas, o mais longe que conseguia da porta de saída. Li na altura que os bebés tendem a subir quando se sentem inseguros, aninham-se do lado esquerdo onde está o coração da mãe. Parece que nos rapazes é mais frequente, (o que até pode explicar muita coisa).

Já eu, desesperava. Afogada num baby blues prematuro e irremediável, passava o dia a chorar. Não. Minto. Não passava o dia só a chorar. Passava-o também a ver o vídeo em que a mãe do Dumbo, enclausurada porque teve um acesso de fúria ao defender o seu bebé das orelhas grandes, o embalava como conseguia, tromba através das grades, enquanto o pequenino chorava. De cortar o coração, eu sei. Na altura, estranhamente, parecia-me a solução óbvia. Passar os meus dias a ver este filme. Era tudo o que eu podia fazer.

Ainda na barriga prometi-lhe que quando nascesse eu iria ser assim. Uma mãe em estado selvagem, a defender a cria, a dar-lhe colo a todas as horas do dia. Teria mama quando quisesse, alguém para lhe velar as cólicas e os sonos trocados, sempre com um sorriso e paciência, tanto quanto possível, sem desesperar de cansaço. Seria um bebé de ouro, cujos pezinhos só tocariam o chão quando ele quisesse, porque até lá seria transportado ao colo.

Eu, a mãe macaca. Ele, o bebé filhote.

Primitivos e felizes, alheios a uma sociedade que espera que os bebés durmam 7 horas, mamem de três em três (mas acordem a tempo de esbanjar sorrisos para as visitas), cheirem sempre bem e não gritem muito, de preferência.

Na filha número1 ainda houve tentativas para a "domar", habituar às (nossas) rotinas, como se fosse possível fazer de um recém-nascido um adulto responsável, assim em meia dúzia de dias. Sem sucesso, claro. Não vale a pena lutar contra os bebés. As primeiras semanas são de caos absoluto. Mais valia dizerem-nos logo isso e pronto.  No filho número dois percebi que a solução para nos entendermos com um bebé está na natureza. A minha costela revolucionária já me devia ter ensinado a não procurar validação em manuais de instruções para bebés.

Mas o nosso instinto sai sempre reforçado quando encontramos as nossas estratégias improvisadas de maternidade, impressas em formato livro. Encontrei-o aqui. Diz o pediatra Carlos Gonzalez que os nossos bebés actuais choram porque são os sobreviventes de gerações longínquas, os descendentes de bebés antepassados que choravam a plenos pulmões e assim levavam os adultos a não os deixar sozinhos, mercê de predadores e outras ameaças. O choro do bebé é no fundo a emissão de “sinais de alerta”, sob a única forma de que dispõe. O choro do bebé enerva os adultos, fá-los agir no sentido de o acalmar. É esse o objectivo: fazer-nos agir. No meu caso, perceber a biologia das coisas ajudou-me a superar noites infindáveis a tentar aplacar cólicas e desassossegos. A ter calma. A respirar fundo. A não desesperar. A usar métodos antigos como o embalar, cantar canções de ninar, a embrulhá-lo em mantas apertadas e encostá-lo junto a mim para que o bater do coração que ele tanto procurava dentro de mim o acalmasse cá fora neste mundo que ele não conhecia e onde pela primeira vez encontrava a dor.

No fundo a deixar fluir hormonas. A construir o amor. A transformar este bebé perfeito num filho. O meu filho.

"... é impossível estragar um bebé dando-lhe muita atenção. Estragar significa prejudicá-lo. Estragar uma criança é bater nela, insultá-la, ridicularizá-la, ignorar o seu choro. Contrariamente, dar atenção, dar colo, acariciá-la, consolá-la, falar com ela, beijá-la, sorrir para ela são e sempre foram uma maneira de criá-la bem, não de estragá-la. Não existe nenhuma doença mental causada por um excesso de colo, de carinho, de afagos... Não há ninguém na prisão, ou no hospício, porque recebeu colo demais, ou porque lhe cantaram canções de ninar demais , ou porque os pais deixaram que dormisse com eles. Por outro lado, há, sim, pessoas na prisão ou no hospício porque não tiveram pais, ou porque foram maltratados, abandonados ou desprezados pelos pais. E, contudo, a prevenção dessa doença mental imaginária, o estrago infantil crónico , parece ser a maior preocupação de nossa sociedade."
in "Besame Mucho", Carlos Gonzalez

Fiz há pouco tempo uma tentativa patética de o deixar no infantário. Seria de esperar que, com tanto mimo parental, ele estrebuchasse, estranhasse, recusasse. Mas não. O meu bebé estende os braços para qualquer colo e não recusa ninguém. Não "estranha", embora esteja supostamente na idade de o fazer. Também na escola ficou sossegado, entretido a olhar os brinquedos, a educadora, os outros bebés. O meu bebé de ouro é, para os outros, um bebé banal. E é bom que assim seja, ajuda a equilibrar as perspectivas.

Eu, do lado de fora, contive-me o mais que pude. A vontade de usar a tromba de elefante para partir o vidro e embalá-lo foi quase mais forte que eu. Voltei a olhar. Ele estava bem. Nitidamente melhor integrado do que eu. Recolhi a tromba e saí de mansinho.

No caminho ocorreu-me.
Os bebés de coração cheio, não têm medo de voar. Mesmo que tenham orelhas grandes.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A caixa.. ou a importância do Porque Não?

Corbis/Sandra Seckinger


Falava há alguns dias a Bárbara, prezada contribuidora deste blog, sobre a importância do não. Dizia que nem sempre o não tem que vir acompanhado de uma explicação, que às vezes é não e pronto, acabou.

Eu cresci a perceber que havia "nãos" que até eram negociáveis, enquanto outros eram "nãos" a sério, incontornáveis e finais. "Nãos" que quando eu perguntava "porquê" tinham como complemento "porque eu sou a mãe/pai e digo que não". E eu aceitava. Parecia-me lógico. Parece-me lógico ainda e, embora não tenham sido muitas as vezes, já usei este argumento do "eu sou a mãe e digo que não" numa ou outra situação.

Há uma tendência actual para se falar disto. Reflexo de inversão, suponho eu, face ao surgimento dos tais "pequenos tiranos" com honras mediáticas. Os tais que, dizem, estão a crescer com ausência total de regras. Fala-se muito da importância da autoridade, das regras firmes, das balizas que as crianças devem ter, de forma a não crescerem desaustinados e verdadeiras pestes endemoínhadas que nunca serão felizes na vida, simplesmente porque assumem que tudo lhes é devido.


Certo.


Mas eu deparo-me com uma curiosa dicotomia. Na minha profissão, que atravessa o marketing, comunicação e afins, usa-se muito, cada vez mais de há uns anos para cá, o conceito de "thinking outside the box". Esta expressão, que nem sequer é recente, nem inicialmente aplicada a estas áreas, sintetiza algo que é cada vez mais valorizado: o pensamento criativo na procura de soluções alternativas. Imaginemos uma reunião de briefing criativo, um brainstorming para uma campanha, numa agência de comunicação. Ao fim de duas horas de banalidades, alguém sugere algo inesperado como soltar 70 lémures selvagens no metro em plena hora de ponta, vestidos com t-shirts estampadas com o logotipo do cliente. E pronto. É considerado um génio.

A verdade é que nós, adultos, estamos a valorizar cada vez mais esse bem raro que se tornou a criatividade. Estamos a perceber a sua importância, a sua necessidade imprescindível face a uma vida, que por mais que não aceitemos ou antecipemos, é em si mesma…imprevisível. Já percebemos, por fim, que quando A não leva a B, teremos que inventar um C para lá chegar.

Mas… ao mesmo tempo, esquecemos que os verdadeiros “thinkers outside the box” estão mesmo aqui ao lado. Sim, estão ao nosso lado. Mas temos que olhar para baixo para os ver...As crianças são reservatórios natos de criatividade. De uma imaginação que não conhece limites. A não ser aqueles que nos encarregamos afincadamente de lhes impor.


Mãe, posso ir de pónei para a escola?

Mãe, podemos jantar no chão da sala?

Mãe, porque é que não faltas ao trabalho e ficamos em casa a brincar?

Mãe, o jantar hoje pode ser cocó?


Todas as perguntas são verídicas, a todas elas a resposta foi “não”. Mas dou por mim a pensar: “Porque não?”. (excepto a última, e por motivos óbvios…).Porque é que nos sai tão mais rapidamente o "não"…? Não, quase sempre "não", a tudo o que sai do normal, da rotina, do convencionado. Dizemos muitas vezes “Não” para bem deles, claro, da sua saúde, da sua estabilidade. Para bem até da articulação entre afazeres e responsabilidades, para bem da nossa própria subsistência. É verdade: temos que trabalhar, viver, conviver com a sociedade, as suas regras. As regras são importantes.

Mas também nos sufocam, coarctam… A rotina inexorável mata a criatividade. E o “porque não?” pode ser um grito de liberdade em dias cinzentos.


Assumo como compromisso férreo responder mais vezes “Porque não?” a todas as propostas inocentes e deliciosamente disparatadas que ela me fizer. E aceitar onde quer que isso nos leve. Um dia, gosto de acreditar, o “porque não” pode levá-la longe, mundo fora à descoberta, sem medo de deixar raízes ou de arriscar. Pode fazê-la largar tudo por amor ou viver aventuras imprevistas.


Ou pode, simplesmente, levá-la a soltar lémures selvagens em hora de ponta no metro.


Qualquer uma das opções será com certeza… bastante divertida.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Mais má que todos os maus

imagem: Eva Armisén



Quando a minha filha mais velha nasceu, o que me surpreendeu verdadeiramente foi a sua independência. Constatei-a separada de mim, um ser autónomo, com uma individualidade própria que nunca imaginei que pudesse ser tão clara num bebé recém-nascido. Olhando para ela, senti-a destemida, corajosa, independente.

O prenúncio revelou-se acertado. A falta de medo dela chegava a assustar, não especialmente a mim, mas muitas vezes aos que nos rodeavam. Aos 18 meses, no café, o bêbedo da terra estendeu-lhe a mão e ela, sem hesitar, saiu porta fora com ele. Sem olhar para trás, enquanto eu, de boca aberta, assistia à cena e aos gritos dos presentes: "Vá atrás dela!", "Olhe que ele leva a menina!". Com 2 anos, entrava destemida pelo parque infantil, abraçava na rua pitbulls que passeavam com coleiras de picos, chamava a atenção de qualquer adulto, em qualquer situação ou local, sempre que entendia que uma injustiça social estava a ser praticada.

Inconsciência, dirão uns. Falta de noção do perigo. Têm toda a razão, com certeza. Mas para mim, quando um ser tão pequeno enfrenta assim um mundo bem maior que ela, não é só falta de conhecimento. É também uma coragem do caraças.

Há pouco tempo, já a caminho dos três anos e meio, começou o medo "dos maus". O medo do escuro, os pesadelos. Calculei que fosse normal nesta fase. Ela olhava para mim em busca de tranquilização e eu tive vontade de lhe garantir que não há maus nenhuns, que podia dormir descansada, ir às escuras pelo corredor até ao quarto. Porque os maus não existem. É tudo imaginação.

Mas poderia fazê-lo, em consciência?

A minha filha tem três anos e meio e já percebeu que o mundo está carregado de “maus”.

Ela vai contactar com eles durante a vida, não com os “mais maus” de todos, os verdadeiros “maus”, espero eu, mas provavelmente com uma variedade ampla de “mini-maus” que todos nós enfrentamos no dia a dia.

(os mauzinhos, os egoístas, os mesquinhos, os invejosos, os mentirosos… oh senhores, a lista de maus do quotidiano pode mesmo ser infindável e o grau de danos que nos podem inflingir varia, não só em gravidade, mas também no nível de influência que lhes permitimos.. mas isso será assunto para outro post).

Não. Eu mãe, que preparo a minha filha para a vida, não posso garantir-lhe que os maus não existem. Suponho que esta percepção adquirida seja até uma forma de auto-protecção que lhe vá ser útil. Mas também não quero contagiá-la com medos.

Com os meus medos. Tantos, tantos mais, desde o dia em que ela nasceu e eu me tornei mãe.

Num espaço habitado por psicólogos e pediatras sinto-me uma herege ao terminar o relato. Mas confrontada com as perguntas em catadupa,

“Há maus no meu quarto, mãe? E lá fora na rua? E os maus entram em casa quando estamos a dormir? E se me apanham?”.

Não, não dá para pensar em respostas pedagógicas ou estruturadas.

Sigo o instinto, e a cada pergunta com o coração mais apertado, disparo e resolvo o assunto:

“Não te preocupes porque os maus não entram cá em casa.
Tentaram uma vez e a mãe agarrou num pau e bateu-lhes tanto que eles fugiram a correr.
Deitaram sangue e tudo. Bati-lhes com toda a força.
Tanta, que esses maus avisaram os outros maus que tinham ficado em casa que aqui vivia uma maluca que batia nos maus com toda a força.
Agora todos os maus têm medo de aparecer aqui.”

Ela sorriu, condescendente, mas (mais) tranquila.
Confio que saberá conciliar isto com outros ensinamentos, nomeadamente de que os problemas da vida não se resolvem à cacetada.

Eu preciso de ter presente em mim esta confiança de que, para defender um filho, somos capazes de tudo. Se o devemos fazer e quais são os limites, essa será outra conversa.

Para já, assunto resolvido.
Dorme descansada, minha querida, que o perímetro está seguro.