Mostrar mensagens com a etiqueta Bárbara Wong. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bárbara Wong. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Eu, eles e os heróis!

Por Bárbara Wong*


Quando era pequena sonhava ser como a Super-Mulher! Igual! Rodar sobre mim mesma, dar duas voltas e transformar-me! Ter um fato elegante e patriótico (igualzinho ao dela, que isto de termos uma bandeira vermelha e verde, faria o fato perder toda a graça!), uma cintura de vespa e peito!

Mas, por mais voltas que desse, ficava tudo na mesma, as mesmas tranças, a mesma saia, as mesmas sabrinas e o mesmo ar de menina pequena, sem peito, sem rabo, sem nada… Ainda assim, a imaginação dá para muito, por isso, imaginava-me de olhos azuis, cabelo longo e encaracolado e pronta para combater as injustiças. E ele era pontapés, corridas e saltos!

Hoje, eles têm outros heróis, vibram e imaginam tudo tal e qual como nós quando tínhamos a sua idade e dão uns pontapés e uns socos valentes, também correm dos inimigos ou com eles e fazem os mesmos gestos que os seus heróis, sejam o Ben 10, o Homem Aranha ou outro. As meninas não têm a Super-Mulher, mas têm outras heroínas, sejam cantoras como a Hannah Montana (um bocadinho pateta, mas há sempre uma liçãozinha de moral a tirar) ou as Winx (que também lutam contra o mal, transformam-se e voam! Muito melhor do que a antiquada Super-Mulher que só corria e saltava…).

Os heróis fazem parte do nosso crescimento. São figuras de referência e o que nos fica da infância não são os pontapés, mas a ideia que lutam pelo bem e pela justiça, valores que queremos que eles tenham. Depois, é educá-los, é dizer-lhes que os problemas não se resolvem com pontapés, mas com diálogo. E eles aprendem, uns levam mais tempo do que outros, mas aprendem!

Confesso que ainda hoje gostava de ser a Super-Mulher, sobretudo ter os seus olhos azuis e a cintura de vespa! Mas mesmo sem estes requisitos, eu sou uma Super-Mulher: quem senão uma Super-Mulher faz, em duas horas, pequenos-almoços, lanches, prepara os miúdos para sair para a escola; faz o almoço, um bolo, deixa a mesa posta, prepara-se para sair e toma o seu pequeno-almoço? Só uma Super-Mulher! Porque, de seguida, há um dia de trabalho pela frente, sem fato patriótico, mas na procura de fazer a justiça e praticar o bem!

*Bárbara Wong é jornalista do Público, especializada em assuntos da Educação.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Começar a estudar, desde já!

Por Bárbara Wong*



O novo ano lectivo começou há poucas semanas. Depois das apresentações e das revisões da matéria dada no ano anterior, os primeiros testes já estão marcados e os trabalhos já têm prazo de entrega. Eles ainda têm memórias das férias, volta e meia ainda há um dia ou outro que lembra a praia, o dolce fare niente, as tardes de leitura ou de jogos intermináveis.

Mas não! A rotina está aí, as aulas e as centenas de actividades extra-curriculares. E se estas últimas são às centenas, então, o melhor é desenhar um horário onde se meta tudo o que a criança tem e ver em que horas é que pode estudar e quantas sobram para brincar ou, pura e simplesmente, não fazer nada. As últimas são importantíssimas.

Antes que a escola recomende aos pais para se sentarem ao lado dos filhos, para supervisionarem se os trabalhos de casa estão a ser feitos. O melhor é anteciparmo-nos e fazermos isso mesmo. Não ficar só pela pergunta, gritada da cozinha: “Tens trabalhos? Já fizeste?”, mas ir lá ver se existem, se estão feitos e se têm um ar de resposta completa e não de qualquer coisa que se tirou das soluções, vindas no final do livro.

Eu sei, ao fim do dia, os pais estão cansados e a escola e os trabalhos de casa podem ser motivo para conflito com os filhos, uma guerra que se quer evitar. Mas não pode ser! Há que respirar fundo e manter a calma. Afinal, o ano é para começar com o pé direito e levá-lo pelo melhor caminho possível.

Além disso, os filhos gostam, mesmo que não o admitam, que os pais se interessem pelos seus assuntos, que os acompanhem, que os “chateiem”, que estejam ao seu lado a apoiá-los e apoiar não é fazer o trabalho, é ajudar a descobrir a resposta, a fazer pesquisa, a procurar e não “chega-te para lá que eu faço isto, que é muito mais rápido!”.

É impossível prometer que serão horas bem passadas, mas serão certamente horas que vão ajudá-los a conseguir melhores resultados.

*Bárbara Wong é jornalista do Público, especializada em educação.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Regresso às aulas



Por Bárbara Wong*

As férias terminaram e Setembro já começou. Se antes de ir de férias não o fez, então agora é a altura certa: uma limpeza ao local de trabalho dos mais novos, de preferência com eles, para que aprendam a fazê-lo sozinhos, para que não estejam constantemente a perguntar aos pais onde é que está isto ou aquilo – eles sabem, eles arrumaram, lembram-se?

A limpeza serve para guardar os cadernos do ano lectivo passado, os livros (deixar apenas os das disciplinas cuja matéria é sequencial, as gramáticas, dicionários e outros livros auxiliares), e deitar fora o restante material obsoleto (as canetas que já não escrevem, os lápis partidos, os pedaços de borracha, etc).

Feita a limpeza é possível escrever uma lista do que é preciso comprar e que será muito pouco, porque os maiores pedidos de material vêm das disciplinas de EVT e Educação Física e, se a criança não tiver perdido ou estragado, esse material pode passar de ano para ano, até ao secundário!

Logo aqui é uma grande poupança porque não precisa de comprar todos os anos os pincéis, godés, lápis de cera, réguas e esquadros, etc; provavelmente terá que comprar canetas de filtro, guaches, cola e as sapatilhas para a ginástica porque a criança cresceu.

O menino quer um estojo do herói em voga, mas o do ano passado está bom. É uma questão de explicar isso mesmo e se tem que comprar novo material evite a Dora, a exploradora, as princesas da Disney, o Pooh, o Ben10, de maneira a que nada passe de moda e possa continuar a ser utilizado. Ou escolha heróis eternos como o Homem-Aranha e o Snoopy!

Quanto aos livros escolares - por esta altura já estão todos encomendados – veja se os irmãos mais novos podem herdar algum dos mais velhos. Para cada disciplina, é normal haver livro e caderno de exercícios, provavelmente só precisará de comprar os cadernos de exercícios, caso frequentem a mesma escola e não tenha havido novas adopções de manuais. Mais uns euros poupados!

Uma secretária arrumadinha, bonita, com todos os livros e cadernos (ou dossiês) alinhados, é meio caminho andado para entusiasmar uma criança para o novo ano lectivo que se aproxima! A expectativa de rever os amigos, os professores, a escola é muita! Há meninos que nem dormem por estes dias, sobretudo os que vão mudar de turma ou de escola.

Visitar a nova escola antes de as aulas começarem é bom para a criança porque lhe permite desmistificar a ideia que tem do estabelecimento de ensino. Se puder conhecer o professor ou director de turma, por estes dias, melhor ainda. Muitas escolas preparam actividades de integração dos novos alunos, o que é positivo. Transmite-lhes outra segurança saber onde são as salas de aula, as casas de banho, o refeitório; do que andar à deriva pelo recreio, com medo de perguntar.

Aos pais cabe-nos transmitir-lhes estabilidade, segurança e confiança, mesmo que tenhamos as mesmas borboletas no estômago... Bom regresso à escola! Ah! E lembrar-lhes que não é só ir à escola passear o material escolar, que o novo ano se conquista desde o primeiro dia de aulas: concentrados, com atenção e respeito pelos professores e colegas.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Hiperactividade ou falta de educação?

Por Bárbara Wong *


Acreditem que estou convencida que a “hiperactividade” existe, que é uma doença e que deve ser medicada, tratada, acompanhada, etc. Contudo, conheço casos diagnosticados como “hiperactividade” e a mim não me parece mais do que falta de educação.

Senão, vejamos:

G., seis anos, diagnóstico: hiperactividade. Na escola, a professora queixou-se que o menino era muito agressivo, atirava-se para o chão a gritar e a espernear quando a docente o mandava ficar quieto, sentado, a fazer os trabalhos, como aos outros. Pontapés nas pernas da professora, queixou-se a mesma.

Eu lembro-me do crescimento de G. . Desde bebé em frente ao televisor, as refeições foram (e continuam a ser) feitas com um pequeno ecrã de DVD em cima da mesa, para que a criança coma em sossego e não faça barulho, concentrada que está nos desenhos animados.

As brincadeiras envolvem sempre lutas, guerras, bater e “morrer”. Há lá coisa mais feia que ouvir uma criança de três anos, com ar zangado a dizer: “Vou-te matar!” e sermos surpreendidos com um murro no nariz? Aconteceu-me, não achei graça, peguei-lhe nos pulsos, olhei-o nos olhos e disse-lhe em tom muito sério: “Não. Nunca mais voltes a fazê-lo”. Remédio santo, nunca voltou a acontecer, ganhei o afecto de G., mas não o dos pais. “Somos incapazes de falar-lhe assim, estava a brincar”, censuraram-me.

G. corre atrás do gato da avó, agarra-o, aperta-lhe a cauda e o bicho arranha-o. Culpa do animal que é muito arisco, dizem os pais. G. replica a mesma brincadeira com o cachorro da família, que o mordisca. Castigo para o animal, decidem os pais. G. brinca com os primos e amigos que depressa não querem brincar com ele. O problema é dos outros. Hiperactividade e aquele xarope que o acalma. Má educação, digo eu.

J., quatro anos, o terceiro filho, faz uma diferença de oito anos da irmã mais velha e cinco da do meio. “Quero um chupa”, grita desalmadamente, às sete da manhã, dentro do carro. A mãe corre as pastelarias todas, abertas àquela hora, à procura do chupa que não existe. Ele não desiste e grita durante uma hora, até que o supermercado abre e o chupa aparece na sua mão.

O menino pára de chorar, de rosto fechado diz: “Não quero”. “Vou dar à M.”, responde-lhe a mãe. “Não. É para o lixo. Lixo” e os gritos recomeçam. Estava zangado porque as irmãs foram para fora e ele ficou sozinho, justificam os pais. Para a próxima, as meninas não sairão de casa, decidem.

Castigadas as filhas, mas não o menino a quem são feitas todas as vontades. É preciso termos paciência, desculpam os pais. Não quer comer com a família porque “andou a petiscar antes do almoço”; quer sentar-se no lugar do avô ou do tio, “é só desta vez”, pedem; ou grita “calem-se todos, calem-se todos, calem-se todos” enquanto os adultos tentam conversar, “gosta de chamar a atenção”, riem-se os progenitores. Má educação, digo eu, exasperada e logo recebo um olhar de censura.

Há sempre uma desculpa para não assumirmos as nossas funções. No fundo, no fundo, a esperança dos pais (os de J. não estão sozinhos) é que a escola remedeie a situação. Se a escola não conseguir, haverá sempre um medicamento que adormecerá a falta de educação destes miúdos e a venda desses fármacos continuará a aumentar, como dizem as notícias.


* Bárbara Wong é jornalista do Público, especializada em assuntos de Educação, e autora do livro "A Escola Ideal: como escolher a escola do seu filho dos 0 aos 18 anos" (ed. Sebenta, 2008)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O que fazer com os miúdos?

Por Bárbara Wong*



Os mais velhos, eu e dois dos meus primos, todos com menos de dez anos, carregávamos os baldes, as pás e tomávamos conta dos mais pequenos, a mais nova tinha um ano, ainda precisava do carrinho. Chegávamos à praia e a minha avó sentava-se, grande, no seu fato-de-banho de fundo preto e florinhas pequeninas, de óculos de sol e chapéu de palha de abas largas, a conversar com as vizinhas, das barracas ao lado - as amigas que revia anualmente, que nos diziam como estávamos crescidos e bonitos -, mas sempre com um olho em nós.

O Verão era longo e depois vinha o tempo que passávamos na quinta, a brincar no tanque de água gelada, a dar de comer aos patos, às galinhas, a dormir na casota do cão; a regar a horta, de sacho na mão, a abrir caminhos para a água entrar e o cheiro dos tomateiros, da salsa. A viajar na carrinha de caixa aberta, com o vento quente a bater na cara e os olhos entreabertos.

A apanha da fruta, pêssegos, maçãs e, por último, a vindima. As férias de Verão eram tão compridas que podíamos fazer a vindima, de cestinha no braço e a tesoura na mão, a cortar os cachos das uvas, a deitá-los para a tina, a ir no tractor com o senhor António até à cooperativa onde deixávamos o fruto do nosso trabalho e da nossa diversão.

Eram quase quatro meses de dias compridos que pareciam pequenos com tanta coisa que havia para fazer! E sestas! E romarias! E, pelo meio, as viagens ao estrangeiro com os pais, quando estes tinham férias.

Hoje as férias da escola são mais curtas e nós não sabemos o que fazer com os miúdos porque já não há avós grandes e calorosas, donas-de-casa com as suas criadas e muitos netos à mesa, ao almoço e ao jantar. Hoje as avós trabalham ou têm pouca paciência para os miúdos.

“Porque é que achas que pago um balúrdio pelo colégio?”, ouço perguntar ao meu lado. Por estes dias, as aulas acabaram, eles têm dois meses e meio de férias e nós 22 a 25 dias... Não há família alargada e a opção passa por mais escola, desta vez mascarada de ATL, alguns funcionam nos estabelecimentos de ensino, outros em empresas, fundações e instituições.

Os miúdos vão à praia com a escola, fazem campos de férias por cá ou no estrangeiro e tudo isso é bom, acreditamos; eles têm mais oportunidades do que nós tivemos com a idade deles, aprendem línguas, conhecem autores e pintores contemporâneos, ouvem histórias, constroem-nas eles, convencemo-nos.

No fundo, no fundo, não é bem verdade porque o que eles gostam mesmo é de estar connosco, de preferência, sempre! E quando digo “connosco” não falo só dos pais mas dos tios, dos avós, da família.

Por isso, a proposta que deixo é que a família seja mais solidária. Porque é que não há um tio que vai de férias e leva os sobrinhos todos? Ou uma avó? Ou uma madrinha? Se as famílias fossem cooperantes entre si, em vez de pagar ATL's, pagavam-se gelados, refeições fora de casa, bilhetes de cinema, etc.

Utópico? Não! Eu adoro levar os filhos e os sobrinhos à praia, ao cinema, ao museu ou simplesmente ficarmos sem fazer nada! Adoro ensinar-lhes o que sei, ouvir o que sabem, fazer cara feia quando se portam menos bem, dar-lhes abraços, beijos e vê-los sorrir e então lembro-me das minhas férias e rezo para que eles não se esqueçam nunca de mim, como eu não esqueço a minha avó!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A escola ideal




Por Bárbara Wong*

A pedido do Bebé Filósofo escrevi este post. Aqui vai:

Sabendo que escrevo sobre educação, colegas de profissão, leitores do PÚBLICO e amigos perguntam constantemente: “Conheces a escola x? O que te parece a escola y?”. Por isso, em 2008 decidi escrever "A Escola Ideal: como escolher a escola para o seu filho dos 0 aos 18".

Há escolas com equipamentos de topo, com chãos amortecedores de quedas, escorregas e câmaras de filmar (o que para mim é assustador! Há quem pense que a câmara o ajuda a proteger o filho e não pensa que está a invadir privacidade da criança)... MAS, com um corpo docente fraquinho, que muda anualmente, que não desafia as crianças, pouco comprometido.

Há escolas que parece que pararam no tempo, com mesas com ângulos afiados, com demasiados degraus, que quebram algumas regras de segurança... MAS com um corpo docente espectacular, familiar e profissional.

Há escolas novas com bons profissionais e escolas velhas onde tudo é mau... MAS não há escolas ideais porque, por muito boa que a escola seja não é como nós realmente idealizamos, porque as escolas são feitas de/por pessoas.

No livro, além de calendários para planificar todo o processo de procura, visitas e tomadas de decisão, proponho um gráfico para os pais preencherem à medida que vão conhecendo as escolas em que estão interessados, este depois de preenchido pode ajudá-los a escolher. Além de conselhos objectivos, acrescentei informação prática sobre matrículas, calendarização das mesmas e afins. Sem esquecer as crianças com necessidades educativas especiais ou situações como mudar de escola a meio de um ciclo.

Em resumo: O que é que os pais devem ter em conta na hora de escolher a escola? O corpo docente, o projecto educativo, as instalações e nunca, mas nunca escolher sem fazer uma visita. Se a direcção não abrir as portas, esqueçam, não vale a pena. As escolas não devem ter segredos para os pais.

No dia do lançamento de A Escola Ideal, a mãe de uns amigos dos meus filhos veio dizer-me que estava satisfeitíssima porque tínhamos os filhos na mesma escola, logo, aquela só podia ser a melhor do país! Eu não tenho dúvidas, MAS conheço pais que tiraram de lá os filhos para os por noutras ainda melhores! O que é que isto significa? Que nem todos procuramos a mesma coisa!

*Bárbara Wong é jornalista no "Público" há 13 anos, especializada em temas de Educação, Ensino Superior e Família. Em 2005 ganhou o prémio de jornalismo "A Família e a Comunicação Social", com um texto sobre os pais que partilham tarefas com as mães, intitulado “Um homem na sala e na cozinha”.



Em 2008 publicou o livro "A Escola Ideal: Como escolher a escola do seu filho dos 0 aos 18 anos". É co-autora, com a professora Ana Soares, do blogue Educar em Portugues. É casada e mãe de um rapaz e de uma rapariga.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A importância do pré-escolar

Por Bárbara Wong*

Quem não inveja, nem que seja só um bocadinho, as glamorosas donas-de-casa norte-americanas, que tomam conta dos seus filhos desde que nascem, ponha o dedo no ar. Não vejo um único dedo no ar! Elas existem, não é só nos filmes mas na vida real. São mulheres que estudaram, completaram o ensino superior mas os ordenados dos maridos permitem-lhes ficar em casa, ser mães a tempo inteiro e cozinheiras fabulosas, que fazem bolos com vários andares e cheios de cores (estou a exagerar).

A verdade é que elas ficam com os miúdos em casa até aos seis anos, idade com que entram para a escola. O pré-escolar existe nos EUA mas ou é para as crianças oriundas de famílias que podem pagar centenas de dólares mensalmente para estarem no jardim-de-infância ou para os mais desfavorecidos, aqueles para quem o inglês não é a língua materna, para os filhos de mães trabalhadoras, ou seja, para as crianças para quem o pré-escolar foi pensado como uma maneira de esbater as desigualdades à entrada do 1.º ciclo.

No primeiro dia de aulas, numa turma de 1.º ano, a professora chama o aluno pelo nome e ele não responde, a professora insiste até que o miúdo se apercebe e responde-lhe: “Eu não me chamo John, o meu nome é Mad Man (uma alcunha)”. Há crianças que chegam ao primeiro ciclo sem saber o seu nome próprio, afirma Sambie Shivers-Barclay, do departamento de Educação de Washington, DC, depois de contar a história e continua: “Há crianças que entram na escola e não sabem o nome, não sabem os números nem o alfabeto, não sabem sentar-se a uma secretária porque a única coisa que fizeram até então foi estar sentadas frente à televisão”, reforça.

O pré-escolar não é obrigatório nos EUA e por isso a aposta tem sido muito pouca neste nível de ensino. Por isso, existem milhares de jardins-de-infância com listas de espera, onde as direcções podem escolher os alunos e onde os pais que podem prometem mundos e fundos para que os filhos ingressem; mas também existem os que têm listas de espera para receber os mais pobres, os que têm necessidades educativas especiais, os que não sabem inglês.

A administração Obama tem dado particular importância ao pré-escolar como um meio para combater as desigualdades e de promover o futuro sucesso escolar. No final do ano passado, o governo federal disponibilizou mil milhões de dólares para que os 50 estados desenvolvam programas de pré-escolar. Enquanto por cá ainda nos escandalizamos porque a oferta do pré-escolar não atingiu os 100 por cento; no estado de Oklahoma apenas 55 por cento das crianças de quatro anos frequentam, ao passo que no Nevada apenas um por cento o faz.

Mas, como dizia no princípio, muitas mães estão em casa e os condados oferecem outras alternativas como o “day center”, onde a criança pode passar duas ou três horas diárias ou estar algumas vezes por semana, a fazer actividades semelhantes às desenvolvidas no pré-escolar; ou programas onde mães e filhos podem participar em conjunto.

A aposta tem que ser num pré-escolar com qualidade, como dizia Claire Hamilton, professora da escola superior de educação da Universidade de Massachusetts, “o pré-escolar pode ser qualquer coisa mas é o que vai marcar os alunos para o resto da vida. É o que vai determinar o futuro da criança se esta começar a ouvir falar sobre a universidade quando ainda tem quatro anos”. Ou seja, quando os pais têm poucas ou nenhumas expectativas, o pré-escolar pode e deve – lá como cá – fazer a diferença na vida das crianças, desde a mais tenra idade.

*A jornalista viajou a convite do Departamento de Estado dos EUA e a viagem foi financiada pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Controlar o ímpeto de elogiar!

Por Bárbara Wong*





Não é por serem nossos filhos, mas eles são mesmo lindos, inteligentes, divertidos, boas pessoas, etc, etc... Enfim, tudo de bom! E nós não nos cansamos de o dizer! Lá em casa, acreditamos que a promoção da auto-estima torna-os mais seguros de si mesmos, que os ajuda a gostar deles e a serem melhores. Mas, por vezes, caímos no ridículo.

Ele faz um traço, olhamos maravilhados e dizemos: “Tens mesmo jeito, talvez possas pensar numa carreira na arquitectura”. Ela dança e canta: “Podias actuar na Broadway!”. Ele tem um paladar apurado: “Quem sabe não serás um afamado cozinheiro ou crítico gastronómico?”. O sentido de humor deles é imparável: “Gato Fedorento, cuidem-se!”

Às tantas, eles gozam connosco: “Ai, vejam bem, vejam bem, como ele é tão bom a abrir a mãozinha, olhem! Ai, a mãozinha aberta e agora... Fechada! Ai que inteligente!”, diz ele, com mais cinco centímetros do que eu, a imitar-me a voz e os movimentos. “Olhem como ele sabe tão bem despejar o lixo, talvez vá para almeida!”

Contudo, desde que li Choque na Educação – Como os nossos erros estão a afectar os nossos filhos e o que podemos fazer para educá-los melhor, do jornalista Po Bronson e da educadora Ashley Merryman, publicado pela Lua de Papel, e citei algumas partes ao pai, que controlamos o nosso ímpeto de elogiar.

Bronson e Merryman lembram que A Psicologia da Auto-Estima, de Nathaniel Branden publicada em 1969, defende que a auto-estima é a qualidade mais importante de uma pessoa. E que, desde então, esta ideia teve uma enorme repercussão na sociedade americana com consequências. De repente o culto da auto-estima servia para combater todos os males da sociedade. Por exemplo, em 1984, a Califórnia introduziu legislação que promovia que nas competições os treinadores de futebol deixassem de contar os golos e passassem a dar troféus a todos; os professores deixaram de corrigir a vermelho, tudo para não prejudicar a auto-estima dos mais pequenos.

Segundo uma meta-análise feita a 200 estudos sobre o tema, concluiu-se que “uma elevada auto-estima não melhorava as notas nem o sucesso profissional. Nem sequer reduzia o consumo de álcool. E muito menos contribuía para a diminuição de qualquer tipo de violência”.

Na verdade, os elogios às crianças podem ter um efeito contrário: “os alunos elogiados passam a evitar correr riscos e a sentir-se menos autónomos (...); [têm] uma menor persistência na execução de tarefas (...). Quando chegam à universidade, os alunos muito elogiados desistem frequentemente de disciplinas quando estão em risco de receber notas medíocres e têm dificuldades em escolher uma major – têm medo de se comprometer com algo porque têm medo de falhar.” Mais. Quando crescem, estas crianças tornam-se adultos competitivos e interessados em destruir os outros porque têm que preservar a sua imagem.

Depois de lermos e comentarmos estas páginas constatamos que algumas destas coisas já aconteciam: “X” não se esforça porque tem medo de errar; “Y” é pouco persistente. Mudamos o registo de comunicação. Agora dizemos: “Nada se consegue sem esforço. É preciso trabalhar. Tens que pensar. O cérebro é um músculo que tal como os abdominais tem que ser trabalhado.” Deixámos de elogiar o global – “és tão bom!” - e passamos ao particular, a elogiar a persistência, o trabalho concreto, o esforço que fazem para conseguir uma coisa.

Mas, entre nós, mãe e pai, continuamos a comentar como eles são fantásticos, maravilhosos e nos enchem de orgulho a cada dia que passa, ou seja, auto-elogiamo-nos-a-nós-mesmos (perdoem a redundância)!

*Bárbara Wong é jornalista no "Público" há 13 anos, especializada em temas de Educação, Ensino Superior e Família. Em 2005 ganhou o prémio de jornalismo "A Família e a Comunicação Social", com um texto sobre os pais que partilham tarefas com as mães, intitulado “Um homem na sala e na cozinha”.
Em 2008 publicou o livro "A Escola Ideal: Como escolher a escola do seu filho dos 0 aos 18 anos". É co-autora, com a professora Ana Soares, do blogue Educar em Portugues. É casada e mãe de um rapaz e de uma rapariga.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A importância do "não"

*Por Bárbara Wong

Eles estão na pré-adolescência, os seus rostos estão a mudar, as bochechas-gordas-que-apetece-comer desapareceram e na linha T começam a aparecer as primeiras borbulhas. Mas, de manhã, ainda não acordaram e as suas faces continuam a cheirar a bebé. Espreguiçam-se e esticam o corpo, tal e qual como quando eram recém-nascidos, e nós, os pais, ficávamos a olhar para eles, embevecidos.

Hoje, continuamos a olhar para eles embevecidos não porque se espreguicem, riem ou balbuciem, mas porque estão grandes, porque começam a ser autónomos e responsáveis.

Só que nem todos os dias são de embevecimento! Há dias de arrelias, de confronto porque estão a crescer, porque têm as suas opiniões e fazem questão de as defender. Mas é assim desde pequenos, os motivos de confronto é que vão mudando: primeiro, não querem comer a sopa e determinados fecham a boca; depois, não querem ir para a cama mais cedo...

Para todos estes momentos, a psicóloga espanhola María Jesús Álava Reyes, autora de vários manuais de auto-ajuda, publicados pela Esfera dos Livros, recomenda que os pais sejam coerentes. Nada de dizer primeiro que “não”, mas ao mínimo confronto fazermos a vontade à criança. As regras são fundamentais para que a criança tenha estabilidade e segurança.

"O não também ajuda a crescer", recém-publicado, é um livro muito prático que acompanha o crescimento da criança desde o momento que nasce até à idade adulta e é arrepiante quando se lê, lá mais para o fim, o que é que os filhos crescidos e com problemas dizem aos pais: Porque é que me deixaste fazer tudo o queria? Porque é que nunca me disseste que não?

No final de Janeiro, María Jesús Álava Reyes esteve em Lisboa e conversei com ela. Dizia-me que as crianças são muito diferentes e mudaram muito nos últimos 30 anos. Sabem mais, mais cedo; mas adquirem maturidade mais tarde. A culpa é dos pais, diz claramente. Somos nós que os superprotegemos, que lhes damos tudo, seja a comida favorita, seja o jogo que todos os outros têm.

No livro, María Jesús Álava Reyes explica: “Os pais têm de ser pais, não colegas, têm de assumir o seu papel e as suas funções, embora por vezes lhes custe; têm de ser capazes de orientar os seus filhos, favorecer o seu pensamento, o seu raciocínio, a sua sensibilidade, a sua sociabilidade, o seu auto-controlo, o seu afecto; ainda que por vezes pressuponha um esforço importante da sua parte; ainda que por vezes as crianças pareçam fechar-se nos seus argumentos; ainda que emocionalmente lhes seja muito difícil; mas têm de consegui-lo e para isso comportar-se-ão como adultos, falarão como adultos, estabelecerão as normas como adultos e, se necessário, reforçá-los-ão ou dir-lhes-ão “não” como adultos.”

Com María Jesús Álava Reyes não aprendi a dizer “não” porque essa é a palavra que os miúdos mais ouvem desde que nascem; mas aprendi que o “não” nem sempre precisa de ser explicado, que é o que sempre faço. Por exemplo: Se nos pedem para ir para a cama mais tarde e nós dizemos “não”, nada de ficar meia hora a justificar aquela decisão. Foi meia-hora que as crianças perderam de sono e ganharam com a sua teimosia. Basta dizer-lhe: “Já sabes que tens que ir para a cama cedo” e acabou!

No dia seguinte, lá estarei, embevecida, a vê-los acordar.

*Bárbara Wong é jornalista no "Público" há 13 anos, especializada em temas de Educação, Ensino Superior e Família.
Em 2005 ganhou o prémio de jornalismo "A Família e a Comunicação Social", com um texto sobre os pais que partilham tarefas com as mães, intitulado “Um homem na sala e na cozinha”.
Em 2008 publicou o livro "A Escola Ideal: Como escolher a escola do seu filho dos 0 aos 18 anos". É co-autora, com a professora Ana Soares, do blogue Educar em Portugues.
É casada e mãe de um rapaz e de uma rapariga.