terça-feira, 7 de maio de 2013

O que vos fizeram hoje.


"I'm Sorry", ilustração original daqui.

Sete de Maio de dois mil e treze.
Escrevo por extenso, para assegurar a solenidade da data, neste espaço virtual onde talvez, daqui a muitos anos, alguém venha procurar artefactos da história dos nossos dias.

Se-te-de-Mai-o-de-dois-mil-e-tre-ze.

Este é o dia em que cerca de 107 mil crianças de 10 anos saem das suas casas para fazer o exame do quarto ano.

Vão pelo próprio pé umas, outras são levadas diligentemente pelos pais, ainda outras transportadas em autocarros, nos casos em que as sedes de agrupamento ficam a muitos quilómetros da escola de origem.

Do que está para trás destas crianças, ninguém sabe. Se gostam ou não de comer a sopa, se têm sopa sequer para comer, se lhes dói a barriga antes de entrar para a sala onde vão fazer o exame, se acabaram de se esquecer da matéria toda porque estão nervosos, ou se estão descontraídos e confiantes, se as professoras trabalharam com eles exercícios em que sentiam mais dificuldade ou se tiveram 4 professores diferentes num mesmo ano lectivo, se em casa têm pais pacientes que fazem revisões na mesa da cozinha ou se, pelo contrário, lá em casa há uma mãe que trabalha 18 horas diárias e um pai alcoólico e desempregado: isso não se sabe. Ninguém sabe.

(Elas sabem, as crianças. Mas mais ninguém quer saber.)

A próxima hora vai valer 25% dos últimos quatro anos.

Isto é como dizer que vale um ano inteiro.

Ainda faltam uns minutos e isso é bom.

Assim as crianças ainda têm tempo de falar com os repórteres das televisões que os aguardam no pátio.

Estás nervosa? Já estudaste tudo? E sabes que lá dentro estão professores diferentes? E gostas mais do português ou da matemática?

A pertinência informativa escapa-me, mas prefiro focar-me no ar doce com que os meninos respondem a estas questões absurdas, poucos minutos antes de entrarem na sala. Espanto-me em como se fala tanto de birras e de pequenos ditadores e, afinal, como são pacientes e doces estas crianças que vejo na televisão importunadas por adultos tontos.

Está na hora.

Carregando as suas canetas pretas, o lápis, a borracha e a sua história individual, as crianças entram na sala. À sua espera têm caras desconhecidas mas também um presente de boas-vindas, preparado com desvelo pelo Júri Nacional de Exames.  

Uma declaração, um compromisso de honra, em como não têm consigo telemóveis nem equipamentos não autorizados.

O Júri Nacional de Exames, essa entidade orwelliana, da qual se sabe pouco e que tanto pode ser constituída por pessoas de bem, competentes, incompetentes, génios da educação ou psicopatas furiosos - apenas para citar alguns exemplos - entendeu que esta declaração, este compromisso de honra era necessário.

 As crianças têm dez anos. A maioria não sabe sequer o que é cabular e o pouco que terão da noção de “honra” não deveria em nada estar relacionado com telemóveis.

“Honra”
e “telemóvel” são, aliás, palavras que não deviam aparecer juntas em nenhuma frase. Muito menos para ser lida e assinada aos dez anos de idade.

E no entanto, as 107 mil crianças assinam.  

Sete de Maio de dois mil e treze.

Este foi o dia em que o Governo português gastou cerca de 600 mil euros numa prova que envolveu deslocalização de professores e crianças e um dispositivo de forças de segurança capaz de intimidar o mais perigoso dos delinquentes.

Este foi o dia em que Portugal, o mesmo país que até há pouco tempo tinha no Governo um ministro com suspeita de forjar habilitações, obrigou crianças de 10 anos a assinar compromissos de honra,  antes de um exame que havia sido extinto há mais de 30 anos, quando se começou a trilhar o caminho, difícil e tortuoso, de uma escolaridade mais completa, mais inclusiva, mais justa e amiga das crianças. 

Sete de Maio de dois mil e treze.

Este foi o dia em que, em Portugal - o mesmo país onde há uns tempos se marchou nas ruas contra o novo sistema de avaliação dos professores - ninguém marchou pelas crianças.

Sete de Maio de dois mil e treze.

Este foi também o dia em que muitos recuperaram argumentários individuais de que as crianças se querem rijas, de que também fizeram o mesmo exame e que estão vivos, de que estas não são mais do que preocupações de pais dramáticos e hiperprotectores que fazem tudo pelos filhos.

Este seria o dia em que esses argumentos não teriam qualquer impacto em mim.

Que os colocaria no mesmo nível dos que defendem a “palmada educativa”, o viajar em carros sem cadeiras de segurança, as reguadas, as orelhas de burro contra a parede, as sopas de cavalo cansado ao pequeno almoço ou o “tempo do Salazar é que era”.

Mas não foi.

Porque hoje os argumentos individuais, aos quais reconheço direito e legitimidade na sua liberdade de expressão, se tornaram aterradores para mim, por terem eco precisamente nas instituições que deviam estar acima deles. Que deviam ter o melhor conhecimento, a maior evidência disponível, o maior cuidado e pedagogia ao serviço das crianças. Não tiveram.  
Porquê? Não sei.
(Mas desconfio.)

Sete de Maio de dois mil e treze.

Este foi o dia em que tive desde manhã a respiração acelerada e a garganta a sufocar por lágrimas quentes e incrédulas.

Se alguma destas 107 mil crianças aqui vier dar num dia futuro, fique a saber:

Eu, Constança Ferreira, no dia sete de Maio de dois mil e treze, estou contra.

Desoladamente contra aquilo que vos fizeram hoje.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Coisas para pensar II (o regresso às aulas)


"Mais do que a gripe ou as infecções respiratórias, são as dores de cabeça e de barriga, os vómitos e mal-estar que afectam as crianças no início do ano lectivo, uma "doença" que os pediatras atribuem às exigências escolares. "Neste recomeço do ano escolar, os principais problemas pediátricos não estão a ser a gripe nem as doenças infecciosas, que felizmente têm tido uma muito baixa expressão, mas sim as perturbações de comportamento induzidas por uma escola que está virada para a média".

(notícia com declarações do pediatra Luís Januário, na altura presidente da SPP, à agência Lusa, em Outubro de 2009)

 Três anos depois, a epidemia de "dores de barriga" associada à escola mantém-se actual?

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Coisas para pensar (e o regresso)

"O aprendido é o que fica depois do esquecimento fazer o seu trabalho"





*Rubem Alves é um filósofo, escritor, pedagogo e teólogo brasileiro. Este é o primeiro de vários posts que O Bebé Filósofo vai fazer por estes dias sobre o regresso às aulas. O objectivo é, ainda antes de arrumarmos as mochilas, começarmos já a pensar em conjunto. As vossas perspectivas são muito importantes e a discussão de várias ideias é fundamental. Pais, professores, crianças ou simplesmente todos os que continuam aí desse lado, por favor enviem a vossa opinião. Até já!

quinta-feira, 22 de março de 2012

Vacinas Prevenar 13 e Rota Teq

Comunicado da Comissão de Vacinas da Sociedade Portuguesa de Pediatria e da Sociedade de Infecciologia Pediátrica: 

A Comissão de Vacinas da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP) e da Sociedade de Infecciologia Pediátrica (SIP) teve conhecimento através da Circular Informativa nº 069 de 19/03/2012 do Infarmed que (transcrito de circular):

“Na sequência da receção de uma notificação de suspeita de reação adversa grave, o Infarmed, como medida de precaução, determina a suspensão imediata de utilização das seguintes vacinas:
- RotaTeq, solução oral, lote nº 1590AA/0671579, prazo de validade 31/05/2013
- Prevenar 13, suspensão injetável, lote nº F73745 (917690), prazo de validade 31/05/2014

Atendendo a que estes medicamentos são dispensados em farmácias e administrados por profissionais de saúde, as entidades que possuam estes lotes de medicamentos não os devem dispensar ou administrar, até que seja concluída a avaliação resultante da presente situação. “

A comissão de vacinas da SPP e da SIP informa que este é um procedimento normal quando é relatado um acontecimento grave que ocorre nos dias após a administração de vacinas e que diz respeito só aos lotes envolvidos, não estando provada qualquer ligação entre as administrações de vacina e o evento ocorrido.
A comissão de vacinas da SPP e da SIP, reforça que as vacinas Rota Teq e Prevenar 13 são vacinas com elevado padrão de segurança, documentadas pelos estudos científicos realizados no pré e pós comercialização.

As vacinas Rota Teq e Prevenar 13 são eficazes no combate à infeção grave respetivamente por rotavirus e por pneumococo pelo que, fora os lotes suspensos e indicados na circular de 19/03/2012 do Infarmed, as recomendações da sua administração devem manter-se.

segunda-feira, 19 de março de 2012

A primavera não se discute


Antes não havia internet, então eu passei a minha infância a tentar explicar aos adultos que não, ao contrário das outras estações do ano, a primavera não começava num dia 21 mas sim no dia 20 de março.


Já não me lembro como sabia eu tudo isto desde tão pequenina. Provavelmente terão sido os meus pais a explicar-me. Tenho também a sensação de ter uma vez visto um programa de televisão em que alguém explicava detalhadamente o tema e de eu ter decidido que era muito importante guardar aquela informação.


Enfim.


A verdade é que era difícil encontrar um adulto que soubesse disto e o assunto foi motivo de grandes discussões desde aí os meus 5 ou 6 anos de idade. A primavera começa com o equinócio de março, dizia eu, que ocorre quase sempre no dia 20. Excepcionalmente calha a 21.


Não é uma efeméride inventada pelo homem, explicava a quem insistia.
E diziam-me “não, não a primavera começa a 21, então não sabes que é o dia da árvore?”.
E a discussão acabava porque eu não encontrava resposta para observações tão estupidas como esta.


Decidi que nunca mais ia discutir com ninguém o início da primavera.


Acho que foi acertado.


Hoje constato que é difícil encontrar pessoas que não funcionem por dias marcados, que entendam que há coisas que têm mais a ver com o centro do mundo, a rotação terrestre, as leis do universo do que com dias inventados para ordenar o caos com que não conseguimos viver. Não importa. A primavera deste ano começa no dia 20 de março às 5h14 da manhã e eu recebo com esperança o equinócio, em que as 24horas se dividem em duas metades e a noite e o dia são exactamente iguais.


Quase 30 anos depois, fico surpreendida ao constatar o quão importante continua a ser para mim assinalar correctamente o início da primavera. 


Talvez por ser o dia em que a minha mãe me puxou para fora, enquanto eu entrava no mundo sem chorar e a olhá-la fixamente nos olhos.


É. Pode muito bem ser por isso.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Arte imprevista

Chamam-se "low commitment projects", algo como "projectos de baixo investimento" numa tradução livre. Requerem pouca energia, quase nenhum dinheiro, pouco esforço e são uma forma deliciosa de pontuar o quotidiano com expressões de arte imprevista.

A ideia é de duas ex-estudantes de Arte que mantêm contacto uma com a outra, através destes pequenos projectos com concretização fácil.

Os projectos são inesperados e simples, o tipo de coisas que ocorre muitas vezes às crianças, mas não tão frequentemente aos adultos. De todas as formas, quase todos são replicáveis ou podem servir de inspiração para tentar algo de semelhante em casa. Ora espreitem,

"Coffee and milk"


"Hanging around"


 "Shadow Play"

E muitos outros aquihttp://lowcommitmentprojects.com/

terça-feira, 13 de março de 2012

Coisas que as mães já sabem (e a Ciência agora descobre)

Com um olhar mães e bebés sincronizam bater do coração


Este comportamento já tinha sido estudado em animais, mas é a primeira vez que o mesmo é sugerido em humanos

Mães e filhos podem sincronizar o bater dos seus corações através de gestos simples como olhar ou sorrir, de acordo com investigadores da universidade de Bar-Ilan, em Israel.

Os investigadores descobriram que os afetos visíveis das mães têm efeitos psicológicos em bebés de três meses e estudaram-nos, medindo o ritmo cardíaco.

Atendeu-se à sincronização de afetos e da voz, provando-se uma maior sincronização biológica nesses momentos, explicaram os investigadores à publicação Infant Behavior and Development.

Este tipo de comportamento já tinha sido estudado em animais, ficando provado que as interações sociais afetam o o corpo do bebé animal, mas esta é a primeira vez que o mesmo é sugerido em humanos.
(notícia aqui)


quarta-feira, 7 de março de 2012

Crianças tomam medicamentos a mais

Um estudo inédito em Portugal identificou um «elevado» consumo de medicamentos nas crianças e casos em que os cuidadores administraram fármacos que foram vendidos sem a obrigatória receita médica e cujos efeitos secundários poderiam ter consequências mais graves.
Da responsabilidade de profissionais dos hospitais Dona Estefânia, em Lisboa, e Fernando Fonseca, no concelho da Amadora, o estudo sobre o «Uso (ou abuso) de fármacos na idade pediátrica» foi publicado na Ata Médica Pediátrica. A pediatra Maria João Brito, uma das responsáveis da investigação, reconheceu à Agência Lusa que esperava que a utilização de fármacos «fosse mais criteriosa» nas crianças, «dadas as suas particularidades orgânicas».
De acordo com o estudo, que incluiu 189 crianças com idade média de 5,8 anos, a maioria dos inquiridos (63,5 por cento) tinha tomado pelo menos um fármaco nos três meses anteriores. Os medicamentos mais usados foram os analgésicos/antipiréticos e anti-inflamatórios não esteroides (41,1 por cento), com utilização quase exclusiva do paracetamol e ibuprofeno.
«Apesar da utilização elevada destes fármacos ser expectável devido à frequência da patologia viral nesta faixa etária, os resultados alertam para a necessidade de uma maior monitorização», defende Maria João Brito. A especialista adverte que, «pelo facto de serem medicamentos de uso comum e não estarem sujeitos a receita médica, o seu consumo pode ser banalizado, condicionando riscos acrescidos». Foram igualmente identificados antibióticos sistémicos (25,8 por cento), anti-histamínicos (6,9 por cento), broncodilatadores (3,5 por cento) e antitússicos/expetorantes (6,9 por cento).
Maria João Brito sublinha que «em nenhuma idade se deve medicar desnecessariamente, mas em grupos etários mais jovens os efeitos secundários podem manifestar-se mais frequentemente». ««A utilização de fármacos não adequados em grupos etários específicos deveria ser vigiada e regulamentada por entidades superiores», defende a pediatra.
Sobre o consumo de antibióticos, Maria João Brito lembra que existem estudos que apontam para «uma utilização excessiva de antibióticos nas infeções respiratórias potencialmente autolimitadas em possível relação com um diagnóstico incorreto, receio do médico de não medicar uma infeção bacteriana grave e dificuldade no seguimento».
Maria João Brito reconhece que «os médicos são muitas vezes pressionados para prescreverem antibióticos em doenças que estes fármacos não têm qualquer interferência, como nas doenças virais, muito frequentes na idade pediátrica», embora se tenha vindo a assistir a «uma menor cedência por parte do médico e a um maior reforço junto dos pais sobre as indicações dos antibióticos». A investigação apurou automedicações (pais, próprio e ama) em 19,1 por cento dos casos e quatro medicamentos (2,3 por cento) recomendados na farmácia. Estas automedicações ocorreram quase exclusivamente com antipiréticos e analgésicos não sujeitos a receita médica, mas em nove casos foram usados fármacos sujeitos a receita médica: anti-histamínicos, enzimas anti-inflamatórias, analgésico (clonidina) e ansiolítico (valeriana).
Maria João Brito realça casos em que foram usados fármacos sujeitos a receita médica, mas que «os pais tiveram acesso a medicação sem prescrição e os efeitos secundários poderiam ter consequências mais graves». Ainda assim, foram relatados possíveis efeitos secundários em seis crianças, maioritariamente gastrointestinais e em associação com consumo de antibióticos, que conduziram à suspensão da terapêutica por parte dos pais, lê-se no estudo. A médica chama a atenção para os riscos do uso indevido de fármacos: podem ocorrer efeitos secundários ligeiros a graves, além de que o quadro clínico pode ser mascarado com o uso indevido de fármacos que podem dificultar e atrasar o diagnóstico.
 Notícia Agência Lusa, 22 Fev, 2012 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Parabéns, Mariana.


Eu lembro-me do dia em que ela nasceu, há 31 anos atrás. Lembro-me de estar em casa da minha avó e de me terem dito que a minha mana ia nascer. 

Não me lembro bem da sucessão de acontecimentos. 

Mas lembro-me que nesse dia estavam duas brasileiras em casa da minha avó, de visita. De dizerem que me tinham trazido uma camisola linda do Brasil. E de a camisola ser afinal uma camisa de dormir e de eu ficar a achar que me tinham enganado ou talvez que se tinham enganado elas porque aquilo não era camisola nenhuma. Lembro-me de não dizer nada na altura mas de tomar uma nota mental para debater isso mais tarde com a minha mãe. 

(se eu já a conhecesse nesse dia, a nota mental teria sido para comentar com ela).

Eu tinha 22 meses na noite que a minha irmã nasceu. Dizem que é impossível eu lembrar-me disto tudo, mas é verdade: eu lembro-me.

Como me lembro da avó a dizer que tu tinhas nascido, Mariana, e as brasileiras, tudo aos beijos, tão contentes.

Isto eu já não me lembro, mas a mãe faz questão de contar em todos os jantares de família, sempre que quer demonstrar o quão malévola eu sou. Não me lembro, juro, mas deve ser verdade que te dei um pontapé com as botas ortopédicas quando tu ainda nem andavas e que quando a mãe me foi castigar, tu te penduraste nas pernas para a impedir, enquanto gritavas que a mãe era má por me estar a bater. Ainda tinhas a cara inchada do pontapé, diz a mãe, quando vieste defender-me. 

Mais tarde, lembro-me só muito vagamente que estávamos a brincar às vizinhas, e eu te fechei a porta da casa de banho na cara e o teu dedo ficou metade dentro, metade fora e tu aos gritos e a Isabel aos gritos e sangue.

(E o teu dedo, para sempre cortado, o dedo da “batata”, como naquela foto na praia que estás tão bonita e depois vamos ver e na contraluz, um dos teus dedos mais pequeno que os outros. Desculpa, desculpa e estou a ser sincera, embora saibas que estou também a rir, mana, como é possível rir-me eu sei, mas estou arrependida, embora vistas bem as coisas até tenha piada. Agora. Na altura, não.)

Lembro-me vagamente, muito vagamente, de todas as asneiras e maldades que te fiz ao longo dos anos, mana. Mas há recordações mais claras para mim. Como quando dormíamos fora de casa e não havia a luz no corredor ou os barulhos na sala que nos embalavam habitualmente e tu tinhas medo do escuro. Então perguntavas-me “esperas por mim?” e eu dizia que sim e tentava manter-me acordada enquanto adormecias. Adormecíamos de mãos dadas, as duas.

Também me lembro dos nossos livros preferidos. Nunca deixámos de ler os nossos livros preferidos. Agora lemo-los às crianças que chegaram entretanto, mas nós… Mariana. Nunca deixámos de ser crianças as duas. 

Porque nos temos uma à outra. 

Tenho a certeza que é por isso. E é por isso também que ainda nos mandam calar às duas nos jantares de família em que nós estamos aos risinhos quando alguém discursa. E é por isso que os nossos irmãos, mais novos que nós, reviram os olhos e nos chamam infantis e parvas. E é por isso que gritamos tanto, choramos tanto, rimos tanto e nos abraçamos tanto. Somos infantis juntas, mas somos também corajosas. Damos coragem uma à outra, acho que é isso. 

Ainda há pouco tempo disseste-me: Tu nunca, mas nunca vais estar sozinha. 
E isso, garantido por ti, foi provavelmente a frase em que mais acreditei na vida inteira.
Desde que nasceste nunca mais fui sozinha.

É também porque me garantiste que, se me acontecesse alguma coisa tu nunca deixavas os meus filhos, que eu continuo a entrar em aviões, apesar de achar sempre que me vou estatelar a milhões de metros de altitude. Se os meus filhos não me tivessem a mim queriam ter-te a ti e isso tranquiliza-me. Haver para os meus filhos outra pessoa no mundo como eu. 

Com o mesmo património, as recordações, os cheiros da infância, as mãos dadas no medo do escuro.
A minha irmã. 
Adoro-te. Com todo o meu coração.
Parabéns, mana.


(Perdoa-me as botas ortopédicas que eu perdoo-te quando me puseste comprimidos para dormir na sopa para ires sair à noite. E eu tinha frequência no dia a seguir.
Pronto, não se fala mais nisso.)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Recomendações da DGS e Protecção Civil para o tempo frio

TEMPO FRIO - MEDIDAS DE AUTOPROTECÇÃO

"Na sequência do briefing técnico realizado entre a Autoridade Nacional de Protecção Civil, o Instituto de Meteorologia, a Direcção-Geral da Saúde e o Instituto da Solidariedade e Segurança Social, há a salientar um conjunto de medidas de autoprotecção face às temperaturas baixas, em especial durante a noite, em particular entre Sexta-feira e Sábado (dias 3 e 4 de fevereiro).

É necessário especial atenção aos grupos populacionais mais vulneráveis, crianças, idosos e pessoas portadoras de patologias crónicas. A Direcção-Geral da Saúde recomenda a adopção das seguintes medidas:
. que se evite a exposição prolongada ao frio e as mudanças bruscas de temperatura;
. o uso de várias camadas de roupa, folgada e adaptada à temperatura ambiente;
. a protecção das extremidades do corpo (usando luvas, gorro, meias quentes e cachecol);
. a ingestão de sopas e bebidas quentes, evitando o alcool que proporciona uma falsa sensação de calor;
. especial atenção com a proteção em termos de vestuário por parte de trabalhadores que exerçam a sua atividade no exterior, e evitar esforços excessivos resultantes dessa atividade.

A Autoridade Nacional de Protecção Civil recomenda ainda:
. especial atenção aos aquecimentos com combustão (ex. braseiras e lareiras), que podem causar intoxicação e levar à morte;
. que se assegure uma adequada ventilação das habitações, quando não for possivel evitar o uso de braseiras ou lareiras;
. que se evite o uso de dispositivos de aquecimento durante o sono, desligando sempre quaisquer aparelhos antes de se deitar;
. que se tenha em atenção a condução em locais onde se forme gelo na estrada, adoptando uma condução defensiva;
. especial atenção por parte das famílias e vizinhos, e das redes sociais de proximidade, com as situações de pessoas idosas e em condição de maior isolamento.

Para além das recomendações acima descritas, encontrará informação adicional em www.dgs.pt, www.meteo.pt e www.prociv.pt .

Através da Linha Saúde 24 (808 24 24 24) poderão os cidadãos obter esclarecimentos adicionais sobre os efeitos do frio na saúde, medidas de autoprotecção ou ser devidamente encaminhados para os serviços de saúde quando se justifique."

(pdf disponivel em DGS.pt)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Fim de semana

E o regresso da Ilustrarte ao Museu da Electricidade em Lisboa.

Desenhos de todo o mundo, entrada gratuita, junto ao rio, numa exposição que, não sendo para crianças especificamente, as acolhe como deve ser.

Só boas notícias.

Mais aqui: http://www.ilustrarte.net/

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A esperança não vem em latas



Não há luzes na rua, respondi-lhe, 
Mas temos luzinhas lá em casa. E teremos sempre luzinhas no nosso coração. E isso é o mais importante.

(Que treta, Constança. Que treta, grito silenciosamente a mim própria. 
Isto que estás a dizer à tua filha de cinco anos são tretas e tu sabes.)

Ela antecipou-se, e quase em eco com a minha voz interior, disse: 
Isso não faz sentido nenhum, mãe.

.............


Bom. A verdade é esta.

Em Dezembro de 2011 não houve luzes de Natal na nossa rua. Até podiam ser fiadas simples, aproveitadas das festas da terra, uns meses antes. Mas não houve. Nem uma. Como também não houve nas varandas das casas das pessoas que todos os anos ajudam a enfeitar a rua.
Nada.

Em Dezembro de 2011 por falta de dinheiro, ou de espírito, ou de ânimo ou, se calhar, por nada disto, mas apenas por vergonha de estar associado a qualquer coisa vagamente semelhante a uma comemoração ou festa, não houve uma única luzinha de Natal na minha rua.

Não entendam mal. Este texto não é um manifesto a favor das iluminações ou o que quer que seja. É só uma reflexão. Pensar ainda é gratuito, então eu acho que em alturas como esta, pensar é uma coisa que toda a gente devia fazer mais.

(como dar abraços e beijinhos e escrever bilhetinhos e dizer coisas parvas e rir à gargalhada. Isso também é tudo gratuito, mas compreendo que ninguém tenha grande vontade de o fazer. Só se fossemos tontinhos, dir-me-iam, se calhar, se eu o sugerisse neste texto.Não sabes a situação em que estamos?)

Como estamos em crise, as reacções que temos têm que ser mais pensadas, mais de acordo com “o manual de normas do comportamento aceitável em momentos de crise”.

Por exemplo. Não temos luzes de Natal nas ruas, mas depois, no dia de Natal, aparece um vídeo da Coca Cola a dizer que vai tudo correr bem. De repente temos vontade de abraçar toda a gente e distribuir beijos a eito. Vai correr tudo bem, mundo! 
Mas espera. 
Agora há um novo vídeo e este diz que temos é razões para odiar a Coca-Cola e os governos e que afinal há muito mais pessoas corruptas no mundo do que ursinhos de peluche e pronto, está tudo estragado outra vez. Que desânimo, para quê levantar da cama, estamos condenados, afinal. É aquela questão que sempre detestei: o copo está meio cheio ou meio vazio? E quem decide a perspectiva: somos nós ou quem segura o copo?

São assim os sentimentos enlatados. Trazem interesses escondidos, são de rápido consumo e pior, sejam bons ou maus, positivos ou negativos, não são nossos. Nós só somos ecos, arrastados na maré. 

Colaborantes, quase sempre. Algumas vezes mais inflamados. A encolher os ombros, na maior parte dos casos. Foi assim no final deste ano. Adivinha-se assim o próximo. A indiferença é mais gerível, afinal. Não cansa tanto.

No ano passado escrevi aqui uma história em que as crianças salvavam o mundo da indiferença.

Este ano não chamo os pássaros, e poupo nas metáforas. Vou dizê-lo claramente: são as crianças que vão salvar o mundo.

Porque não é preciso ensinar-lhes a esperança. Porque riem se estão felizes e choram se estão tristes. E o mundo pode mudar a cada dia, mas elas continuam a acreditar no Pai Natal e em fadas, e na magia em geral. E mais do que nunca, hoje, acreditar no Pai Natal e em fadas é absolutamente essencial.

Porque fazem perguntas, porque questionam, porque não desistem até terem resposta. E se a resposta não é satisfatória, elas perguntam outra e outra vez. Porque fazem birras, e porque o fazem em muitos casos, porque acham mesmo que têm toda a razão e que não é justo. E se não é justo, qual é o sentido de se calarem?

As crianças podiam salvar o mundo porque são corajosas. Porque enfrentam os adultos, quando estes têm duas vezes o seu tamanho. 

Mas acima de tudo, porque é na adversidade que pedem mais beijos, mais colo, mais amor. Porque quando estão tristes ou sozinhas, ou com medo do escuro no meio da noite, chamam por alguém.

E isto é o que todos devíamos fazer.


A tua pulseirinha está quase a romper-se, digo-lhe, para desviar o assunto das luzes,
Ainda te lembras do que desejaste?

Claro que sim, mãe.
Desejei um lindo arco-íris e duas borboletas.

….

segunda-feira, 25 de julho de 2011

sexta-feira, 15 de abril de 2011

As crianças e a crise



Por Deolinda Barata*

É uma realidade inquestionável que a “crise” também chegou ao universo das nossas crianças e para isso muito contribuiu a televisão que as bombardeia constantemente com a “crise financeira”, o “IVA”, o “FMI”, a “BOLSA”, o “Rating”. Descobrimos até que fazem arremedos a opinar sobre a política fiscal… «então mãe, não achas que o IVA não devia aumentar, porque assim as coisas ficam mais caras e é pior para toda a gente?»!


Este facto obriga-nos a estar redobradamente atentos não ocultando este registo às crianças para as poupar a preocupações e ansiedades!

Além disso os pais/família têm de assumir uma atitude equilibrada, sensata e ponderada para que a “ansiedade financeira” causada pelas medidas de austeridade, vivenciando um quotidiano, por vezes doloroso, de sobrevivência, não os coloque a si mesmos num estado de preocupação, ansiedade e mesmo de dramatismo que os torne muito menos disponíveis e despertos para as inquietações das suas crianças. É fundamental não esquecer que se deve dar sempre às crianças uma perspectiva de “saída”, de optimismo e positiva em relação ao futuro. Pois para se ter empenho e interesse em crescer com as potencialidades de desenvolvimento como pessoa, é necessário ter uma ideia de “futuro” e não de “beco sem saída”.

Esta atitude proactiva seguramente implica uma reformulação do modelo de vida vigente (baseado no consumo e no “quanto mais melhor”, mesmo que desnecessário), educando os nossas filhos, dando importância mais “ao ser” do que “ao ter”. É óbvio que é necessário aprender a viver em padrões de desenvolvimento diferentes, outras formas relacionais de vida, com maior enriquecimento pessoal, sem ser necessariamente à custa do consumo exagerado de bens materiais.

É necessário reformular hábitos, saber, em total partilha e envolvimento das crianças (explicando de maneira adaptada às suas idades, desdramatizando as arestas mais agudas) estabelecer um plano de despesas e gastos, estabelecendo prioridades e banindo o que é supérfluo. Esta atitude não significa um empobrecimento da vida relacional, afectiva, social e cultural, bem pelo contrário.

Por paradoxal que possa parecer, as “crises” em geral obrigam-nos a repensar os projectos de vida e a encontrar soluções mais criativas e eventualmente mais satisfatórias. Assim, é fundamental que os Pais/Famílias evitem dar uma dimensão catastrófica da vida, oferecendo sempre a ideia de que há um “futuro” para o qual há uma saída, reforçando o conceito que o ser humano é dotado de uma capacidade de adaptação às adversidades, ultrapassando-as. Deve ser dado relevo a que as pessoas/famílias podem sair destas crises (quando superadas com equilíbrio) com aumento das suas competências relacionais, sociais e culturais.

Contudo não deve ser esquecido que existem situações de extrema pobreza, degradantes sob o ponto de vista humano, que conduzem à exclusão social e que obrigam necessariamente a desencadear medidas concretas de ajuda, nomeadamente pelos órgãos de decisão (Estado/Governo), dotando as famílias de meios que lhes permitam sair desta situação humilhante socialmente. Além disso, deve ser fomentada uma cultura de cidadania, com sociedades solidárias e preocupadas com “o outro” que necessita de ajuda.

Como explicar a crise às crianças

A crise deve ser explicada às crianças com verdade, de uma maneira simples e perceptível para o seu grau de compreensão, sem dramatismos desnecessários ajudando a fazer opções, sempre com o seu envolvimento e partilha nas decisões. É fundamental explicar que a impossibilidade de comprar coisas que não são prioritárias não é uma catástrofe, pois há crianças que podem vivenciar estas opções angustiadas pela ameaça de “ruína” (todos nós já vivemos com menos bens de consumo e não nos angustiámos e envolvemo-nos com a vida com alegria!).

Obviamente que o “aperto” financeiro dos pais pode ser motivo de ansiedade entre os mais novos se os pais projectarem sobre os filhos as suas inquietações, angústias e a ansiedades.

Os pais com a vida pessoal e profissional tão intensa e exigente, a quem resta pouco tempo para partilhar com os filhos, é frequente que, numa atitude de desculpabilização e compensação “comprem” os filhos, oferecendo-lhes bens materiais, a maior parte das vezes desnecessários. Como nesta época de crise a capacidade de compra diminuirá consideravelmente, podem agora os pais explorar outras abordagens, encontrando maior disponibilidade de tempo para o envolvimento afectivo e emocional com os seus filhos.

*Deolinda Barata é pediatra e presidente da Secção de Pediatria Social da Sociedade Portuguesa de Pediatria. 


terça-feira, 22 de março de 2011

Super-mães

Por Cláudia Pinto*




Contar histórias… Conhecer pessoas… Sentir-me pequenina quando vejo que, por vezes, também eu reclamo de quando em quando de coisas que, pasme-se, não têm mesmo importância! Enquanto jornalista especializada na área da saúde, tenho o grande privilégio de me cruzar com pessoas que têm uma história para contar e que me dão as maiores lições de vida que se possa imaginar.

A experiência é tão enriquecedora que tento manter-me a par das novidades e saber como estão… O Facebook acaba por ser um excelente aliado para que me sinta perto de entrevistados que me marcaram, por um ou outro motivo, e com quem acabei por ficar com uma ligação especial. Porque só assim sei viver nesta profissão.

Ao longo deste percurso, conheci verdadeiras super mães. Sara, Patrícia e Cristina. Três nomes de grandes mulheres, mães ideais, cada uma com uma história para contar e pelas quais tenho a maior admiração. Todas elas mães coragem que não baixaram os braços com as adversidades e que são movidas pelo amor. Sempre.

Sara Melo, mãe de cinco filhas, quatro delas, quadrigémeas. Todas elas foram as protagonistas de um artigo intitulado “Em quatro minutos, quatro bebés”. Benfiquista de coração, programou uma segunda gravidez porque gostava muito de ter um menino (já imaginava o filhote a jogar no Glorioso) até que uma ecografia deixou todos os profissionais da clínica extasiados. Aos poucos, Sara apercebeu-se que esperava quatro filhos… Sem tratamentos de fertilidade. De forma natural. Como se a mãe natureza a tivesse escolhido devido à sua garra, forma de viver a vida e de enfrentar a responsabilidade. Parece que Sara nasceu para ser mãe. Só uma pessoa com a sua energia e maneira de ser consegue dedicar-se por inteiro à maternidade no seu esplendor sem nunca ter sentido necessidade de apoio psicológico e com uma recuperação fora do normal. A vida é hoje e há que enfrentá-la. Sem medos. Como Sara sabe fazer tão bem ainda que durma poucas horas e se desdobre em funções.
Miriam, Zaida, Alícia, Cíntia e Dânia fazem as delícias de Sara e de Edgar, o super pai. Um dia-a-dia pouco rotineiro e cheio de aventuras para contar. Se tiver curiosidade, acompanhe http://www.mimieasquadrigemeas.blogspot.com/ e conheça melhor esta grande família. 
Patrícia Cãmano é mãe de Leonardo. Também ela tem dias e noites fora do comum e muito agitadas. Trabalha muito, dorme pouco, move céus e montanhas e não desiste. Consegue com determinação, serenidade, muito cansaço e amor incondicional apoiar o seu “ratinho”, um bebé que sofre de uma doença rara denominada de Lisecenfalia, que significa, cérebro liso.

O Leonardo é um bebé muito bonito a quem foi dada uma esperança média de vida de dois anos… mas felizmente o segundo aniversário já foi comemorado e os papás continuam a viajar até ao estrangeiro e a pedir variadas opiniões médicas para garantirem que a sua qualidade de vida melhora e que o sofrimento provocado pela doença pode ser minimizado. Não desistem. Vão à luta. Não se resignam. O Leonardo tem “um atraso mental profundo, com uma idade mental equivalente a 3 ou 5 meses de idade”, epilepsias graves e uma reduzida esperança média de vida. Contei esta história numa das revistas para onde escrevo e mantenho contacto com Patrícia via Facebook… Sinto-me impotente por pouco poder fazer mas apelo a quem souber mais sobre esta doença e a quem consiga aconselhar um especialista ou apoiar esta família de qualquer forma, que o faça sem hesitar. Não deixe de aceder ao blog oficial deste lindo “ratinho” em http://cerebro-liso-lisencefalia.blogspot.com/

Cristina Gonçalves Ferreira, mãe de António. Tudo corria bem na gravidez até ao 5º mês. Uma infecção contraída na gestação fez com que o seu filhote tivesse pressa de nascer. E nasceu. Com apenas 674 gramas. 24 de Abril de 2008 foi a data de nascimento do pequeno António, um verdadeiro lutador. Nasceu cedo demais como a defender-se da infecção que perturbou precocemente a gravidez.
A mãe de apenas 27 anos teve de aprender a lidar com a realidade de ter um filho prematuro que passou dez meses na unidade de neonatologia do Hospital de São Francisco Xavier. Cristina passava entre 10 a 12 horas no hospital para acompanhar o crescimento do pequeno António que sempre demonstrou vontade de viver. Os pais babados acompanham passo a passo o seu crescimento. Felizmente, António nunca ficou com sequelas motoras ou psicológicas. Três anos depois, é um bebé enérgico, carinhoso, de sorriso encantador… 
A mãe Cristina teve de dedicar-se em pleno ao seu filhote e deixar de lado alguns projectos profissionais, apesar de ter voltado para o curso de arquitectura que ficou em segundo plano depois do nascimento. Cada pequeno passo de António transforma-se numa grande vitória para a família.

Três mães, três histórias, três realidades. Mulheres que tive o privilégio de conhecer e que transformam a minha profissão na nobre possibilidade de contar estas histórias e passar mensagens de coragem. Para mim, que ainda sou só jornalista, tia de dois sobrinhos (a caminho do terceiro) e ainda não me aventurei na maternidade, fica o exemplo da enorme coragem com que cada uma vive os dias imprevistos e a realidade desconhecida. Espero um dia ser uma mãe tão forte, dedicada e brilhante! Sara, Patrícia e Cristina são AS super mães. Indiscutivelmente. Merecem o respeito de todos e a admiração de quem se cruza com elas. 

Merecem que a vida as trate bem. Porque dão muito da sua energia à vida. 

*Cláudia Pinto é jornalista especializada na área da saúde, editora do Jornal do Centro de Saúde e colaboradora em várias publicações da área. Está actualmente a concluir o Mestrado em Comunicação em Saúde pela Faculdade de Medicina de Lisboa.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Post-útil #6: Os vencedores ganham chocolate!

A Ana Catarina Pereira está  oficialmente nomeada como nossa colaboradora para sugestões giras de actividades para fazer com as crianças. Espreitem lá mais esta!

Uma ideia para oferecer à criançada nas festinhas de aniversário e substituir o saquinho carregado de chocolates, rebuçados, gomas e afins.......Feito com a ajuda deles!

Derreti uma tablete de chocolate com um pouco de leite e manteiga em banho maria.
Depois de tudo derretido passei para forminhas de queques com a altura de 1 cm de chocolate.
Vai ao frigorifico solidificar.
Depois é só retirar com cuidado.
As crianças podem cortar o papel de aluminio em quadrados e ajudar a forrar o chocolate.
Por fim é  colar uma fitinha ( ter várias cores - em qualquer retrosaria há) para colocar à volta dos pescoços deles.

Olhem as medalhas aqui! Tão giras!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Adopção

Na semana passada, o Bebé Filósofo foi convidado a estar no Programa Mais Tarde ou Mais Cedo na TSF.
O João Paulo Meneses, autor do programa, é também um pai que passou há uns anos pelo complexo processo de adoptar uma criança em Portugal. Porque nunca tínhamos falado deste tema no BF, pedimos ao João Paulo que nos desse as suas impressões sobre esta realidade, que sabemos ser muitas vezes semelhante a uma longa e frustrante gravidez. Aqui fica.


O que o levou a querer adoptar uma criança?
O desafio de pensar que podia contribuir para um futuro melhor de uma criança e o desejo de ter filhos;

Em traços gerais como foi o percurso?
Demasiado longo, desesperante mesmo, mas visto a esta distância recompensador. É uma prova de fogo que faz muitos desistirem. E acaba por, injsutamente, poder criar expectativas sobre a própria criança, sendo que ela não tem culpa dessa burocracia.

O que acha que está mal nos processos de adopção em Portugal?
A montante está um problema filosófico, o de que as crianças são, de alguma forma, propriedade dos pais. É esse conceito que prevalece na jurisprudência nacional e nas decisões, genericamente, dos senhores juízes. Esgotam-se todas as hipoteses e mais algumas para que as crianças não se desliguem dos pais, mesmo quando é por demais evidente que elas estariam melhor sem eles (ou alguns familiares). Por isso é que há tantas crianças à espera para serem adoptadas e é por isso que é muito raro conseguir adoptar um bebé (o que, felizmente, consegui). Em alternativa deveria prevalecer a ideia de que o mais importante é o interesse das crianças, que - em situações socialmente disruptivas - provavelmente não passará pelos pais biológicos, mas por quem tem amor e educação para lhes dar.

O que devem saber os casais que iniciam estes processos?
sobretudo saber esperar. Preparar-se para o 'pior cenário'; E saber lidar com a burocracia;

Que sentimentos ficam em quem passou por um processo destes?
Não gosto muito de recordar. Prefiro pensar no presente.

O JF chegou com 3 meses num dia 22 de Dezembro. 
Foi, de acordo com o João Paulo, "o melhor Natal das nossas vidas".

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O melhor presente do mundo

Por João Paulo Batalha*

É uma questão de marketing, suponho. Mudar a embalagem, dar-lhe um tom design. Pôr-lhe um daqueles selos tridimensionais com uma figurinha que muda de posição. Talvez ajudasse. É caso, seguramente, para contratar uma consultora estrangeira em marketing criativo que venha definir, a preço de ouro, a melhor maneira de vender a coisa. Porque é mesmo o melhor presente do mundo. A sério.

Várias vezes estive tentado a oferecê-lo aos meus irmãozinhos mais novos (e a cada oportunidade, sei que já viria mais tarde do que devia). Mas depois imagino o ar de desilusão que fatalmente lhes trespassaria a face e desisto – e eles já estão naquela idade em que sabem que é de bom tom fingirem que gostaram da prenda, mas ainda não estão naquela idade (e espero que nunca estejam) em que são bons no fingimento. Seria embaraçoso para todos. De modo que fica por oferecer, o melhor presente do mundo.

Senhores, o melhor presente do mundo: um cartão de biblioteca. Ridículo, não é? Um cartão de biblioteca, o melhor presente do mundo? Para crianças? Em que mundo?

Pois.

E no entanto, digo eu, oxalá fosse o mundo assim tão simples. Assim tão belo. Um cartão de biblioteca em vez de uma boneca esgotadíssima com uma câmara no pescoço (que mente doente se lembrou dessa?) ou um robot-transformer-destroyer para guerras a brincar que, se bem usado, leva o pequenito utilizador a um frenesim capaz de provocar guerras a sério – e ele que vá treinando, isto o mundo é uma selva.

Eis o problema: os tipos do marketing trabalham para o inimigo. Tal como um bom brinquedo – ensinam-nos eles – o amor é grande e brilhante e tem luzinhas e várias peças que se movem e dispara raios mortais pelos olhos e é capaz de destruir uma cidade e tirar vidas carregando no botãozinho (pilhas vendidas separadamente).

Além de que, na era do Google e da Wikipedia, ir à biblioteca para quê? Pior: ler para quê? É uma pergunta assassina nos tempos que correm, porque exige uma resposta longa e aborrecida – e isso já não se usa. Exige explicar que ao contrário de um filme ou um vídeo, que acontecem nos nossos olhos, a leitura acontece na nossa cabeça, na nossa imaginação. Ao ler um livro estamos a criá-lo, estamos a escrevê-lo na nossa mente, na nossa fantasia, com as palavras que tomamos emprestadas ao autor. Estamos a desenhar as feições das personagens, a arquitectar as cidades e os espaços na nossa imaginação.

Um filme é um filme, um jogo é um jogo. Estão ali à nossa frente e, bons ou maus, são o que são: os seus criadores construiram um universo visual, uma narrativa, e mostram-na tal como a imaginaram. Eles criaram, nós consumimos. Um livro não, porque um livro passa-se na nossa cabeça, porque não sendo visual obriga-nos a visualizá-lo na nossa imaginação. Um livro, o autor limita-se a escrevê-lo. É o leitor que o cria.

Ler por isto, digo eu. Ler porque não há substituto. Ler porque procurar uma coisa no Google não é aprender, é consultar. Ler porque das duas umas: ou alimentamos a nossa cabeça com produtos acabados – e aí somos consumidores – ou alimentamo-la com matéria-prima – e aí somos criadores.

As bibliotecas hoje, garanto-vos, existem em todos os cantinhos deste país e existem felizes e de portas abertas. E adoram crianças, e as crianças retribuem. Com espaços e programas especiais para o público infantil, com leituras de contos, com actividades, com descobertas. Porque também se aprende a leitura, e a relação com o livro, e a responsabilidade de levar um livro para casa e ter de devolvê-lo a tempo e em condições, porque ele pertence aos outros, aos nossos vizinhos, à comunidade, ao mundo. E aprende-se a solenidade saborosa de estar em silêncio numa sala de leitura – que é um ambiente que pode intimidar uma criança, “pouco barulho que há pessoas a ler”, mas que se aprende e que se adora (ou não me digam que o que se ama, o que verdadeiramente se ama nesta vida, não teve de ser aprendido?)

E é grátis. Digam-me lá, gurus do marketing, não se faz daqui uma campanha?

*Formado em História, João Paulo Batalha é jornalista e fundador da Storymakers, uma empresa dedicada à produção de exposições, eventos e produtos culturais para crianças.